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O meio rural tem passado por diferentes mudanças estruturais resultantes essencialmente do processo de urbanização, que se estendem e penetram em áreas significativas das zonas rurais, modificando os modos de vida dos habitantes do campo que se apropriam de novos estilos de vida3 e incorporam novos valores e rotinas tidas como mais modernas e urbanizadas.
Tais mudanças podem ser exemplificadas por um conjunto de atividades diferentes das tradicionais que passaram a ser desenvolvidas no campo. Essas atividades caracterizam-se pela incorporação de novos produtos agropecuários, industriais, prestações de serviços, comércio, atividades de entretenimento e turísticas, caracterizadas pela busca por espaços e/ou marcados pela tradição cultural, nos momentos de ócio (ENDLICH, 2010).
Rambaud (1973) acredita que esses processos tendem a uma aproximação econômica e social dos habitantes do campo e da cidade em função da efetiva expansão das cidades e das facilidades de acesso da população rural a bens e serviços modernos. Assim, por meio dessas facilidades de apropriação dos bens de consumo e do estilo de vida da sociedade moderna seria possível a integração cada vez maior dos indivíduos, independentemente de viverem no campo ou na cidade.
Nesse sentido, pode-se dizer com base neste mesmo autor, que a existência da inter-relação entre “rural” e “urbano” depende dos contextos sociais, na medida em que o moderno não deve ser entendido como um elemento que se alastra nos espaços rurais, e nem a tradição como um elemento que se apropria dos aspectos urbanos. Ou seja, a modernização e a urbanização que adentram em espaços rurais derivam de processos ativos e dinâmicos, almejados pelas próprias comunidades locais, que se apropriam de fatores de ordem socioeconômica e sociocultural sem, no entanto,
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A expressão “estilo de vida” pode ser entendido como demarcadores de diferenças sociais, culturais e econômicas. Segundo Bourdieu (2008, p.165), o “estilo de vida” constitui em “um conjunto unitário de preferências distintivas que exprimem, na lógica específica de cada um dos subespaços simbólicos, mobília, vestimentas, linguagem ou hexis corporal (...)”. Constitui, portanto, uma “cultura” adquirida em um grupo homogêneo, produto de disposições objetivamente concertadas, por constituírem a interiorização das estruturas objetivas. As práticas de cada agente social são produto de uma situação e um princípio gerador, o habitus. Estes manifestam-se na hexis corporal, a mitologia política realizada e incorporada, transformada em disposição permanente, como maneira durável de se comportar, de falar, de andar e, consequentemente, de sentir e pensar (D’AQUINO, 1996). Os estilos de vida são, assim, os produtos sistemáticos dos habitus que, percebidos em suas relações mútuas segundo os esquemas dos habitus, tornam-se sistemas de sinais socialmente qualificados.
resultar na descaracterização da sua cultura local e até mesmo na perda de sua identidade.
Carneiro (1997), em seu estudo sobre a ruralidade, parte de um viés relacionado à dificuldade que se tem em delimitar fronteiras entre a cidade e o campo, a partir de uma classificação amparada em atividades econômicas ou mesmo em hábitos culturais. O seu estudo evidenciou processos de dinamização desses espaços que nos leva a refletir que, diante do processo global em que vivemos, a visão dicotômica entre o rural e urbano não faz sentido. Isso porque, segundo a autora, as pessoas residentes no campo são capazes de absorver e de acompanhar o movimento e a dinâmica da sociedade em que se inserem e de se adaptarem às novas estruturas sem, contudo, desfazer de seus valores, costumes, hábitos e modos de vida tradicionais. O estudo de Carneiro, que teve como recorte empírico uma aldeia dos Alpes franceses, constatou que as mudanças no espaço agrário estimuladas pela expansão da exploração do turismo não desestruturaram a identidade da aldeia, mas possibilitaram ampliar as relações sociais entre o grupo por meio de trocas simbólicas e culturais. Esses processos, de certa forma, reestruturaram e reforçaram a identidade local e não necessariamente a sua descaracterização.
A conclusão da autora foi similar a que Nicoloso (2006) chegou ao desenvolver um estudo no pequeno município gaúcho de Nova Pádua4, cujo objetivo foi de analisar a importância dos saberes tradicionais e do modo de vida camponês como elementos para a compreensão de uma nova forma de organização camponesa. Foi durante o trabalho de campo que esse autor pôde perceber como as transformações decorrentes dos novos meios de produção influenciavam diretamente, além do próprio sistema produtivo com base nos novos meios técnicos de produção, a estrutura familiar da comunidade e sua qualidade de vida. Estas transformações se materializavam no espaço e tornava-se visível a substituição do antigo em detrimento do novo, isso porque a estrutura familiar passou por um processo profundo de reestruturação. Os reflexos da economia mundial impuseram, no caso de Nova Pádua, uma adaptação da estrutura familiar às novas condições de vida e de trabalho
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Nova Pádua, pequeno município da serra gaúcha, com uma população estimada de 2396
dos tempos atuais. Percebeu-se uma relação direta entre o interesse e a abertura do produtor sobre as novidades tecnológicas que vinham a facilitar a produção, a melhoria de sua situação financeira e, consequentemente, a ampliação de acesso do mesmo aos bens de consumo. Todavia, Nicoloso percebeu, também, que essa substituição não se dava de forma tão simples e direta, uma vez que, seria normal pensar que o uso acentuado de novas tecnologias representaria uma proporção diretamente inversa ao abandono dos saberes tradicionais. Mas o que ele observou em Nova Pádua foi que os novos meios técnicos de produção estavam servindo simplesmente para qualificar tais saberes, afirmando, portanto, que é perfeitamente possível a existência de um modo de vida camponês vinculada à incorporação de uma forma de produção capitalista. Isto porque se considera que a simples adequação dos meios de produção às novas tecnologias existentes não são suficientes para que haja uma alteração significativa na essência dos modos de vida desses camponeses e naquilo que o move como indivíduo e como membro de um grupo que compartilha os mesmos significados de existência e de reprodução.
Sendo assim, podemos dizer que essas novas marcas simbolizam na verdade o grau de adequação dos meios de produção, do papel da família e das novas necessidades dentro deste contexto, sem, contudo desfazer de seus aspectos tradicionais. Logo, o que se reforça é uma integração do mundo rural com o mundo urbano, que diante de um processo dinamizado de reestruturação com a incorporação de valores, hábitos, costumes e técnicas por parte dos habitantes do campo, o rural se moderniza, fortalecendo a ideia de identidade, pertencimento e prevalência da cultura local e não a sua eliminação. Assim, pode-se dizer que a população que vive no campo não está inserida num mundo rural fechado em si mesmo; sendo ela caracterizada como um agente ativo, apropriando-se da cultura urbana em busca daquilo que lhe é conveniente.
Nessa perspectiva, essa busca se daria por meio de um processo de aculturação5, onde os rurais ativados a fazerem suas escolhas se adaptariam a novos
5 Com base em Rambaud (1973) é um processo em que os rurais absorvem a Cultura urbana na
sua própria cultura, selecionando o conteúdo a ser absorvido, bem como dando forma e ritmo próprio a este processo de aculturação. Aculturação esta ativa em que há uma visão de totalização.
elementos, sejam eles costumes e conhecimentos, ou até mesmo, bens materiais, numa apropriação constante daquilo que vem da cidade.
De forma geral, inferimos que as inter-relações que se estabelecem entre o rural e o urbano tendem a refletir principalmente nos modos de vida adotado pelas famílias que vivem no campo, possibilitando compreender o processo que abrange diferentes áreas. Isso porque, tradicionalmente, a distância física e social que existia entre os habitantes do campo e da cidade foi sendo reduzida, sobretudo, pela real expansão das cidades e pelas facilidades relacionadas a bens e serviços modernos que são produzidos nos centros urbanos, além do meio rural ter se tornado atrativo para outras categorias sociais de origem urbana.
Destarte, são as práticas, como a maximização dos hábitos de consumo, as formas de moradia, a ampliação do tempo destinado ao lazer, a importância atribuída à cultura, o acesso generalizado aos meios de comunicação e de informação de massa, que fazem com que parte dos espaços rurais, se assemelhe visivelmente aos modos de vida urbanos. No entanto, embora essas práticas sejam generalizáveis, hábitos e valores de caráter urbano tendem a ser interpretados e assimilados por um viés voltado para a cultura local e para os modos de vida tradicionais preexistentes.
É pensando nisso, que escolhemos o processo de urbanização do campo, como norteador da análise, visto que ele se refere a uma lógica englobadora, e se caracteriza por um processo de expansão da sociedade urbana, concebida como nascendo na cidade, mas, se expandindo, englobando e envolvendo o campo. Processo que se manifesta pela incorporação de um modo de vida urbano pelos moradores do campo e consequentemente por uma similaridade e proximidade, cada vez maior, de modos de vida, até então concebidos como distantes e diferentes, que vem se expressando principalmente nas formas de moradia e de consumo nos espaços rurais chegando a reorientar a maneira de viver das famílias que ali residem.
Seria então um processo que se traduziria em um modo de vida que se manifesta por condições simbólicas que permeiam a existência de um grupo, referindo-se ao conjunto de comportamentos e de atitudes, valores ou regras apreendidas e organizadas em um sistema específico que fazem parte de cada sociedade rural que se define pela originalidade de sua cultura e por modos de vida
próprios constituídos por conhecimentos, ética, maneiras de pensar, instituições e técnicas relativamente originais (RAMBAUD, 1973).
Em outras palavras, consistiria em um processo caracterizado por um modo de vida que nasce na cidade, mas que não está restrito a ela, pois se expande através dos meios de comunicação, assim como por meio das relações sociais das pessoas do campo e que marcaria mudanças nos hábitos, nos valores, nas relações de trabalho, pela modernização tecnológica, pela escolarização e profissionalização e por um crescente desenvolvimento de serviços no mundo rural.
Foi com base nessas discussões que a pesquisa ancorou-se em duas hipóteses: 1ª) O processo de urbanização do campo modifica os modos de morar dos rurais, bem como os seus hábitos de consumo; 2ª) A apropriação que os rurais fazem da cultura urbana de bens de consumo e de modos de vida urbano não descaracteriza a cultura local.
Estas hipóteses constituem-se, antes de tudo, em respostas às indagações problematizadas acerca do contexto aqui apresentado e escolhido referente ao processo de urbanização do campo, que como veremos nos próximos capítulos, nos leva a constatar mudanças que vão sendo expressas nos modos de vida das famílias que vivem no campo, devido a paridade que se evidencia entre campo e cidade, particularmente no que se refere ao acesso de seus respectivos habitantes aos bens e serviços disponíveis na sociedade, tornando-se, pois, de interesse científico conhecê- las.
Cabe ressaltar ainda que essas transformações deverão ser constatadas em termos dos “modos de vida do rural tradicional ao moderno” que poderão se expressar nas habitações e nas formas de consumo, de modo a observar de que forma essa maior proximidade entre campo-cidade se manifestaria. Ou ainda problematizar de que maneira essa maior proximidade entre campo-cidade se configuraria numa forma mais modernizada de habitação, incluindo: o uso dos materiais e as formas construtivas de habitação; as formas de utilização e organização das habitações, as formas de consumo materializadas nos adornos, utensílios, móveis, eletrodomésticos e acessórios.
Assim, o problema em questão possui os seguintes questionamentos: Quais as influências trazidas pela urbanização para os modos de vida das famílias que residem
no campo em termos dos modos de moradia e hábitos de consumo? Será o processo de urbanização do campo influenciador nos modos de vida das famílias rurais? Como sua manifestação (da urbanização) tem se refletido em termos dos modos de morar e de consumo das famílias rurais do município de Araponga – MG?