1.1 PET EF: IMPLANTAÇÃO E DESENVOLVIMENTO INICIAL
1.1.1 Contextualização histórica e bases legais do Programa
Para compreender a história do PET EF, é necessário analisá-lo em seu contexto histórico, destacando os protagonistas de sua constituição, focalizando, também, aqueles que estiveram presentes naquele momento. O objetivo do capítulo concerne em analisar a trajetória do PET EF, por meio de suas fontes documentais,
dentro da construção histórica nos seus 23 anos de existência.
Nossa fundamentação teórica está pautada em alguns pressupostos oriundos de matrizes epistemológicas advindos de autores que trabalham nas linhas de pesquisa históricas e na área educacional, principalmente no que diz respeito à formação. Dessa forma, para que possamos compreender nosso objeto de estudo dentro de sua constituição e suas propostas formativas a seu tempo, precisamos entender quais são as bases legais de estruturação que fomentam, estruturam e regem o programa PET, pois elas também nos oferecem subsídios para analisar as atividades e a história do PET EF, bem como o que se estipula nos documentos como proposta de formação ao programa e o que de fato se realiza no PET EF. As análises das bases legais de criação do PET partem de uma visão macro dos documentos, para uma visão mais micro e específica, pois percebemos que é necessário também que se compreendam as legislações que regulamentavam a formação em uma universidade federal e nos cursos de Educação Física.
Em consonância com Le Goff (2012b, p. 112), compreendemos os documentos como monumentos que devem ser desmontados, “[...] pois não são inocentes, cabe ao historiador avaliar sua credibilidade e veracidade e, além disso, desmistificá-lo [...] as condições de produção do documento devem ser minuciosamente estudadas”.
Ressaltamos que, de acordo com os documentos, os tutores que estiveram presentes nesse primeiro período do grupo foram a professora Marta (1994-1997) e o professor Marcos (1997-1999). Dessem (1995) destaca que, nessa época (1994), tanto o programa, quanto a própria Capes passavam por uma fase de consolidação e renovação, o que também ocorria no cenário político do país. A formação no ensino superior passava por algumas transformações.
Martins (2000) ressalta que uma das principais características desse período foi o fomento de propostas de aperfeiçoamento da graduação por meio da implementação de projetos que buscavam aprimorar a formação acadêmica. Em 1994, por exemplo, é lançado nas universidades um projeto que visava a melhorar a qualidade do ensino na graduação, o Programa de Apoio à Graduação (Prograd). Além disso, o valor investido nas bolsas de iniciação científica cresceu significativamente, segundo Martins (2000, p. 56):
Tal conjunto de iniciativas representa, certamente, um fato positivo para a evolução da graduação, até então na zona obscura do ensino superior. É necessário reconhecer, entretanto, quando se considera o tamanho e a dimensão do ensino superior em todo o território nacional e os desafios ao seu aperfeiçoamento [...].
Notamos que a implantação de novos grupos PET e a desativação de alguns outros grupos, também faziam parte desse conjunto de iniciativas para melhoria da graduação na década de 1990.
Dessem (1995), ao fazer uma análise sob uma perspectiva histórica, qualitativa e descritiva do processo de evolução do PET, nos seus 15 primeiros anos de existência, faz alguns apontamentos pertinentes. Ela informa que o objetivo inicial do programa era incentivar, dentro da Instituição de Ensino Superior (IES), o desenvolvimento de grupos de estudos que se dedicassem em tempo integral ao trabalho intelectual, com o intuito de potencializar as capacidades diferenciadas dos alunos que se sobressaíam na graduação, criando assim uma “elite intelectual” dentro da universidade (DESSEM, 1995).
Partindo-se do ponto de vista de que as necessidades do país nas diversas áreas do conhecimento científico e tecnológico, são atendidas por egressos de indiscutível qualidade; que atributos de tais profissionais são desenvolvidos em um processo de aperfeiçoamento contínuo de alto nível; e que quando este é aplicado a um grupo reduzido de alunos possibilita um maior controle de sua qualidade, pensou-se em uma solução a curto prazo, passível de adoção imediata, que seria então, criar programas de excelência (DESSEM, 1995, p. 28-29).
Dessem (1995) divide seu relato histórico em duas partes, quantitativa e qualitativa. O que se pode elencar de suas análises estatísticas é que, em 1979, o programa surge com a implantação de três grupos (Economia na UNB, Economia na PUC RJ e Direito na USP), em três IES diferentes, totalizando 15 bolsistas.
Em 1987, realiza-se a primeira seleção formal feita pela Capes. Nesse ano, eram 41 grupos atuando em 19 IES diferentes e contando com 308 bolsistas. Após essa primeira seleção e em função da grande divulgação das “Orientações Básicas do PET/1988”, em 1988, ocorreu uma grande ampliação, com o número de grupos dobrando, passando de 41 para 82, em 33 IES diferentes, contemplando 461 bolsistas (DESSEM, 1995; MULLER, 2003). Ressaltamos que, entre 1989 e 1990, cinco grupos foram desativados devido ao não cumprimento de algumas normas estabelecidas pelas orientações básicas, como prestação de contas e envio de relatórios à Capes.
Assim como aconteceu em 1988, entre os anos de 1991 e 1993, também ocorreu um aumento grande no número de grupos existentes, passando de 77 para 237, com 1642 bolsistas contemplados em 49 IES diferentes (DESSEM, 1995).
Com base nas análises de Dessem (1995), percebemos que, em 1979 (ano de criação do PET), existiam três grupos PET oriundos de três diferentes IES e abarcando 15 bolsistas e, em 1994 (após 15 anos de implantação e ano de criação do PET EF), existiam 254 grupos implantados em 54 IES, compostos por 2.613 bolsistas (DESSEM, 1995; MULLER, 2003; MARTIN, 2005).
Do levantamento, destacamos que: a) em 1994 foram implantados 50 novos grupos e, em contrapartida, foram desativados 33 grupos14; b) a Região Sudeste sempre
14 Esse movimento fazia parte das políticas de um novo governo que estava assumindo o país. A desativação de 30 grupos se deu devido ao não cumprimento das exigências feitas para que um grupo funcionasse na sua IES de origem, dentre estas estão número de 12 bolsistas, construção e envio de planejamento anual, relatórios de prestações de contas, dentre outros.
predominou em relação ao número de grupos nos 15 primeiros anos do PET; c) as ciências exatas e da terra possuíam, até esse ano, um número maior de grupos, seguidas de perto pelas ciências humanas (DESSEM, 1995; MARTIN, 2005).
É com base nesses dados quantitativos que concordamos com Dessem (1995) ao fazer uma análise qualitativa do programa, dividindo seus primeiros 15 anos de existência em quatro fases, a saber: a) fase experimental (1979 - 1985); b)
institucionalização do programa (1986 - 1989); c) expansão desordenada (1990
- 1992); d) consolidação do programa (1993 - 1994)15.
A Capes, no ano de 1994, buscava reestruturar e expandir os grupos PET nas universidades brasileiras, continuando uma reforma iniciada em 1993. Dessem (1995, p. 41, grifo nosso) salienta que:
Os resultados obtidos nesta etapa preliminar possibilitaram, em 1994, a implementação das seguintes ações: 1- reativação das coordenações de área, com novos representantes escolhidos pela CAPES e aprovados pelos grupos PET em funcionamento; [...] 2- desativação de grupos que vinham apresentando no período 1990-1993 um rendimento insuficiente aos padrões mínimos exigidos para um grupo PET; 3- implantação de novos grupos por meio de processo de seleção [...].
Nesse contexto histórico de implantação dos grupos, o PET EF foi criado no Cefd/Ufes, numa fase de consolidação do programa em nível nacional e de uma transição política no país e na Capes.
Na época de implantação do grupo no Cefd/Ufes, o ensino superior brasileiro era regido pela Lei nº 5.540/1968, estabelecida na ditadura militar, como regulamentação institucional da reforma universitária instaurada no país. Um dos principais pontos estabelecidos pela lei em vigência estava no §1º e determinava que: “O ensino superior [tinha] por objetivo a pesquisa, o desenvolvimento das ciências, letras e artes e a formação de profissionais de nível universitário”.
Nota-se que a proposta de formação no ensino superior visava a atender a uma demanda de profissionais “intelectualizados”. Essas propostas iam ao encontro do modelo de formação pensado pela Capes e executado nos grupos PET.
15 Muller (2003), em suas análises, adiciona mais uma fase ao histórico do programa, trata-se da fase de "Desestruturação interna" que, conforme a autora vai de 1995 a 1997.