2. TELEJORNALISMO, PRODUÇÃO LOCAL E ARAGUAÍNA-TO
2.4 CONTEXTUALIZANDO A CIDADE DE ARAGUAÍNA DO TOCANTINS
Quando passei a morar no estado do Tocantins, no ano de 2004, não sabia exatamente o que esperar da cidade de Araguaína. Poucas notícias dessa parte do país haviam chegado de forma clara e significativa até mim, ainda jovem, residindo no interior do Rio Grande do Sul e recém graduado em publicidade e propaganda. Foram mais de 50 horas de viagem, duas noites dormindo no ônibus de Carazinho-RS até Araguaína-TO, e a linha depois ainda seguia até Balsas-MA. Já no final do estado do Goiás, antes de entrar no Tocantins, notava que as cidades começavam a ficar mais distantes, que a vegetação nativa abarcava mais a paisagem que visualizava pela janela do ônibus. Havia menos influência do agronegócio à beira da estrada. Quando cheguei em Araguaína, pela BR-153, notei que o acesso e a rodoviária eram simples, perante minhas expectativas demasiadamente consumistas e o meu olhar superficial naquele momento. A chegada não me causou uma primeira boa impressão.
Questão que foi superada logo com o conhecimento melhor da cidade, da região, da culinária local e das pessoas. Senti-me acolhido pela cidade, comecei a trabalhar, aqui constituí família e me apeguei a Araguaína. Mas o que sempre me chamou a atenção foi o rápido crescimento da população e a modificação da cidade. Desde a entrada, com novas rótulas de acesso, novas ruas, as fachadas do comércio, as casas, as instituições de ensino... Tudo mudou e continua mudando muito rápido. É um local de intensa movimentação, com forte influência cultural da região norte, nordeste, do estado do Goiás e, em menor escala, de pessoas de todo o país. Uma verdadeira e efervescente “panela cultural”, como as pessoas aqui costumam falar, que já recebeu inúmeros shows de forró, de música sertaneja e gospel, mas que também possui alguns bares voltados exclusivamente para os mais ricos, bem como bares alternativos de rock, MPB e eventos, como Araguaína: Cidade Nordestina, o Encontro de Motociclistas, o Encontro de Sanfoneiros, a Via Sacra da morte de Jesus Cristo, o Concurso de Quadrilhas Juninas, shows com bandas de heavy metal vindas de outros estados ou o Boi no Rolete e baile com conjunto gaúcho.
As mudanças, anteriormente citadas, da transformação do ambiente, não foram perceptíveis apenas na cidade, mas quando se viaja, nota-se que a paisagem também está em constante transformação. Cada vez mais, a produção humana com lavouras, plantações de eucaliptos ou criação de gado e outras atividades agropecuárias vão ocupando espaços naturais que antes pareciam intocados pelo homem.
Essa contextualização da cidade, mais pessoalizada, é considerada importante para tentar estimular uma projetada compreensão das peculiaridades deste lugar, composto por pessoas que moram num determinado lugar do Brasil, por homens e mulheres que falam a mesma língua (mas com muitos sotaques presentes), seguem leis nacionais, estaduais, municipais e possuem as suas marcas criadas por diversos fatores como trabalho, família, religião, amigos, interesses próprios e coletivos. Claval (1999, p. 16) diz que “(...) território e a questão da identidade estão indissociavelmente ligados: a construção das representações que fazem certas porções do espaço humanizado dos territórios é inseparável da construção das identidades”.
Portanto, este é um espaço dinâmico, vivenciando forte transformação pelas produções materiais e simbólicas dos que aqui convivem, pois, como afirma Saquet:
Dessa maneira, o espaço […] possui um presente que passa muito rápido, que já é passado, portanto, e possui um devir. Devir que além de ser começo é também seqüência, é sucessão e, portanto, movimento. Movimento do pretérito, do ser e do vir-a-ser, do concreto e do abstrato, das relações recíprocas que nos dão o real. Movimento do espaço no tempo e deste no espaço, em que o presente contém o passado, que se realiza no presente. (SAQUET, 2001, p. 22)
Bhabha (1998) oferece interessantes pontos de percepção sobre a comunidade humana, que se interroga e se reinaugura, e podem ser relacionados com a cultura da região foco desta dissertação.
Araguaína é uma cidade relativamente nova, habitada principalmente por pessoas das regiões próximas, mas também por homens e mulheres de todas as regiões do Brasil. São pessoas que dividem um espaço num determinado tempo e, constantemente, jogam e negociam num desafiante momento presente com todas as suas diferenças e pontos em comum. Esse espaço tempo é influenciado pelo passado, pelas reflexões sobre o futuro, pelas diferentes manifestações dos que aqui vivem, pelas lutas sociais e, também, pelas informações da comunicação de massa. É uma comunidade multicultural que, literalmente, "sobrevive" nas "fronteiras" do seu tempo, com pessoas das mais diversas culturas que se ajustam no convívio coletivo.
Para o autor, “[...] encontramo-nos no momento de trânsito em que espaço e tempo se cruzam para produzir figuras complexas de diferença e identidade, passado e presente, interior e exterior, inclusão e exclusão” (BHABHA, 1998, p.19). A articulação de diferentes culturas forma este "entre-lugares", onde “o interesse comunitário ou o valor cultural são negociados.” Nesse recorte, moldam-se e geram-se novos signos de identidade, nele se define a ideia de
sociedade (BHABHA, 1998, p.20). Para o autor, a identidade é algo socialmente construído a partir da intermediação de forças maiores que se interconectam e constroem, assim, diferentes facetas para o mesmo indivíduo.
Tentar compreender esse caleidoscópio de sentidos e negociações é vital para compreender a dinâmica das culturas e tradições de Araguaína, um local nitidamente marcado pelo hibridismo em suas produções de sentido. Conforme Peruzzo (2002), “[...] o local se constitui num espaço característico, constituído por partes que se relacionam, mas que ora se identificam, dependem umas das outras, e ora são excludentes.”. O mesmo autor, em outra obra, comenta o mesmo tema:
Importa entender que o local se caracteriza como um espaço vivido em que há elos de proximidade e familiaridade, os quais ocorrem por relacionamentos (econômicos, políticos, vizinhança etc.) e laços de identidades os mais diversos, desde uma história em comum, até a partilha dos costumes, condições de existência e conteúdos simbólicos, e não simplesmente em decorrências de demarcações geográficas. (PERUZZO, 2002, p. 69)
Existem identidades sendo construídas, fomentadas por instituições locais e pela mídia. Campanhas dos veículos locais e do Governo do Estado, através dos anos, destacam aspectos que julgam positivos e promovem construções culturais como o Tocantins de natureza exuberante com seus rios e cachoeiras, as praias dos rios Araguaia, Tocantins e o belo pôr do sol. Alimentos como o chambaril, a tapioca, o açaí, o abacaxi, o cuscuz, o espetinho e o peixe tucunaré, entre tantos outros. As pessoas acolhedoras, a religiosidade cristã, o artesanato de capim dourado e o potencial econômico do estado.
Essas construções de sentidos com vistas a fomentar determinadas identidades são importantes para a definição do território, conforme Haesbaert (2004, p. 79): “[…] o território pode ser concebido a partir da imbricação de múltiplas relações de poder, do poder mais material das relações econômico-políticas ao poder mais simbólico das relações de ordem mais estritamente cultural”. Já Soja (1971, p. 34) aponta três fatores necessários para a constituição do território: “sentido de identidade espacial”, “sentido de exclusividade” e “compartimentação da interação humana no espaço”. É um bem público, mediado por formas estabelecidas de governo, de leis que, juntamente com as constantes negociações das forças locais, vão reterritorializando esse ambiente. E Soja (p.19) conclui: "[...] ao nível individual, por exemplo, uma das mais claras ilustrações da territorialidade humana pode ser encontrada na forma como no Ocidente se estabeleceu a propriedade privada da terra".
Ainda nesse sentido, para Le Berre (1995), a produção e a gestão de recursos do espaço são fundamentais para a concepção de territorialidade. É a porção do ambiente natural apropriada por um grupo social para buscar alternativas de garantir sua reprodução e satisfação nesse espaço.
Conforme o IBGE, em 2014, Araguaína possuía uma população estimada de 167.176 habitantes. É uma cidade localizada ao norte do Tocantins, ficando próxima das divisas dos estados do Maranhão e Pará. A localização geográfica do município é considerada estratégica do ponto de vista econômico, pois a cidade é atravessada pela BR-153 (Belém-Brasília) e está num entroncamento rodoviário que conecta várias importantes cidades da região. Destaca-se também a proximidade com a Ferrovia Norte-Sul, o Aeroporto, que, mesmo com suas limitações, está em funcionamento, e a existência de potencial hidrográfico para transporte de cargas através do rio Tocantins, que pode ser aproveitado futuramente, completando esse cenário que configura a cidade como um polo logístico (ACIARA, 2015).
Araguaína lidera o ranking tocantinense de escolaridade, saúde, emprego e renda, FIRJAM (2015), de acordo com o relatório de Desenvolvimento Municipal (IFDM). O estudo destaca que a cidade, emancipada em 14 de novembro de 1958, deu um salto de crescimento durante a construção da BR-153, aumentando de 10.000 habitantes nos anos 1960 para mais de 70.000 nos anos 1980. Atualmente, é a principal cidade do norte do Tocantins e a mais influente numa área de abrangência com 1.7 milhões de habitantes.
De acordo com Durval Vieira de Freitas, consultor que, desde 2014, observa a região e vem realizando trabalhos de desenvolvimento de fornecedores regionais para a empresa de cimentos Votorantim, instalada na cidade de Xambioá-TO, em palestra organizada pela ACIARA – Associação Comercial e Industrial de Araguaína, em 04 de maio de 2015, os principais focos da economia local são saúde e educação.
A elite local, com seus objetivos e as ideologias que a interpelam, utiliza o slogan “Capital do boi gordo3”, frase que enaltece a força do SRA – Sindicato Rural de Araguaína, e a ACIARA–Associação Comercial e Industrial de Araguaína destaca, em muitas de suas
comunicações, o comércio local, inclusive citando a Avenida Cônego João Lima como a “principal rua comercial do estado do Tocantins”. É, provavelmente, uma tentativa de atribuir ao seu campo, ruralistas e empresários, o fôlego econômico da cidade. Mas, para Freitas (2014), sem desconsiderar que a pecuária e o comércio têm sua importância na economia local, os dois fatores que realmente impulsionam a geração de renda no município e o desenvolvimento
financeiro da região são a rede de clínicas, hospitais e consultórios médicos e odontológicos, com destaque para o centro de Oncologia e, também, as escolas particulares, as três instituições de ensino privado (ITPAC, FACDO e FACIT) e a UFT – Universidade Federal do Tocantins, que ofertam cerca de 40 cursos de ensino superior na região. Isso sem contar a oferta de ensino à distância, que também propicia acesso à educação com seus benefícios e limitações. São questões que fomentam novos conhecimentos, articulações sociais e atraem muitas pessoas da região e de outros estados para Araguaína, movimentando intensamente a economia e a cultura local.
Mas é evidente que não se pode negar as fortes influências da cultura sertaneja na região. O principal evento no calendário do município é a EXPOARA – Exposição
Agropecuária de Araguaína, com shows populares, cavalgada, palestras e cursos voltados para
o agronegócio, leilões de gado e estandes de produtos e serviços voltados para o produtor rural. Para Raffestin (1993), os territórios surgem dessa fusão entre o campo e as cidades. A técnica e as rápidas mudanças tecnológicas alteram o ambiente e o comportamento humano. Fator que nem sempre é positivo, pois, muitas vezes, permite que a economia de mercado prevaleça sobre os movimentos ecologistas.
A economia de mercado, por sua vez, baseia-se na lei da oferta e da procura, conforme modelo econômico proposto pelo capitalismo4. Ou seja, tem-se uma postura adotada conforme o retorno financeiro que isso pode render à atração que o anuncia. Logo, a economia de mercado é um reflexo da postura neocapitalista, típica de um contexto pós-moderno.
O desenvolvimento econômico, que muitas vezes ocorre sem uma maior reflexão sobre os seus impactos sociais e ambientais, é um importante fator que orienta as transformações territoriais, Como defende Sack (1986), é "a tentativa de um indivíduo ou grupo para afetar, influenciar ou controlar pessoas, fenômenos e relações, e para delimitar e impor controle sobre uma área geográfica. Essa área será chamada de território".
Portanto, podem ocorrer discursos circulando na imprensa, portados na ótica de mercado, enfatizando desenvolvimento econômico, mas representando interesses de agropecuaristas, de políticos, de investidores e silenciando vozes de opositores, por exemplo.
4De acordo com Garone (2009), o capitalismo, modelo econômico baseado na livre iniciativa, no comércio, na legitimidade dos bens privado e no consumo, quem possui os meios de produção pode estabelecer relações comerciais regimentadas na sociedade para atender necessidades do mercado e obter lucro. Para obter resultados satisfatórios neste sistema, garantindo a continuidade da organização e/ou instituição, é necessário que esta entidade que atua no mercado consiga satisfazer o consumidor para que destina sua produção e possuir capacidade de competição, para que o nível de qualidade e preço sejam atraentes.
Matérias podem ser veiculadas na imprensa, para defender legislações ou projetos de grande impacto que beneficiem esses setores, mesmo que, possam gerar prejuízos para outros grupos com menor influência nos meios de comunicação de massa.
Os homens e mulheres que estão à frente dos veículos mais influentes da sociedade, numa visão utópica de sua prática social, deveriam agir como se os veículos ou plataformas fossem bens públicos, estando a serviço das pessoas e da coletividade. Todos os meios de comunicação, considerando que são concessões públicas, deveriam agir desta forma, pois a sociedade possui o direito à informação. Mas, para Dorneles (2012), agem, na maioria das vezes, como empresas privadas ou órgãos estatais que representam não a população, mas o interesse de seus governantes. A sobrevivência dos veículos no cenário capitalista levou a esse nefasto fator. Para o autor, “[...] Qualquer veículo prescinde de seus clientes para se tornar viável, sobretudo quando essa viabilidade passa pelo campo econômico” (DORNELES, 2012, p. 39).
Ainda sobre o assunto, para Ianni:
A globalização da mídia impressa e eletrônica, juntamente com o marketing, o consumismo e a cultura de massa, tudo isso penetra e recobre as realidades nacionais, povoando o imaginário de muitos e modificando as relações que os indivíduos, grupos, classes, coletividades e povos guardam consigo mesmos, com os outros, com o seu passado e o seu futuro. (IANNI, 1999, p. 112)
A mídia local pode, por exemplo, tratando de uma estratégia governamental sobre a construção de uma usina que trará prejuízos ambientais e afetará a vida de pessoas que serão deslocadas, defender primordialmente questões de economia de mercado, dando ênfase às vantagens e oportunidades de emprego e crescimento que podem surgir. Debates mais pontuados nos impactos ecológicos e riscos sociais, nesse caso, podem ficar restritos a grupos específicos de interesse, que percebem o projeto como uma ameaça e, também, nas comunidades acadêmicas envolvidas com pesquisas e problematizações sobre o tema. O público em geral pode ser influenciado nas suas produções de sentido sobre o assunto sem uma abordagem mais ampla da questão.
É uma reflexão necessária, as territorializações que estão ocorrendo e que podem ocorrer num determinado local, sob a ótica de projetos de desenvolvimento, estão levando em conta, primordialmente, a geração de renda para alguns grupos ruralistas, de investidores e políticos, ou refletem, cuidadosamente, sobre a proteção do bioma local e das pessoas que terão suas vidas afetadas com as mudanças inerentes desse “desenvolvimento”?
Para Santos (2001), a globalização representa o auge do modelo capitalista e não teme nada a não ser uma crise financeira que abale o topo de suas estruturas. É um sistema frio, baseado em resultados mercadológicos. É perverso com pessoas e com o meio ambiente. Para o autor, não é possível construir uma cidadania universal, pois “o culto ao consumo é estimulado”, num contexto que estimula o comportamento competitivo que tenta homogeneizar o planeta em prol de resultados de mercado.
Acredita-se que uma imprensa voltada para a coletividade deveria tratar de um tema com tamanha importância com maior responsabilidade, com seus impactos na população e no meio ambiente, e que o termo desenvolvimento deveria ser constantemente questionado e repensado. O dito progresso deve ser muito bem debatido e apenas ser apoiado caso traga reais benefícios para a vida das pessoas, de todas as pessoas, considerando em especial as menos favorecidas, para que não prejudique suas estruturas sociais e o local em que vivem.
Outro tópico que no momento, povoa o imaginário e a realidade do araguainense é a questão da segurança pública. Basta ligar um telejornal para identificar que esse problema não é exclusivo da cidade, que o tema tornou-se um problema em muitos lugares do país. Em Araguaína, percebe-se que a criminalidade aumentou nos últimos anos e uma sensação de insegurança pairava sob a população. A imprensa local produz matérias pressionando autoridades e governantes, mas faltam investimentos e uma ação diferenciada que gere resultados com relação à violência urbana e rural.
Alguns telejornais locais focam quase que exclusivamente em notícias policiais. Definem-se como programas de defesa da cidadania, que noticiam com a finalidade de provocar a construção de uma cidade mais segura e melhor. Questiona-se esse fator, pois esse tipo de notícia é impactante e gera audiência. Além, é claro, de serem temas delicados que precisam ser tratados com grande responsabilidade para não fomentarem medo na população ou incentivarem comportamentos revanchistas e sádicos, como os defendidos com a conhecida frase “bandido bom é bandido morto”, que não cooperam com a construção de uma cidadania humanizada e podem conduzir a mais violência.
Este tópico do capítulo permite a imersão no território abordado por este estudo. Araguaína é a cidade que abriga os dois programas jornalísticos que serão analisados diante da problemática proposta.