Querem ser jovens, viver o seu tempo de juventude (PAIS, 1993, p. 192).
Tomaremos como referência para o estudo das sociabilidades alguns autores como Pais (1993), Dayrell (2007a, 2004) e Simmel (1983).
Simmel (1983) entende a sociedade em geral como a interação entre indivíduos, e esta se constitui por meio de certos impulsos e propósitos, fazendo com que os homens ajam entre si de maneira recíproca, organizando suas ações. Para esse autor, a sociabilidade é uma categoria sociológica, uma forma autônoma ou lúdica de sociação9. Assim, compara a sociabilidade à arte e ao jogo, pois demanda certa simetria e equilíbrio – uma relação entre iguais.
A expressão ‘jogo social’ é significativa no seu sentido mais profundo [...]. Todas as formas de interação ou de sociação entre os homens – o desejo de sobrepujar, de trocar, a formação de partidos, o desejo de arrancar alguma coisa do outro, os azares de encontros e separações acidentais, a mutação entre inimizade e cooperação, o domínio por meio de artifícios e a revanche – na seriedade do real, tudo isso está imbuído de conteúdos intencionais. No jogo, estes elementos levam sua própria vida, são impulsionados exclusivamente pela sua própria atração, pois mesmo quando o jogo envolve uma aposta monetária, não é o dinheiro [...] a característica específica do jogo. Para as pessoas que realmente gostam dele, sua atração está mais na dinâmica e nos azares das próprias formas de atividade sociologicamente significativas. O sentido mais profundo, o duplo sentido de ‘jogo social’ é que o jogo não é praticado em uma sociedade (como seu meio exterior), mas que, com ele, as pessoas ‘jogam’ realmente ‘sociedade’ (SIMMEL, 1983, p.174).
Assim, para Simmel, a sociabilidade é relacionada como algo “jogado”, isto é, o prazer de um sujeito está intimamente relacionado com o prazer do outro – mundo sociológico ideal. Vejamos o que diz esse autor,
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A sociação é uma interação e que se dá entre iguais. É a forma pela qual os indivíduos se agrupam em unidades que satisfaçam seus interesses (SIMMEL, 1983).
A sociabilidade é um jogo no qual se “faz de conta” que são todos iguais e, ao mesmo tempo, se faz de conta que cada um é reverenciado em particular; e “fazer de conta” não é mentira mais do que o jogo ou a arte são mentiras devido ao seu desvio da realidade (SIMMEL, 1983, p. 173).
A sociação requer um agrupamento em torno de quaisquer interesses. Para a sociabilidade, o próprio fim é a relação (pura forma), e é por meio dessa relação que se constitui uma unidade; além disso, os indivíduos se satisfazem em estabelecer laços, os quais têm em si mesmos a sua razão de ser.
Refletindo sobre essa analogia [...] acentua a dimensão de movimento presente na constante aproximação e afastamento. Segundo ele, Simmel, ao enfatizar o caráter de jogo de sociabilidade, parece que quer reforçar a sua dimensão como dinâmica de relações (WAIZBORT, 1996, apud DAYRELL, 2004, p. 10).
Simmel (1983) apresenta algumas características essenciais para compreendermos a categoria sociológica sociabilidade: depende inteiramente das personalidades entre as quais ocorre; seu caráter é determinado por qualidades pessoais; seu objetivo é o sucesso do momento sociável, portanto a interação. Assim, o autor descreve a relação de sociabilidade: “É composto por indivíduos que não têm nenhum outro desejo além de criar com os outros uma interação completamente pura, que não é desequilibrada pelo realce de nenhuma coisa material” (SIMMEL, 1983, p. 172).
Simmel (1983) menciona ainda a importância do “tato” e da “discreção” no processo de sociabilidade. O primeiro teria a função de regular as relações pessoais com os outros, além de traçar os limites nestas relações. O segundo, seria a condição primeira da sociabilidade, pois refere-se ao comportamento de uma pessoa em relação a outra. Para esse autor, quando há quebra, violação ou quando há uma transposição, isto é, quando as pessoas interagem motivadas por propósitos e conteúdos objetivos, “[...] a sociabilidade deixa de ser princípio formativo e central de suas sociações e se torna, no melhor dos casos, uma conexão formalista e superficialmente mediadora” (SIMMEL, 1983, p. 171).
A conversa é um dos fenômenos sociológicos10 que possui uma importância peculiar na sociabilidade, pois é a forma mais pura e elevada de reciprocidade: o falar torna- se o próprio fim, e o assunto é apenas um meio para a troca de palavras.
A conversa é desse modo a realização de uma relação que, por assim dizer, não pretende ser nada além de uma relação – isto é, na qual aquilo que usualmente é a mera forma de interação torna-se seu conteúdo auto- suficiente. A conversa pressupõe duas partes: é um caminho de ida e de volta (SIMMEL, 1983, p.177).
Inspirado nos estudos de Simmel (1983), Dayrell (2007a) afirma que a sociabilidade é uma dimensão da condição juvenil, assim como as expressões culturais juvenis. A sociabilidade se desenvolve nos grupos de pares, podendo estar presente tanto em espaços institucionais (trabalho, escola) quanto nos tempos de lazer e diversão (espaços virtuais, no bairro, na rua, na cidade). Portanto, a sociabilidade acontece no cotidiano do jovem.
É em torno das atividades de lazer, da diversão e da formação de grupos de pares que se desenvolvem as relações de sociabilidades e as buscas de novas referências na estruturação de identidades individuais e grupais, principalmente para jovens de classes populares (DAYRELL, 2004). Esse autor afirma ainda, que a discussão teórica sobre sociabilidade geralmente se apresenta como um dado, não se encontrando uma abordagem mais profunda sobre o tema.
Na sociabilidade juvenil, o que vale na interação entre seus pares é a relação; portanto, há uma reciprocidade mútua entre o “oferecer” e o “receber” um dos outros. É a dimensão do compromisso e da confiança que cimentam as relações. Como não existe outro interesse além da própria relação, para ela continuar a existir cada qual deve sentir que pode contar e confiar no outro, respondendo às expectativas mútuas. [...] O que alicerça uma relação pura é o grau de compromisso existente entre os amigos, que é fruto de uma escolha, e não de uma imposição. É o compromisso que faz com que um possa contar com o outro, numa relação de reciprocidade, na qual se confia que o outro está com você em qualquer situação (DAYRELL, 2004, p. 10- 11).
No contexto de redes de sociabilidades, a turma de amigos é muito importante na trajetória de vida dos jovens. É nesse período que há uma ampliação de experiências de vida, há uma procura por romper com os laços que os ligam ao
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mundo infantil. É um momento para novas experiências, descobertas, escolhas e demanda de autonomia. Assim, os grupos de amigos são parte essencial nesse processo, pois é com eles que os jovens vivenciam tal situação, criando, dessa forma, um “eu”, e um “nós” distintivo, como retrata Dayrell (2007a, p. 1111): “Neste processo, a turma de amigos é uma referência: é com quem fazem programas, ‘trocam idéias’, buscam formas de se afirmar diante de outros grupos juvenis e também do mundo adulto [...]”.
Assim, a sociabilidade é uma interação na qual a maior importância está na relação, que se dá por meio da confiança, do compromisso e da reciprocidade entre os jovens. Nas palavras de Dayrell (2004), é um “jogo” é um “jogar com”. Para garantir essa relação entre os jovens existem, as regras, como o “tato” e a “discreção” para Simmel (1983). Para Dayrell, quando há um rompimento com essas regras, ocorre o distanciamento dos jovens entre si, dando espaço para novas relações, este fato explica a mobilidade existente entre vários grupos de jovens.
Segundo Dayrell (2004), nas sociabilidades juvenis existem as diferentes gradações que distinguem os amigos mais próximos daqueles mais distantes, chamados de “amigos do peito” e “colegagens”, respectivamente. Assim, a amizade é evidenciada como uma noção de uma relação pura. E ela é de essencial importância na vida social dos indivíduos, evidenciando um grande valor para a juventude.
Nessa mesma perspectiva, Dayrell (2004) exemplifica as ideias do sociólogo britânico Anthony Giddens sobre relação pura, apresentadas no livro Modernidade e
identidade de si mesmo: O eu e a sociedade na contemporaneidade. Para esse
autor, a amizade moderna está atrelada à relação em si, portanto não se vincula às condições externas, como a vida econômica e/ou social. Na amizade, não se têm expectativas de gratificações ou recompensas. A relação pura refere-se ao grau de compromisso, de reciprocidade e de confiança em quaisquer situações. Essa relação é um processo de escolha, e não de obrigação ou imposição. Além do compromisso, a intimidade é um outro valor importante, pois permite conhecer um ao outro, a sua personalidade, gerando com isso confiança nas relações.
Para José Machado Pais (1993), a sociabilidade juvenil está relacionada ao lazer11. Esse sociólogo português se propôs estudar três grupos juvenis em Portugal, por meio de um estudo etnográfico. Tomando o cotidiano como alavanca metodológica do conhecimento, pôde analisar as sociabilidades juvenis relacionando-as com as várias práticas culturais juvenis em três comunidades distintas: uma de classes populares, outra de classes médias e outra da burguesia12.
Em seu estudo, o autor concluiu que, nas sociabilidades juvenis das três comunidades, os jovens apresentavam sinais de exclusividade, indicando que a participação dos jovens nas redes de convivência não é indiscriminadamente aberta: possui fronteiras de classes, mantidas pelos próprios jovens, com regras implícitas e explícitas que conduzem a participação em determinadas sociabilidades e situações. Nas culturas juvenis, existem normas; portanto, essas normas não podem ser consideradas, segundo Pais (1993), como “anómicas”, pois os próprios jovens as produzem.
O estudo mostra, ainda, que, nos três grupos, as transgressões aliadas às sociabilidades também eram vistas de maneiras diferentes, levando em consideração os diferentes contextos sociais em que os diferentes jovens produziam suas sociabilidades. Para o grupo de classes populares, nas transgressões, não havia uma recusa frontal das normas recebidas através do meio social em que viviam. Havia certa “compaixão” pelas condições sociais que os jovens tinham. No segundo grupo de classes médias, parecia haver uma clara dissonância com os valores e normas intergeracionais, isto é, as normas e valores dos adultos se desenvolviam exteriormente ou para fora das gerações mais velhas, vistos muitas vezes de forma negativa e com “efeitos de desmobilização” (incapacidade do jovem em assumir projetos de realização profissional e de ascensão social pelo meio social em que vive). No caso dos jovens da burguesia, as transgressões eram tidas como
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É por meio do domínio do lazer que as culturas juvenis adquirem maior visibilidade e expressão. Além disso, grande parte dos estudos sobre a sociologia da juventude tem passado pela sociologia do lazer. Para a realização da sua pesquisa, este autor utilizou duas variáveis, a condição social (classe) e a condição geracional, isto é, a pertença dos jovens a um conjunto social cujos elementos têm a particularidade de se situar numa dada fase da vida (PAIS, 1993).
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inofensivas ou insignificantes; eram permitidas aos jovens, por meio da confiança dos pais.
Desta forma, como pensar as relações de sociabilidades entre os jovens nos Projetos ou Programas Sociais? Mais adiante, serão apresentadas as análises das redes de sociabilidades dos jovens participantes do Programa Jovem Aprendiz. Refletimos sobre o que pensam e como vivenciam esse tipo de relação e apresentaremos os significados que essas sociabilidades adquirem nos processos de formação desses jovens. Foram tomadas como referências as experiências vivenciadas pelos jovens durante o período da pesquisa empírica: as amizades (formação de grupos), as afetividades, as religiosidades e o poder de consumo.
2 PERCURSO METODOLÓGICO
O objetivo do presente capítulo é apresentar o percurso metodológico da pesquisa. Para melhor compreender os caminhos percorridos neste estudo é preciso situar o Programa Jovem Aprendiz, lócus da investigação, enquanto uma política pública desenvolvida pelo poder público. Assim, a pesquisa tomou como referência esse espaço de política pública e procurou investigar os jovens que nele se inserem.