3. O ESPETÁCULO ENSAIEI MEU SAMBA O ANO INTEIRO: UM PERCURSO
3.1. Contextualizando o espetáculo: os antecedentes do samba no Brasil
No início do século XVIII, com o crescimento demográfico evidente e a formação de centros urbanos (Salvador, Ouro Preto, Rio de Janeiro), surgiu uma importante demanda por parte da classe média emergente por um tipo de entretenimento que mantivesse o modelo de cultura metropolitano herdado do padrão colonial imposto pelos portugueses.
Lima (2001) destaca que nesse momento o lazer era praticado no Brasil de diversas maneiras, tanto na Corte quanto na colônia: “as óperas, encenadas desde o século XVIII; as festas profanas, tais como aniversários de cidades, membros da família real ou alguma figura importante pertencente à classe dominante; as festas religiosas, que também tinham funções sociais” (LIMA, 2001, p.46). Nesse sentido, o autor defende que outra das formas de entretenimento praticada desde meados do século XVIII era a música patrocinada por proprietários nobres, que sustentavam a atividade de orquestras musicais constituídas por negros formados para executarem instrumentos variados. No entanto, o público para o qual esses eventos eram destinados, era a sociedade economicamente abastada da época que se reunia em lugares privados para a comemoração das suas festas.
Os saraus praticados pelas elites, entre os séculos XVIII e XIX, também foram formas de lazer, e, por conseguinte, de divulgação da música cultivada pela classe média em sua vida cotidiana. Era o local onde músicos amadores e profissionais podiam se irmanar, tocando ou cantando suas peças preferidas. Era também a oportunidade para as moças das finas famílias exibirem seus dotes ao teclado, ou sua encantadora voz acompanhada pela delicadeza do dedilhado na guitarra (LIMA, 2001, p.48).
Nesse sentido, o gosto pela música e pela dança nos salões se constituiu como uma atividade frequente na cultura dos europeus vindos para o Brasil. Assim, o negro, relegado a condições sub-humanas na sociedade, continuou cultivando sua música nos espaços ritualísticos, apesar da forte censura, assim como em terreiros e praças como forma de divertimento.
Em meados do século XVIII, ainda que sob uma influência cultural altamente europeizada, o Brasil foi constituindo o seu próprio caráter musical e coreográfico nos bailes e
festas cujas celebrações ocorriam de forma paralela ao desenvolvimento de vilas situadas nos morros e periferias da cidade onde também ocorriam festejos e ritos.
É nessa conjuntura que, segundo Lima (2001), surge a modinha, um gênero musical e dançado que apesar de ser introduzido pela parte da sociedade com mais recursos, foi progressivamente apropriada e adaptada pelas classes populares dando lugar ao samba e aos diferentes estilos surgidos ao longo da sua evolução.
É nesse ambiente e condições sociais que, nos últimos anos do século XVIII, surge a modinha, um tipo especial de canção que será cultivada tanto em Portugal quanto no Brasil. Esta designa um tipo de canção lírica, singela e de duração reduzida, composta para uma ou duas vozes acompanhadas por guitarra ou teclado. Cultivada, inicialmente, pelas classes mais abastadas, aos poucos, vai se popularizando, até tornar-se, pouco a pouco, um veículo para a expressividade musical, tanto portuguesa quanto brasileira (LIMA, 2001, p.48).
Dessa forma, a origem aristocrática da modinha, primeiramente desenvolvida nos salões cortesãos e nas casas dos senhores mais abastados, paulatinamente e numa convivência bastante conflituosa, foi adquirindo elementos musicais e coreográficos próprios das manifestações praticadas pelas classes econômicas menos favorecidas, se aproximando cada vez mais ao que seria posteriormente o estilo dançado e cantado mais estimado por todos, o lundu.
No entanto, apesar de que o Brasil hoje seja reconhecido como o país do samba, essa manifestação só passou a ocupar tal posição dentro da opinião pública brasileira no início do século XX. Antes da escola de samba, que surgiu pela primeira vez em 1928, o samba era perseguido sistematicamente pela polícia. Os sambistas e suas práticas eram reprimidas nos espaços de reunião, nas rodas de samba, nos terreiros de macumba, e em grandes festividades como o carnaval. Particularmente, o direito de sambar nas ruas do Rio de Janeiro foi durante muito tempo sancionado, a partir de constantes ataques de repressão e condena. Apesar de tudo, o samba e as suas escolas conquistaram seu espaço gradativamente até passar a ser considerada como uma das principais expressões artísticas do país.
A rapidez com que o samba passou de manifestação perseguida pela polícia, durante as primeiras décadas do século XX, a símbolo da identidade nacional brasileira, na década de 1930, foi chamada por intelectuais brasileiros de “mistério do samba”. Em livro homônimo, Hermano Vianna desvendou parte desse “mistério” e destacou o papel de intelectuais e políticos, como o sociólogo Gilberto Freyre e o médico e prefeito do Rio de Janeiro, Pedro Ernesto, cujas opiniões e ações “pavimentaram” o caminho que trouxe para o centro da cidade e da nação uma expressão cultural que vinha dos morros, dos subúrbios e das favelas cariocas (FERNANDES, 2012).
O motivo pelo qual o samba legitimou-se como representante principal da música brasileira está atrelado a um longo processo de acordos e transformações políticas, culturais e sociais que lhe garantiram um lugar privilegiado entre as expressões culturais do país. Nessa linha, o recente artigo de Guilherme Granato (2017), trata de descobrir os fatores que contribuíram para que o samba passasse de carregar um estigma extremamente pejorativo pela sua identificação com a cultura negra, a ser aclamado como o símbolo representativo da cultura nacional brasileira.
Se existe um gênero musical que, ao menos dentro do censo comum, é entendido como expressão musical autêntica da identidade nacional, esse gênero é o Samba. Mas vale o questionamento: por que não o Baião o Frevo ou o Maracatu? O processo de legitimação do Samba como principal gênero da música brasileira é repleto de passagens controversas. Ao contrário do que geralmente se pensa o gênero não nasceu pronto, sua trajetória de consolidação foi povoada de negociações culturais, sociais e até políticas. Compreender as nuances dessa trajetória ajuda não só a clarificar o relevante papel da música popular dentro da cultura brasileira como também a compreender o contexto cultural da primeira metade do século XX, em que se buscava equacionar tradição e modernidade, no intuito de delinear um perfil que traduzisse culturalmente o Brasil (GRANATO, 2017, p.1).
São José (2005) no seu trabalho dissertativo intitulado Samba gafieira corpos em contato na cena social carioca, destaca que o fator principal que fez com que o samba se constituísse como elemento indenitário do país, foi a sua capacidade para se reproduzir sobre inúmeras variantes segundo o contexto no qual emergia e se transformava ao longo da sua história. Assim, a autora defende que apesar da continuidade e a atualização das manifestações constituírem processos comuns em todas as expressões culturais tradicionais, o samba teve como distinção principal o fato de ser reconhecido como “o produto da história social brasileira”:
O Samba é considerado como um produto da história social brasileira. O gênero musical e coreográfico pode ser considerado tanto como sendo próprio de comunidades culturais identificáveis (executantes e brincantes inseridos em agrupamentos sociais de pequena escala) e também no contexto da vida urbana, e da indústria cultural mediatizada. Não obstante, salienta que (...) o vigor do Samba enquanto gênero cultural encontra-se em sua plasticidade e capacidade de gerar inúmeras variantes, como o samba de roda, o samba carioca, o samba rural paulista, a bossa nova, o samba-reggae e outros mais, em suas diversas interpretações. (SÃO JOSE, 2005, p.26)
de um processo de modernização “que marcou a primeira metade do século XX, caracterizado pela urbanização, pela expansão dos meios de comunicação e pelo esforço da intelectualidade e do Estado em delinear uma identidade cultural que em alguma medida traduzisse o país” (GRANATO, 2017, p.2). Esse ambiente favoreceu o afloramento de uma cultura musical e coreográfica que estimulou o intercâmbio entre diferentes grupos sociais.
Levando em consideração os antecedentes que precedem a realidade que hoje vivencia o samba no país, o Grupo Parafolclórico da UFRN percorre uma transição histórica dessa cultura através da dança narrando com os corpos o processo pelo qual o samba foi levado desde a periferia ao centro da cidade apropriando-se estrategicamente de elementos e assuntos nacionais e relacionando-os com as problemáticas que afetavam à sociedade diretamente.
Apesar de ter tido sua origem nas práticas afro-brasileiras, bastante vinculadas ao Recôncavo Baiano (samba de roda), foi desde o Rio de Janeiro que o samba se difundiu por todo o Brasil como elemento distintivo da cultura popular e foi desenvolvido com características próprias nos diversos Estados e momentos históricos do país. Assim, Rita Luzia, diretora do grupo Parafolclórico destaca que o samba faz parte do Brasil no seu conjunto: “não é só uma expressão do carioca, nem só do Rio de Janeiro, mas de todo o país”.