O programa Conexões Urbanas estreou no canal Multishow, da Globosat, em 13 de outubro de 2008 e desenvolveu sete temporadas até o término de sua transmissão, em 2015, sendo uma a cada ano, e teve 115 episódios produzidos ao longo desse período. Cada temporada teve uma média de 15 episódios, com exceção da primeira, que apresentou 23 episódios. O programa conta com a apresentação de José Junior, o coordenador-executivo do Grupo Cultural AfroReggae12, que tem como um de seus principais valores a busca por “pontes que unam as diferenças e sejam alicerces para a sustentabilidade e para a cidadania”13, por meio da divulgação de, por exemplo, projetos sociais, grupos artísticos e de diversos outros grupos e temáticas sociais. Destacamos que o Conexões Urbanas foi o primeiro programa televisivo produzido pela produtora do AfroReggae. Para o Grupo, o programa aborda “temas complexos de forma descontraída”.
12 A criação do Grupo Cultural AfroReggae (GCAR) se deu em 21 de janeiro de 1993, com a festa de lançamento do “Jornal AfroReggae Notícias” n° 0. A partir da inauguração de seu primeiro Núcleo Comunitário de Cultura, o Centro Cultural Waly Salomão, a instituição começou sua atuação social, e até hoje desenvolve projetos em áreas pobres, violentas e que muitas vezes são comandadas pelo tráfico de drogas nas favelas cariocas. A ONG tem como alvo as crianças e jovens que vivem em situação de exclusão, privação e vulnerabilidade social. Os projetos desenvolvidos pelo AfroReggae promovem a autoestima dos moradores de diversas comunidades, gera renda e os afasta da influência do tráfico. A ONG é considerada hoje uma referência para a promoção da igualdade de direito por meio de trabalhos socioculturais, pautada nos valores da diversidade, liberdade, transparência, inclusão e inovação. Com o destaque que o AfroReggae vem ganhando nos últimos tempos, principalmente após se reerguer dos atentados e ataques sofridos em 2013, ano em que também foi comemorado seus 20 anos de trabalho, a instituição abriu sua primeira sede fora do estado do Rio de Janeiro, e organizou um escritório de representação em São Paulo. Além disso, o GCAR percorre outras partes do mundo, e seus projetos sociais já foram multiplicados em países como a Índia, Colômbia, China, Inglaterra, França e em Cabo Verde, na África, a convite da ONU. Mais informações sobre a instituição podem ser encontradas no livro Da favela para o mundo: A história
do grupo cultural AfroReggae (2006), de autoria do próprio José Junior.
13Informações retiradas do site do AfroReggae. Disponível em http://www.afroreggae.org/visao-manifesto/ e http://www.afroreggae.org/conexoes-urbanas/. Acesso em 19/07/2017.
Já o site do canal Multishow14 apresenta uma breve definição sobre o Conexões e seus conteúdos: “um programa que funciona como o “braço televisivo de um movimento social”, cujo objetivo é criar “elos de conhecimento, cultura e afetividade entre os diversos guetos em que a sociedade se dividiu: ricos e pobres, brancos e pretos”. A proposta é de prender o telespectador com assuntos sobre tecnologia social, sustentabilidade, cidadania e, segundo eles, principalmente, a paz. Seu alvo final é o de gerar reflexão e ação por parte de seu público telespectador.
A estreia do programa em 2008 gerou alvoroço na mídia, que, por meio de jornais
como O Globo15, destacou que “o programa de TV do Grupo Cultural AfroReggae, é uma
das melhores opções”, principalmente para quem quer “entender o mundo em que vivemos a partir de um olhar da periferia”, e que “é ágil, direto, com excelente fotografia e aborda temas os mais complexos com a naturalidade e a convicção de quem atua nas fronteiras às vezes hostis, mas quase sempre criativas, que recortam o mundo”. Além
disso, a Gazeta Mercantil16 noticiou que o Conexões “apresenta experiências relevantes
de resgate da cidadania em ações sociais alternativas, e mostra que o fenômeno da “cidade partida” não é uma exclusividade do Rio de Janeiro, mas um reflexo perverso da desigualdade econômica e social espalhada por todas as regiões do planeta”. Durante
os anos em que foi exibido, o programa teve várias mudanças quanto ao dia de transmissão, mas sempre contou com reprises ao longo da semana.
Já em um vídeo17 comemorativo dos 100 episódios do programa, José Junior destacou que muitas das pautas tratadas pelo Conexões vieram de sugestões do público. Julgamos esse fato importante, pois reforça a imagem de que o programa mantém um diálogo com seus telespectadores e de que se preocupa com temáticas que são de interesse geral, e não apenas institucional. Em outro vídeo18, sobre o término do programa, José Junior falou sobre a repercussão positiva que o programa teve e afirmou que o Conexões
Urbanas cumpriu a missão que se propôs realizar durante as sete temporadas.
14As informações sobre o programa estão disponíveis no site http://multishow.globo.com/programas/conexoes-urbanas/. Acesso em 19/07/2017.
15 Informações disponíveis em: http://oglobo.globo.com/blogs/naperiferia/posts/2008/11/03/programa- conexoes-urbanas-do-afroreggae-inova-tv-137682.asp. Acesso em 20/09/2014.
16 Informações disponíveis em: http://leilarichers.blogspot.com.br/2008/11/conexes-urbanas.html. Acesso em 20/09/2014.
17O vídeo pode ser assistido no link http://multishow.globo.com/programas/conexoes- urbanas/materias/comemorando-a-exibicao-dos-100-episodios-do-conexoes-urbanas-jose-junior-comenta- a-trajetoria-do-programa.htm. Acesso em 19/07/2017.
18O vídeo está disponível na página do AfroReggae no Facebook: https://www.facebook.com/afroreggaeoficial/videos/1176337919052848/. Acesso em 19/07/2017.
Tendo isso em vista, em análises recentes (BENTES et al., 2015), delimitamos as principais temáticas trazidas pelos Conexões em todos os seus episódios, quais sejam: “Projetos/Organizações Não-Governamentais (ONGs)”, “Instituições de Segurança Pública”, “Outras Instituições”, “Indivíduos”, “Questões Sociais”, “Grupos sociais” e
“Lugares de tensão social”. Para nossa pesquisa, cabe ressaltar que o Conexões Urbanas
é um programa que trata apenas de uma temática por episódio. Assim, em cada um dos nove episódios que selecionamos para análise específica, englobamos todas as grandes temáticas acima mencionadas, o que abarcou subtópicos específicos como a apresentação de projetos sociais diversos, a importância das ações sociais e culturais do Brasil, as consequências positivas desses projetos para crianças e jovens; apresentação de histórias de vida e trajetórias profissionais de diversas personalidades brasileiras; apresentação de ações inovadoras de pessoas desconhecidas do grande público; as questões da violência pelo país e da distribuição de cultura por diferentes meios; além do funcionamento das instituições policiais e do tráfico de drogas.
A partir disso, percebemos, tanto pelos destaques dados pela mídia para o programa, que nos mostram o reconhecimento de sua característica inovadora, quanto pelas temáticas que apresenta, as quais são diferentes de tantas outras veiculadas atualmente pela grande mídia, que o Conexões teve a função de despertar um novo olhar sobre a realidade social e o de mobilizar e dar voz a diferentes grupos e temáticas sociais.
Figura 1: Cena do vídeo sobre a finalização do Conexões Urbanas.