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4 UM OLHAR SOBRE O SERTÃO DO ARARIPE DE PERNAMBUCO

4.1 Contextualizando o Sertão do Araripe de Pernambuco

Para compreender o contexto do Sertão do Araripe de Pernambuco, inicialmente apresentamos alguns dados sobre a região, disponibilizados principalmente pela Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos de Pernambuco (SEDSDH/PE) e Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS/PE).

A região do Araripe está localizada na extremidade noroeste de Pernambuco, limitando-se com os Estados do Ceará e Piauí e com as regiões Sertão Central e Sertão do São Francisco. A região está localizada na porção mais ocidental de Pernambuco e faz parte da

região semi-árida do Nordeste. O sertão araripeano tem como limites: ao Norte o território do Cariri (Ceará); ao Sul o município de Parnamirim e território do Sertão do São Francisco (Pernambuco); a Leste o município de Serrita (Pernambuco); e a Oeste o território Vale dos Guaribas (Piauí). A média das distâncias para a capital, Recife, é de 573,3 km, sendo Araripina o mais distante (620,6 km) e Moreilândia o mais próximo (516,2 km).

Figura 3 – Localização do Sertão do Araripe e seus limites

Fonte: <http://sit.mda.gov.br/images/mapas/tr/uf_026_trs_pernambuco_jan_2009.jpg>. Acesso em: 04 out. 2013.

A região tem uma população estimada pelo IBGE, para o ano de 2010, de 313.547 habitantes, que corresponde a 3,56% da população estadual e área de 11.613,76 km2, que representa 11,81% do território estadual, com uma densidade demográfica de 27 hab./km2.

De acordo com a SEDSDH/PE27, o Sertão do Araripe é compreendido por dez municípios: Ouricuri, Bodocó, Exu, Granito, Moreilândia, Santa Cruz, Santa Filomena, Trindade, Ipubi e Araripina. Dentre eles, destacam-se as cidades de Ouricuri e Araripina, como polos regionais.

27 Utilizamos a divisão regional utilizada pela SEDSDH/PE, por ser a secretaria que gerencia o CREAS Regional.

Destacamos a informação porque para a Secretaria Estadual de Saúde, por exemplo, a regional tem 11 municípios, acrescentando Parnamirim.

Figura 4 – Municípios que compõem o Sertão do Araripe

Fonte: <http://www.fundacaoararipe.org.br/> Acesso em: 04 out. 2013.

Os municípios mais populosos são Ouricuri (64.358 habitantes) e Araripina (77.302 habitantes), segundo o último Censo (BRASIL, 2010). Ainda de acordo com este Censo, 72,35% da população da região é alfabetizada e 46% reside na zona rural. Assim, a agricultura tem grande importância econômica e social, pois é fonte de trabalho e renda para grande parcela da população.

A região distingue-se pela exploração e beneficiamento da gipsita no Polo Gesseiro, responsável por 95% da produção brasileira. Praticamente todos os municípios dependem da atividade gesseira. Destacam-se ainda a caprinovinocultura, a produção de mandioca e a apicultura, sendo a região a maior produtora de mel do Estado.

Segundo dados do Sistema Infopol da Gerência de Análise Criminal e Estatística (GACE), houve uma queda no número de homicídios na região entre 2011 e 2012; no entanto, houve aumento no ano de 2013 (SDS, 2014). O Sertão do Araripe foi escolhido por ser uma das regiões do Estado que ainda não conseguiu diminuir efetivamente os índices de violência. De acordo com os dados divulgados pela GACE, elaboramos a Tabela 1 com os números de Crimes Violentos Letais e Intencionais (CVLI) na região e no Estado, no período de 2010 a 2013.

Tabela 1 – Estatística de CVLI em Pernambuco e no Sertão do Araripe – Ano 2010 a 2013 ANO DE REFERÊNCIA NÚMERO VÍTIMAS EM PERNAMBUCO TAXA CVLI (por 100 mil hab.) NÚMERO VÍTIMAS NO SERTÃO ARARIPE TAXA CVLI (por 100 mil hab.) 2010 3495 34,76 77 24,96 2011 3507 39,47 98 31,55 2012 3321 36,97 72 22,93 2013 3101 34,14 92 28,99 Fonte: GACE/SDS, 2014.

A Tabela 1 mostra que o ano de 2011 apresentou um aumento dos CVLI em relação ao ano anterior, tanto no Estado, quanto no Araripe, sendo o ano mais violento entre os pesquisados. Podemos também observar que os anos seguintes apresentam uma queda no que se refere ao âmbito estadual. No entanto, na região do Araripe, os números voltam a crescer em 2013.

Utilizando um recorte de gênero, a Tabela 2 mostra os CVLI de mulheres no Estado e na região. A Tabela foi elaborada a partir dos Anuários da Criminalidade divulgados no site da SDS. O ano de 2010 não está relacionado porque o Anuário deste ano não está disponibilizado ou não foi elaborado.

Tabela 2 – CVLI total e de mulheres no Sertão do Araripe – Anos 2011 a 2013 ANO DE REFERÊNCIA MUNICÍPIO 2011 2012 2013 CVLI TOTAL CVLI MULHER CVLI TOTAL CVLI MULHER CVLI TOTAL CVLI MULHER ARARIPINA 30 1 20 0 12 2 BODOCÓ 3 0 10 2 12 0 EXU 15 0 0 0 5 0 GRANITO 1 0 3 0 0 0 IPUBI 8 1 10 0 12 1 MOREILÂNDIA 3 1 3 1 3 1 OURICURI 19 2 16 0 25 4 SANTA CRUZ 2 0 1 0 2 0 SANTA FILOMENA 5 0 1 0 0 0 TRINDADE 12 0 8 1 21 2 TOTAL 98 5 72 4 92 10 Fonte: GACE/SDS, 2014

A Tabela 2 apresenta alguns dados importantes para nossa análise. De forma geral, considerando os três anos, os municípios de Ouricuri e Araripina são os mais violentos. Destaca-se o município de Exu, que apresentou queda considerável: em 2011 com quinze assassinatos, chegando a zerar no ano seguinte. Outro destaque é o município de Bodocó, que juntamente à Ipubi foram os únicos que vieram numa ascendência, sem apresentar a diminuição em 2012. Bodocó teve um aumento de impressionantes 300% de 2013 em relação a 2011. Trindade também apresentou aumento significativo, passando de 8 assassinatos em 2012, para 21 em 2013. Já Araripina, apresenta uma descendência, passando de 30 assassinatos em 2011, para 12 em 2013.

No que se refere à questão de gênero, Ouricuri apresenta-se como o mais violento, ocorrendo em três anos seis assassinatos de mulheres. Os municípios de Exu, Granito, Santa Cruz e Santa Filomena não registraram mortes de mulheres entre 2011 e 2013. Já Moreilândia foi o único município a registrar morte de mulher em todos os anos relacionados.

Com isso, elegemos os municípios de Ouricuri e Araripina como lócus da pesquisa porque são considerados polos regionais, concentrando o maior número de equipamentos sócio-assistenciais, são os mais populosos e de maiores rendas e índices de desenvolvimento.

4.1.1 Ouricuri28

A cidade de Ouricuri surgiu no início século XX, oriunda de uma fazenda de gado, e suas terras pertenciam a Dona Brígida Alencar, que não podendo cuidar sozinha, resolveu vendê-las. Uma grande parte foi comprada pelo Sr. João Goulart, que denominou suas terras de Fazenda Tamboril, e iniciou o cultivo da terra e a criação de gado.

Em 1841, chegou ao local, o Pe. Francisco Pedro da Silva, que ergueu a Igreja de São Sebastião, hoje padroeiro da cidade. O vigário atribuiu ao local o nome de Ouricuri, uma palmeira conhecida na região. Em 30 de abril de 1844 foi criado o distrito, sendo elevado à categoria de cidade e emancipado em 14 de maio de 1903. Hoje o município é formado pelos distritos sede e Barra de São Pedro, além do Povoado de Santa Rita.

Segundo dados do IBGE (BRASIL, 2010), 50,7% da população de Ouricuri são mulheres; 49,35% da população geral residem na zona rural; e 63,5% são de cor parda. A renda média mensal da população rural é menos da metade da população urbana. O Índice de Gini29 é de 0,43.

A média de pessoas por domicílio é de 3,88. Em 2011, 10.234 famílias estavam recebendo o Benefício Bolsa Família e 14.872 famílias estavam inscritas no Cadastro Único30. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH31) é de 0,61.

A taxa de analfabetismo no município é de 28,9% para pessoas com menos de 15 anos de idade, e de 39,1% para os com mais de 15 anos. A meta do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) era de 2,8 e o município alcançou a nota 3,032.

28

Dados históricos coletados no site da Prefeitura de Ouricuri. Disponível em:

http://www.prefeituradeouricuri.com.br/historia/. Acesso em: 31 dez. 2014.

29

O Índice de Gini é um instrumento para medir o grau de concentração de renda de um determinado grupo. Ele aponta a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos. Numericamente, varia de zero a uma unidade, sendo que o valor zero representa a situação de igualdade, ou seja, todos têm a mesma renda e o valor um está no extremo oposto. O índice do Brasil em 2012 foi 0,505 e de Pernambuco 0,611 (IPEA, 2012).

30

Fonte: Ministério do Desenvolvimento Social – MDS/CadÚnico, 2011.

31

O IDH é uma medida geral, sintética, do desenvolvimento humano. Varia de zero a um, onde a unidade representa a melhor condição dos três pilares que o constituem: saúde, educação e renda (MDS, 2011).

4.1.2 Araripina33

Antes de ser elevado à categoria de município, o distrito foi criado com o nome de São Gonçalo e pertencia a Ouricuri. O local contava apenas com uma capela e uma dezena de casas. Com a chegada do primeiro vigário, surgiu a primeira escola estadual e começou uma nova era para o vilarejo.

Em 11 de setembro de 1928 conquistou sua emancipação política. O nome Araripina atribui-se, provavelmente, a proximidade com a chapada do Araripe. O município é composto pelos distritos sede, Lagoa do Barro, Morais, Nascente e Rancharia, e pelo povoado Gergelim. Segundo dados do IBGE (2010), 51% da população de Araripina são mulheres; 39,32% da população geral residem na zona rural; e 62,8% são de cor parda. A renda média mensal da população rural é pouco mais da metade da população urbana. O Índice de Gini é de 0,45.

A média de pessoas por domicílio é de 3,74. Em 2011, 13.279 famílias estavam recebendo o Benefício Bolsa Família e 18.957 famílias estavam inscritas no Cadastro Único34. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é de 0,65.

A taxa de analfabetismo no município é de 23,1% para pessoas com menos de 15 anos de idade, e de 34,6% para os com mais de 15 anos. A meta do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) era de 3,1 e o município alcançou a nota 4,135.