Entendemos a televisão regional como uma arena em que se cruzam valores que, devido ao fato de ela estar no contexto das pessoas que compartilham experiências cotidianas, possibilita o envolvimento maior dos sujeitos com a mídia, pois o mundo se revela no cotidiano, tem sua existência nos lugares, como afirma Milton Santos (2006). E é nesse sentido que Montoro afirma que a televisão [e, reforçamos, a mídia regional] é parte de uma cotidianidade a qual revela a capacidade que os meios de comunicação têm de “construir agendas, marcos e categorias culturales con las cuales tenderán a actuar los miembros de una cultura” (MONTORO, 2001, p. 12).
Homi Bhabha, Michel De Certeau e Milton Santos contribuíram com as contextualizações sobre espaço, lugar e região em que situamos tal problemática no sentido de que a partir de seus construtos abordamos os programas e a programação regionais como táticas e estratégias de cada grupo de se expressar, de produzir e consumir as informações e de reproduzir e reelaborar seus aspectos culturais na vivência do cotidiano.
Nesse ínterim, televisão regional é aqui abordada sob três perspectivas: a) a importância da atuação social dos profissionais da televisão a qual se traduz localmente na adesão às causas públicas e à sensibilização das pessoas e das emissoras ao buscar vincular sua imagem ao território que abarca; b) a premissa de que por “território” e por “local” não se entende apenas um espaço geograficamente medido; define-se mais pela “sensação de proximidade” em que cada lugar é um “centro” e as fronteiras entre o regional, o local e o global são frágeis; e c) esse mesmo território híbrido tem atualmente bases diversas: cultural, ideológica, idiomática, de circulação da informação – é o lugar do “diverso” (MENESES, 2015; CAMPONEZ, 2002; PERUZZO, 2005; LINS, 1997; SIMÕES, 2004).
A partir da discussão de que por regionalização podemos observar três circunstâncias: a) regionalização da produção; b) regionalização da grade de programação e c) regionalização dos conteúdos (Simões, apud MENESES, 2015), entendemos que em todas elas o termo regionalização é tensionado, pois nesse contexto, para definição de programa regional, não cabe apenas a produção de temas regionalizados produzida pelas redes nacionais e exibida também nacionalmente. O termo regional que nos interessa, portanto, recorta a produção própria de emissoras com concessão para uma região geograficamente demarcada, cujos programas sejam produzidos e distribuídos local ou regionalmente por uma emissora regional, ou produzidos por uma emissora regional e distribuídos também por outras emissoras regionais ou ainda produzidos em parcerias entre emissoras regionais ou por emissoras e outras produtoras independentes. Para este texto, utilizamos a regionalização no sentido de empreender a inserção de temáticas e produções regionais na televisão aberta generalista.
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Pesquisa em Comunicação e Sociedade
Da diversidade das narrativas à diversidade dos processos
Entendemos que os programas das emissoras regionais se configuram como lugar de trocas simbólicas, espaço de realizações cotidianas e do fazer criativo, construindo-se a cultura por meio das (re)configurações e (re) leituras que os produtores locais fazem do conteúdo televisivo das redes. Nesse sentido, a televisão regional atualiza e elabora códigos televisivos em seus níveis de realização, quais sejam: realidade, representação e ideologia, performando e reorganizando sua realidade como meio social e cultural (MENESES, 2015, p. 28).
Em relação aos conteúdos, a produção local, por outro lado, seria a produção e distribuição de produtos locais que caracteriza um “programa local”, contudo, os conteúdos podem ser globais (produção local de conteúdos globais) ou regionais (produção local de conteúdos locais). Neste último caso, a televisão regional agrega valores mais comunitários, pois busca se inserir na vida cotidiana do lugar.
Por sua vez, ao refletir sobre a TV regional como forma cultural, trazemos a discussão sobre gêneros e formatos. Pesquisa futura deverá discutir como os tipos, formatos e motivações das obras regionais podem construir, ou não, um modelo próprio para os programas locais/ regionais na televisão aberta regional.
Cabe salientar que o interesse central do trabalho é evidenciar que é preciso novas formas de pensar a televisão que abarquem as diferenciações e as pluralidades dos processos e gramáticas encontrados na contemporaneidade, como reflete Montoro ao analisar o documentário brasileiro dos últimos anos.
Reanimar a narrativa na contemporaneidade é então um desafio pela necessidade de começar de novo, no sentido de recuperar a experiência sensível e reavivar uma história em contínua construção. Uma história que se faz de retalhos, de fragmentos, de passagens, e conta agora com a mediação de novas tecnologias audiovisuais estimulando que novos sentidos aflorem e possam ser incorporados ao presente, trazendo ao cenário novas vozes e discursos que estavam silenciados e quase olvidados. Desta forma o ato de rememorar assume a conotação de uma arte e faculdade comprometida em mobilizar o potencial da experiência, da crítica e de revelação de sentidos ocultos e opacos (MONTORO, 2012, p. 419).
Assim, refletir sobre a regionalização da televisão e sobre a televisão regional é refletir sobre a construção de espaços mais plurais e de relações mais dialógicas e diversas entre a sociedade, a cultura e a comunicação a partir da identificação de sua potencialidade de penetração nos níveis cotidianos da vida, nos lugares praticados, no dizer de De Certeau (2009), procurando compreender as significações que estes têm na produção de sociabilidades e sentimentos de pertença, bem como no reconhecimento de identidades e nos modos de consumir os produtos culturais da televisão por meio de sua efetividade como formato ou forma cultural. Contudo, não se pode alimentar a visão romântica de que a produção local vai expressar a pureza e a heterogeneidade de uma cultura regional, contudo, é uma aposta na presença de pluralidade cultural e social e na possibilidade de as audiências terem maior controle sobre o que é apresentado.
Pesquisa em Comunicação e Sociedade Da diversidade das narrativas à diversidade dos processos