PERTENCIMENTO E IDENTIDADE: PARA QUEM É PENSADO O AMBIENTE ESCOLAR?
5.6 CONTINUAMOS PRECISANDO FALAR SOBRE DESIGUALDADES
O quinto e último processo trazido por Reimers (2000) relaciona-se a au-sência de um projeto para promover a justiça social desde a escola, com conteúdos e processos educativos voltados tanto para os pobres quanto para quem não o é e que tenham como objetivo especificamente tratar a desigualdade como um pro-blema. Sem evidenciar e discutir a questão, os mecanismos excludentes dentro da escola, que agem principalmente de forma velada, se perpetuam, fazendo com que esta opere mais como reprodutora da estrutura social existente do que como espaço de transformação.
Diante de todas as diferenças aqui apresentadas – porcentagem de profes-sores formados adequadamente na disciplina que lecionam, gasto por aluno, am-biente e recursos pedagógicos propícios, apoio dos pais, convivência com colegas com maior capital cultural –, as disparidades no desempenho dos alunos vindos de lares com maiores ou menores rendimentos se tornam quase inevitáveis. É o que está refletido no Gráfico 15, que mostra as diferenças entre o percentual de alunos do ensino fundamental com nível suficiente de alfabetização em matemática por nível socioeconômico no Brasil: enquanto entre os alunos de nível socioeconômico muito baixo apenas 17,1% alcançou nível suficiente, entre aqueles de nível socioe-conômico muito alto o percentual é de 85,5%, todos os dados de 2016.
Será, então que a educação no Brasil está condenada a simplesmente re-produzir e legitimar as desigualdades históricas? A resposta é não. Se a educação não pode compensar a sociedade, há escolhas a se fazer. E, apesar de nosso atraso histórico, o Brasil vinha, desde a Constituição de 88, realizando um esforço educa-cional importante, ainda que insuficiente. São vários os exemplos disto, com todas as limitações e imperfeições: a ampliação do orçamento educacional, programas
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Gráfico 14: Distribuição percentual das pessoas de 25 anos ou mais de idade que mora-vam com o pai aos 15 anos de idade, por nível de instrução, segundo o nível de instru-ção do pai quando tinham 15 anos de idade – Brasil – 2014
Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, Pesquisa Na-cional por Amostra de Domicílios 2014.
Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2014.
Continuamos precisando falar sobre desigualdades...
O quinto e último processo trazido por Reimers (2000) relaciona-se a ausência de um projeto para promover a justiça social desde a escola, com conteúdos e processos educativos voltados tanto para os pobres quanto para quem não o é e que tenham como objetivo especificamente tratar a desigualdade como um problema. Sem evidenciar e discutir a questão, os mecanismos excludentes dentro da escola, que agem principalmente de forma velada, se perpetuam, fazendo com que esta opere mais como reprodutora da estrutura social existente do que como espaço de transformação.
Diante de todas as diferenças aqui apresentadas – porcentagem de professores formados adequadamente na disciplina que lecionam, gasto por aluno, ambiente e recursos pedagógicos propícios, apoio dos pais, convivência com colegas com maior capital cultural –, as disparidades no desempenho dos alunos vindos de lares com maiores ou menores rendimentos se tornam quase inevitáveis. É o que está refletido no gráfico 15, que mostra as diferenças entre o percentual de alunos do ensino fundamental com nível suficiente de alfabetização em
Gráfico 15: Porcentagem de alunos do 3º ano do Ensino Fundamental no nível suficien-te de alfabetização em Masuficien-temática, por Nível Socioeconômico (NSE) da escola – Brasil – 2014 e 2016
Fonte: IBGE/PNAD Contínua. Elaboração: Todos Pela Educação, com publicação no Anuário Brasileiro da Educação Básica, 2018.
matemática por nível socioeconômico no Brasil: enquanto entre os alunos de nível socioeconômico muito baixo apenas 17,1% alcançou nível suficiente, entre aqueles de nível socioeconômico muito alto o percentual é de 85,5%, todos os dados de 2016.
Gráfico 15: Porcentagem de alunos do 3º ano do Ensino Fundamental no nível suficiente de alfabetização em Matemática, por Nível Socioeconômico (NSE) da escola – Brasil – 2014 e 2016
Fonte: IBGE/Pnad Contínua. Elaboração: Todos Pela Educação, com publicação no Anuário Brasileiro da Educação Básica, 2018.
Será, então que a educação no Brasil está condenada a simplesmente reproduzir e legitimar as desigualdades históricas? A resposta é não. Se a educação não pode compensar a sociedade, há escolhas a se fazer. E, apesar de nosso atraso histórico, o Brasil vinha, desde a Constituição de 88, realizando um esforço educacional importante, ainda que insuficiente. São vários os exemplos disto, com todas as limitações e imperfeições: a ampliação do orçamento educacional, programas universais como os da merenda escolar, do livro didático ou de educação especial; mecanismos de redução da desigualdade, como o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica e Valorização do Magistério, o piso salarial nacional para o magistério, a educação integral e as ações afirmativas no ensino superior, entre outras tantas iniciativas.
O gráfico 16 adiante expressa este esforço. Ele se refere à evolução do desempenho em ciência dos estudantes de diferentes países no PISA, entre 2006 e 2015. O eixo horizontal mostra a evolução da média dos países entre os anos citados, de tal maneira que, quanto maior o valor,
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universais como os da merenda escolar, do livro didático ou de educação especial;
mecanismos de redução da desigualdade, como o Fundo Nacional de Desenvolvi-mento da Educação Básica e Valorização do Magistério, o piso salarial nacional para o magistério, a educação integral e as ações afirmativas no ensino superior, entre outras tantas iniciativas.
O Gráfico 16 adiante expressa este esforço. Ele se refere à evolução do de-sempenho em ciência dos estudantes de diferentes países no PISA, entre 2006 e 2015. O eixo horizontal mostra a evolução da média dos países entre os anos cita-dos, de tal maneira que, quanto maior o valor, mais o desempenho do país melho-rou no período. Já o eixo vertical expressa numericamente a variação do peso das condições socioeconômicas dos estudantes sobre seu desempenho e aí a relação é inversa: se o valor é negativo, é sinal de que o sistema educacional daquele país se tornou mais equitativo, ou seja, foi capaz de reduzir a influência das condições so-ciais do estudante sobre seus resultados. Como se vê no gráfico, o Brasil é um dos poucos países que conseguiu, na última década, melhorar tanto a equidade quanto o desempenho no Pisa. Isto é particularmente notável porque foi um período de inclusão educacional e expansão do universo de estudantes avaliados pelo progra-ma: quer dizer que a amostra da prova passou a ter uma participação crescente de estudantes mais vulneráveis, o que faria esperar uma média mais baixa nos testes.
E isto não ocorreu, ao contrário.
Gráfico 16: mudanças no desempenho em ciência e na equidade do sistema educacional – PISA – 2006/2015
Fonte: PISA 2015 Results (Vol. I): Excellence and Equity in Education – OECD 2016
DESEMPENHO PIOROU DESEMPENHO MELHOROU
EQUIDADE MELHOROU
EQUIDADE PIOROU Brasil
Diferença (2015-2006) no desempenho em ciência Diferença (2015-2006) na % da variação do desempenho em ciência explicada pelo nível socioeconômico
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Ou seja, mesmo com muitas dificuldades, nós somos capazes de tornar nossa educação melhor e mais inclusiva. Nosso desafio é tão grande quanto nos-so atranos-so. Mas não é maior do que nossas possibilidades. Fomos capazes de lidar simultaneamente com três tarefas hercúleas: ampliar o acesso, reduzir a desigual-dade e ampliar a qualidesigual-dade. Não é pouca coisa, e os resultados não são imediatos:
a educação de um país não é nem um bem que se adquire imediatamente após efetuar o pagamento nem um insumo, um tipo de vacina que se aplica e logo em seguida a população vacinada fica imunizada contra a ignorância. A educação é um complexo e demorado sistema de ação: a relação entre a alocação de insumos financeiros e a obtenção de resultados é operacionalizada, mediada e constrangida por cadeias causais intrincadas e longas, que conectam um sem número níveis de governo, diversos atores, carreiras e perfil docentes, equipamentos, escolas, cur-rículos, contextos socioeconômicos heterogêneos e desiguais. E há sempre muita dependência de trajetória e legado de escolhas prévias.
São investimentos, portanto, que têm um prazo de maturação longo, mas que também são duradouros. Por isto a sustentação de níveis altos de esforço e gasto por períodos longos é a única maneira de reduzir o atraso educacional bra-sileiro e é o que explica em parte que hoje outros países possam fazer um esforço educacional menor que o nosso e ainda assim obter bons resultados. A sustentabi-lidade e a estabisustentabi-lidade do esforço têm que se combinar com sua magnitude.
Assim, o que o conjunto de dados e argumentos ora apresentados evidencia é que as disparidades entre crianças e jovens de diferentes classes sociais já se ini-ciam no acesso à escola, com a dificuldade dos mais pobres em alcançarem níveis educacionais mais elevados, permanecem dentro das instituições de ensino, que possuem tratamento diversos de acordo com o nível socioeconômico do aluno, e também adentram as residências, com diferentes possibilidades para os pais apoia-rem o desenvolvimento escolar de seus filhos. É preciso recusar decisivamente a ideia de que as desigualdades educacionais são o resultado natural do talento, do esforço ou do mérito dos indivíduos. Tampouco são uma fatalidade contra a qual não há o que fazer: são resultado da complexa combinação de escolhas, valores, conflitos e correlação de forças sociais e políticas. Se é assim, a atitude consequen-te é afirmar o direito universal à educação como imperativo político, econômico, mas também moral. Finalmente, reconhecer e identificar os mecanismos visíveis e invisíveis pelos quais este direito é negado a tantos de nós e transformar seu enfrentamento em prioridade permanente é condição para que a educação possa cumprir a promessa igualitária e emancipadora em que a esperança de tantos se deposita.
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