5.1 P ERCURSO DE VIDA
5.1.3 A continuidade dos estudos em Vitória/ES
A ida a Vitória foi uma parte da trajetória da professora que chama a atenção, inicialmente, pela pouca idade, pois Juliana tinha 10 anos quando foi morar em Vitória na casa da irmã mais velha para cuidar de seus dois sobrinhos (Diário de campo da pesquisadora). Ela relata que, naquele tempo, no início da década de 1980, sua irmã veio de Teixeira de Freitas-BA para morar em Vitória e uma das dificuldades era encontrar alguém de confiança para cuidar de seus filhos.
Após conversar com seus pais, sua irmã mais velha solicitou autorização para que Juliana fosse morar com ela em Vitória para que cuidasse de seus sobrinhos. Mesmo estando morando na casa da irmã, o fato de uma filha sair de casa tão cedo emanava alguns cuidados, porque o pensamento da época tinha os conceitos sobre isso, como Juliana transparece nesta fala:
[...] Porque papai ele também não queria não, porque ele achava que uma filha quando saia de casa ela ia se perder ela não ia, estudo não e, não adiantava, aquela ideia né, como eu to falando com você, estudo não era importante até uma certa época não era importante, então a ideia dele era essa [...] (fala da professora Juliana).
Juliana só foi para Vitória após terminar a 4ª série na escola da comunidade e, chegando a Vitória, ela ficou responsável pelo serviço da casa, inclusive cozinhar e dos cuidados com os sobrinhos.
Quando eu fui para Vitória, eu não fui nem na intenção de estudar, eu fui morar com uma irmã, lá em Vitória, a minha irmã tinha 2 crianças, irmã mais velha, ih essas crianças não tinham com quem ficar, ela trabalhava fora, aí então eu terminei a 4ª série aqui, e fui pra casa dela [...] (fala da professora Juliana).
Em nossas conversas, ela relata que sentia muitas saudades de casa e que sua irmã muitas vezes fez o papel da sua mãe enquanto ela esteve fora de casa, mas mesmo assim ela permaneceu e voltou a estudar, tanto que, no mesmo turno que ela levava o sobrinho mais velho para a escola, ela também ia estudar.
[...] Com esta situação de ir para Vitória, né, de morar com minha irmã, surgiu a oportunidade de eu continuar a estudar, como eu sempre gostei de estudar, então foi, foi um ponto né, então fui pra lá, estudei, quando eu,
naquela época que eu terminei o ensino, o magistério em 88 (fala da professora Juliana).
Essa vontade de continuar a estudar esteve sempre muito presente para ela, mesmo quando seu pai achava que não seria necessário continuar após a 4ª série, e que sua mãe sempre foi uma grande incentivadora, ainda mais quando ela foi para Vitória e pôde dar continuidade a seus estudos.
[...] Mas lá eu sempre quis estudar, porque na realidade a minha, meu pai, por exemplo, não queria que filha dele estudasse, sabe, estudo para o meu pai nunca ficou em 1º plano e nem era vantagem para alguém estudar, então, era sempre contra, era mesmo só estudar ate a 4ª série e o resto era sua filhar ficar em casa, fazer enxoval pra casar, então era a ideia do meu pai. A minha mãe tinha uma ideia mais avançada, minha mãe já queria [...] (fala da professora Juliana).
Na fala acima, podemos ver o que se esperava da mulher naquela época: o mínimo de escolaridade e que, no demais, esta se preparasse para o casamento, onde deveria assumir as funções de esposa.
Entretanto, Juliana muda essa expectativa e termina o 1º Grau na Escola Padre Anchieta em Vitória, cursando a mesma no período de 1981 a 1984, dando, assim, continuidade a sua vontade de estudar, como se pode visualizar na Fotografia 12 abaixo.
Fotografia 12 - Caderneta Escolar da Escola de 1º Grau Pe. Ancheita. Fonte: Documento da Juliana cedido para a pesquisadora.
Fotografia 13 - Caderneta Escolar da Escola de 2º Grau Professor Fernando Duarte Rabelo
Fonte: Documento da Juliana cedido para a pesquisadora.
Assim que ela terminou o 1º Grau, Juliana começou a estudar na Escola de 2º Grau Professor Fernando Duarte Rabelo (que se localiza na Praça Cristovão Jacques em Vitória-ES), como consta em sua caderneta Escolar (Fotografia 13), escolhendo a Habilitação Profissional em Magistério como opção de curso
Eu fiz na Fernando Duarte Rabelo, uma escola, eu acho que não tinha muitas escolas em Vitória, foi naquela escola, e essa escola, então eu fui, naquele tempo era o ensino técnico, você terminava a 8ª série, fazia o 1º ano básico né, que era o 2º grau e você já poderia optar por um técnico (pausa), então tinha outros técnicos, mas eu não me, eu acho me vi mais como professora, então comecei a estudar e aqui, eu comecei a estudar naquela época lá, o 1º ano de magistério você tinha que escolher uma escola, e ir nessa escola, fazer sua ficha para o estágio, entendeu? (fala da professora Juliana).
A Habilitação Específica para o Magistério foi implementada pela Lei nº 5.692/71, que criou as habilitações profissionalizantes obrigatórias no 2º Grau, com a intenção de formar a mão de obra necessária ao mercado de trabalho. Com isso, a formação do professor que atuaria no ensino primário estava diluída em uma habilitação, numa formação onde os conteúdos gerais e específicos estavam desarticulados em meio à grade que este apresentava e, aos poucos, a ideia e o status que a antiga Escola Normal possuía foram se perdendo, justamente por agora ser uma habilitação profissionalizante, que seria ofertada em todas as escolas públicas (TANURI, 2000).
Enquanto estudava, Juliana continua auxiliando sua irmã com os sobrinhos e com a casa, até que, ao findar o Ensino Médio, ela retornou para a comunidade, tendo como base a obediência que tinha aos seus pais e também a possibilidade de iniciar sua vida profissional, mesmo que inicialmente a mesma fosse incerta.
Foi quando eu retornei, é como eu falo, obediência também aos pais, papai e mamãe achavam que eu não deveria ficar mais, porque eu já tinha terminado na realidade um curso, não podiam pagar para mim uma faculdade, então eu tinha que retornar mesmo para trabalhar, e naquela época quando eu voltei 88 era assim mais fácil você começar a trabalhar porque eu acho assim tinha menos professores, para a zona rural principalmente assim pro campo. A gente fala zona rural mas ta errado né, é campo, menos professores para o campo, então foi o ano que eu vim embora, o ano que a professora entrou de licença, e eu fui como DT, era contrato na época, trabalhei aquele ano no lugar dela, aí no final do ano que o contrato encerrava aí você ficava sem emprego de novo [...] (fala da professora Juliana).
Assim, logo que retornou para sua casa, Juliana iniciou sua atuação como professora na própria comunidade via contrato de Designação Temporária (DT) no lugar da professora efetiva, que naquele período estava em licença maternidade.
Desse modo, percebemos, no decorrer da análise deste eixo “Percurso de Vida”, que a família se evidenciou como base para muitas das escolhas e decisões que Juliana tomou, confirmando o que Dominicé (2010a, p. 89) escreveu, que “[...] As relações familiares influenciam de forma importante as opções tomadas no curso escolar ou a construção da escolha da profissão [...]” (DOMINICÉ, 2010a, p. 89).
Entre as decisões está o fato de Juliana ter podido estudar e, mesmo quando ela se mudou para a capital para trabalhar, ela continuou seus estudos e seu curso de 2º Grau foi um indício de sua escolha profissional: ser professora. Esse delineamento será discutido no nosso segundo eixo “Processo de Formação”.