CAPÍTULO IV AS IDÉIAS ESTAVAM NO LUGAR
4.5 A PRAÇA FLEMING E SUA RELAÇÃO COM AS EDIFICAÇÕES
4.5.3 Análise Morfológica
4.5.3.3 Continuidade Visual
A categoria de continuidade Visual foi analisada sob dois pontos de vista. O primeiro corresponde à escala local, através do qual se verificou a continuidade visual entre o espaço livre público e o espaço edificado, a partir do campo de visão do observador situado na calçada da praça. O segundo verificou a Continuidade Visual enquanto possibilidade de percepção do espaço que se situa além do conjunto edificado, esse último analisado em relação ao conjunto, pelo espaçamento entre os edifícios ou pela possibilidade de continuidade visual por sobre o volume edificado. Esta categoria está relacionada com o grau de fechamento espacial.
Em se trabalhando com recorte temporal correspondente ao final da década de cinqüenta, na escala local, foi considerado o campo visual do observador em relação a cada tipo, analisado enquanto parcela e apresentado na seqüência cronológica. O observador posicionou-se na frente da edificação do Tipo 01, olhando em linha reta, a partir da calçada
oposta, de maneira a vê-la em sua totalidade e podendo visualizar o fundo além do volume em foco. Ao analisar o campo visual na sua horizontalidade, o observador visualiza a fachada como elemento de vedação da parcela, possuindo neste ponto um campo visual mais raso.
Lateralmente, o campo visual permite perceber o fechamento realizado por uma mureta baixa, encimada por grade que favorece a continuidade visual e confere noção de profundidade.
Figura 26: esquema de continuidade visual do TIPO 1
Na análise do tipo 02, verificou-se que esta tipologia pode ser observada em sua totalidade como fundo de um primeiro plano. A figura percebida em primeiro lugar é o muro de fechamento da parcela, cuja altura lhe atribui a qualidade de elemento de vedação (ASHIHARA, 1982, p.XX), e sua altura estimada (1,20) permite que a edificação seja visualizada em sua porção superior. O recuo da edificação em relação à divisa permite um campo visual mais profundo. Acima do conjunto de planos verticais da parcela o observador ainda pode perceber uma boa parte do fundo visual, o que confere profundidade à cena. Ao analisar o campo visual horizontalmente, verifica-se que, uma vez o observador situado de forma centralizada em relação à parcela, quase toda a sua frente pode ser visualizada, e a edificação é percebida enquanto volume.
Figura 27: esquema de permeabilidade visual do TIPO 2
Como resultado da análise, os tipos 03 e 04 apresentaram uma maior integração visual, viabilizada pela altura do elemento de fechamento da parcela: uma mureta de 80 cm. Segundo o referencial analítico adotado, um muro até 90 cm não altera a continuidade visual, sendo percebido apenas como diferenciador de espaços. Este artifício faz que a fachada pareça, em primeiro plano. A partir do ponto de vista do observador, a edificação pode ser totalmente percebida, o campo visual acima da coberta, que permite sua percepção enquanto volume.
A análise horizontal do tipo 03 demonstrou que, lateralmente, a fachada é percebida enquanto plano de vedação e embora a profundidade do campo visual seja maior em relação ao tipo 02, esta o restringe, não oferecendo a possibilidade de ver a parcela em sua profundidade.
Figura 28: esquema de permeabilidade visual do TIPO 3
Na análise horizontal do campo visual, o Tipo 04, cuja edificação possui implantação independente das divisas laterais do lote, apresentou uma maior visibilidade e compreensão da parcela como um todo
Figura 29: esquema de permeabilidade visual do TIPO 4
Para a comparação dos elementos edificados entre si e em relação ao espaço livre entre eles, o referencial teórico diz que a razão equilibrada se dá quando a distância entre os dois objetos é igual à maior altura. À medida que o valor da razão D/H aumenta, o objeto ganha destaque e passa a ser percebido como um elemento escultórico. Ao contrário, quando o valor da razão é menor que um, os objetos tendem a ser lidos como um conjunto, aumentando o caráter de fechamento do espaço livre entre eles.
No recorte temporal da década de cinqüenta, na leitura do conjunto urbano, as edificações da Rua Muniz Tavares, representadas pelo Tipo 01 e 02, apresentam uma relação espacial diversificada, tendo em vista os diferentes tipos, em relação à volumetria, gabarito e à implantação da edificação no lote. A edificação do tipo 1 aparece como um elemento escultórico no conjunto, possuindo D/H=4.3. Por ser implantada solta das divisas do lote, esta edificação é percebida quase em sua totalidade pelo observador, nesse caso, a parcela interage com o espaço público através do muro baixo. A percepção do espaço situado além da edificação, tendo em vista que o observador se coloca na calçada da praça, é realizada por sobre o espaço livre do lote. As edificações do Tipo 02, geminadas ou com relação D/H entre
0.52 e 1, configuram-se como um pequeno conjunto, mas, por não serem muito numerosas não chegam a possuir caráter de fechamento. O baixo gabarito permite uma boa percepção do que está além da edificação, ampliando a percepção visual do observador para o espaço além da praça.
A quadra leste é composta pelos tipos 03 e 04, pertencentes ao projeto do Banco Hipotecário Lar Brasileiro, que apresentam o mesmo gabarito. Os volumes são unidos no nível do pavimento térreo, através do volume de garagem e/ou por uma delgada marquise de concreto armado, artifício que contribui para o efeito de fechamento do conjunto. A composição dos dois modelos, nos quais o volume correspondente aos quartos ora está voltado para a Praça Fleming, ora para a Jaqueira, determina a ligação também no nível do primeiro pavimento de grupos de edificações. As edificações não geminadas na fachada frontal são interligadas na fachada posterior também através do volume dos quartos. O contínuo desta tipologia na fachada da Rua Professor Fleming faz com que ela se apresente como uma parede de fechamento do espaço da praça, no primeiro plano. Seu gabarito, no entanto, permite que se observe o espaço além da edificação, o que amplia o horizonte de percepção e evita a sensação de confinamento. Artifício semelhante é visto na fachada da quadra norte, as edificações são unidas duas a duas no nível do pavimento térreo, pelo volume da garagem. No primeiro pavimento, porém, elas se mantêm separadas. A razão D/H entre as edificações que estão isoladas entre é igual a 0,52, o que determina o caráter de fechamento espacial.