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Acerca do termo conto, em sua acepção literária, o que se pode afirmar é que seu emprego remonta a tempos muito antigos, sendo impossível precisar em que momento da história humana passou a ser empregado com o sentido que o tomamos hoje. Há estudiosos que acreditam que episódios narrados na Bíblia já eram exemplares do que atualmente entendemos como conto.

Massaud Moisés, em seu livro intitulado A criação literária, de 1970, aponta que é a partir do século XIX que o conto alcança verdadeiramente um status de valor literário comparável a outras formas mais valorizadas, principalmente às poéticas. Escritores como Balzac, Flaubert e Maupassant fizeram da França um lugar onde o conto alcançou a glória. Desse mesmo século, temos nomes como Edgar Allan Poe, Nicolai Gogol, Anton Tchekov.

Em língua portuguesa, nessa mesma época, há também autores de renome que brindaram o público com sua genialidade, tais como Eça de Queirós, Aluísio Azevedo e, em especial para nós, Machado de Assis.

A trajetória do conto não sofreu declive com o passar do tempo, ao contrário, manteve-se em ascensão com novos nomes como Dalton Trevisan, Monteiro Lobato, Virgínia Woolf, Kafka, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade só para citar alguns.

Do ponto de vista da estrutura, o conto pode ser considerado, como salienta Moisés (1970, p. 111) como “a matriz da novela”, mas sem que possa ser convertido ou ampliado, isto é, não se admite alterações que o conduza a outra forma. Apresenta uma única unidade de ação, isto é, um único conflito. A narrativa é direcionada em uma única direção, de forma mais direta, sem exageros de devaneios ou adjetivações para que o ritmo não seja quebrado.

Em relação ao espaço, a ação ocorre, normalmente, em um único local. Quanto a isso, o referido autor chega a relacionar o contista a um cinegrafista, que registra o cenário somente no tocante àquilo que realmente é imprescindível aos fatos narrados. Acerca do tempo, o conto focaliza um momento em particular, específico na vida dos personagens que o compõe, sendo, portanto, também limitado, uma vez que o passado e o futuro não são relevantes para o episódio abordado.

Vale realçar que todo conto assume um tom em sua narrativa, seja ele de simpatia, de horror, de indignação, entre outros. E isso é assegurado pela

convergência de todos os elementos que o constituem. “Daí vem que todo o esforço criador se concentra na formulação dum drama em torno dum sentimento único e forte a ponto de desencadear uma impressão correspondente no espírito do leitor. ” (MOISÉS, 1970, p. 114)

As personagens dos contos funcionam como meios para a ação e, portanto, aparecem em número reduzido. Não há o interesse em caracterizá-las em demasiado. Dessa maneira, garante-se a generalização, fazendo com que a ação seja mais importante e resulte em algo mais reflexivo.

Ponderando que o conto é em sua essência algo direto e objetivo, normalmente é narrado em terceira pessoa, fugindo assim às subjetividades inerentes ao narrador de primeira pessoa. “A imaginação, necessariamente presente para conferir à obra o caráter estético, jamais se perde no vago; ao contrário, prende-se plasticamente à realidade concreta”. (MOISÉS, 1970, p. 115)

Quanto à linguagem, seguindo a formulação do gênero, é direta, sem excentricidades. A isso é somada a importância dos diálogos, que garantem tanto agilidade à ação, quanto a geração do conflito que faz a história acontecer. É através das falas que as intrigas, os desentendimentos são criados. A esse respeito, destacam-se o discurso direto – predominante –, o discurso indireto e o monólogo, que não iremos sistematizar aqui por não ser o foco de nosso trabalho.

Cabe ressaltar que a trama do conto se apresenta pouco antes do clímax, e o desenrolar dos fatos seguem, normalmente, uma ordem cronológica. A agilidade exigida pelo gênero faz com que a atenção do leitor seja capturada e mantida até o desfecho. Havendo um exagero de adjetivações ou de descrições, a dinamicidade seria perdida e, consequentemente, a atenção do leitor se dissiparia.

Acerca do foco narrativo, ponto central de nosso trabalho, ancorado em dois críticos norte-americanos, Moisés (1970) nos apresenta quatro tipos, a saber: i) personagem principal conta a história; ii) personagem secundária conta a história de personagem principal; iii) escritor, analítico ou onisciente, conta a história e iv) escritor conta a história como observador. Independentemente da escolha do contista, o crítico destaca que o foco deve ser o convencimento do leitor em relação à história, ou seja, equivale dizer que o importante é que se garanta a verossimilhança. O que pode parecer paradoxal, pois tendemos a acreditar mais naquilo que nos é contado pelo ator principal. O emprego da primeira pessoa, ao mesmo tempo que deve ser observado com certas reservas, pois há sempre a possibilidade de que a história nos

seja repassada de maneira excessivamente pessoal, faz também com que o leitor se sinta mais próximo, mais inserido no que lhe é contado, quase como se fosse uma confissão.

O primeiro dos focos, considerando que conta a história a partir de seu ponto de vista, uma vez que é a personagem principal, acaba por repassar uma abordagem subjetiva dos fatos, não garantindo assim um alto índice de confiabilidade. O mesmo ocorre com o terceiro tipo que, ao utilizar-se da primeira pessoa, também terá um panorama parcial dos acontecimentos. O uso da primeira pessoa faz com que o discurso não seja neutro, havendo sempre a tendência de os juízos de valores perpassarem a narração. Nesse caso, uma saída apontada por Moisés (1970) é que o narrador assuma a função de um “alter-ego” do contista.

A aproximação com o leitor, alcançada com o emprego da primeira pessoa, como relatamos anteriormente, se perde quando o foco narrativo é em terceira. Mesmo quando o narrador é uma personagem secundária, esse tom confidencial se dilui por conta de a referência ser o outro. Não sendo a personagem principal, sua participação é limitada, o que limita também a amplidão e exatidão de sua visão. Assim, esse tipo de foco narrativo é pouco empregado.

O terceiro tipo de narrador tem acesso não somente às ações, como também ao interior das personagens, isto é, possui amplo controle da narração, pois tudo sabe. Se por um lado perde-se em proximidade com o leitor, ganha-se em pormenores que os outros focos não têm como acessar.

Moisés (1970) relata ainda a existência de vários tipos de contos, tais como: de ação, de caráter e especialmente nos interessa destacar o conto de ideia. Nesse tipo, as personagens são muito expressivas e acabam por vezes assumindo status de um símbolo, como podemos notar no conto O Alienista, de Machado de Assis.

Pensando agora no começo e no epílogo, pode-se dizer que começar o conto é o momento que apresenta mais dificuldade, pois é a partir do ponto em que a narrativa começa que a necessidade de manter o interesse do leitor já se faz presente. Ou seja, é preciso saber engendrar bem a trama desde o início, para que a atenção do leitor não seja perdida ao longo da leitura. O epílogo, quando aparece despois de um desenrolar de uma boa trama, não traz no seu processo de confecção muitos problemas, pois finalizar uma boa história de forma surpreendente não é algo tão difícil para um contista.

No documento cassiaferreiradefreitastirapani (páginas 35-38)

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