Fase II- Evidências correspondentes à instalação do primeiro urbanismo alto-imperial (Figura 4).
5.1. Contornos conceptuais de terra sigillata.
O termo terra sigillata é utilizado na actualidade para designar um conjunto, ceramologicamente variado, de produções oleiras fabricadas numa área alargada do mundo antigo entre o século II a.C. e a época alto-medieval.
Sem qualquer correspondência com designações utilizadas na época romana, foi empregue pela primeira vez em 1779 pelo erudito arretino Francesco Rossi para se referir a vasos ostentando marcas epigráficas (PUCCI 1985: pp. 365 e 371).
A expressão utilizada no século XVIII não teve, porém, sequência, e deve-se a H. Draggendorf a “invenção” moderna do termo, feita no seu trabalho clássico publicado em 1895 (Idem: pág. 365). O investigador alemão empregou a expressão tendo em consideração as decorações aplicadas nas produções que tratou – itálicas e gálicas-, executadas a punção, que em latim se designa sigillum, e a ligação do termo a eventos históricos precisos, como as cerâmicas utilizadas nas festividades sigillaria (Idem).
A classe cerâmica a que se referia continuou ainda a ser identificada pelas expressões anteriormente empregues, na sua maioria “emprestadas” de um célebre trecho de Plínio (Naturalis Hist. 35, 160-161 apud PUCCI 1985: pág. 365), caso de “vasos arretinos”, “vasos saguntinos”, “vasos samianos” e “vasos de Pérgamo”. Rapidamente, porém, o emprego de «terra sigillata» ganhou a preferência dos investigadores e, em simultâneo, ampliou o seu conteúdo, passando a designar quer os vasos lisos quer os decorados (OSWALD e PRICE 1920: pp. 3-4). Apesar da forma, também célere, como alastrou às várias “nacionalidades arqueológicas”, foi-lhe oferecida uma maior resistência pelos investigadores anglicanos e alguns orientalistas, entretanto ultrapassada.
A definição ceramológica actual utiliza fundamentos tecnológicos mas também históricos.
De entre os primeiros destaca-se a utilização de fornos de altas temperaturas, e consequentes processos de cozedura empregues, e a peculiaridade do revestimento no que respeita à constituição: uma solução argilosa não oleosa e ligeiramente distinta daquela da pasta (VIEGAS 2000: pág. 30 apud QUARESMA 2002: pág. 11).
As diversas e estreitas relações de origem das várias produções que se abrigam sob o termo constituem o segundo critério aplicado, histórico.
Para as produções ocidentais a questão é relativamente pacífica dada a anterioridade aretina, que directa ou indirectamente acabaria por influenciar e/ou originar os restantes fabricos, sendo possível explicar a disseminação das olarias num quadro de expansão da romanidade. Para o Oriente, porém, a questão assume outros contornos, pois existe aí uma forte tradição oleira iniciada em época helenística, e as explicações baseadas em fenómenos de imitação, de migração de oleiros e de desenvolvimento das várias produções conhecidas, não são operativas.
Existe um conjunto de distintas produções orientais oriundas de centros localizados na Ásia Menor e Chipre (POBLOME et al. 2001: pág. 144) que emprega um revestimento de tonalidades geralmente avermelhadas e que possui âmbitos de difusão muito diferentes, desde as classes de circulação restrita regional como a “sigillata de Sagalassos” (SLANE 2001; POBLOME et. al. 2001) até outras de longo alcance de distribuição, como a sigillata oriental A, que chegou a atingir o extremo ocidental europeu como se verificou recentemente em Santarém (VIEGAS 2003) e Faro (VIEGAS 2004). Desenvolvidos a partir da época helenística, assumiram características tecnológicas que os permitem definir como terra sigillata a partir dos inícios do século II a.C., para a sigillata oriental A (POBLOME et al. 2000).
A sua difusão, eminentemente centrada no mediterrâneo oriental, e o reduzido número de trabalhos monográficos que lhes foram dedicados até ao momento (segundo K. Slane apenas cinco–SLANE 2001: pág. 365), condicionaram o discurso acerca do aparecimento das primeiras produções ocidentais.
A discussão em torno da origem das mais antigas produções ocidentais, itálicas, foi iniciado há muito, e os diversos autores podem escalonar-se em duas posturas fundamentais: uma de cariz orientalista, que defende a importância dos contributos com essa origem (Oxé- OXÉ 1933 apud OSWALD e PRICE 1920; Oswald e Price- Idem; Pucci- PUCCI 1985; B. Hoffman- HOFMANN 1986); outra que valoriza o carácter determinantemente itálico da origem dessa produção (Goudineau- GOUDINEAU 1968; Peacock- PEACOCK 1982; Ettlinger- ETTLINGER 1990; Hayes- HAYES 1997, G. Fülle- FÜLLE 1997, P. Kenrick- KENRICK 2000).
A problemática em torno da origem da terra sigillata itálica gerou, aliás, outras expressões derivadas, de conteúdo conceptual ambíguo. É o caso da criação do termo “pré-
sigillata”, por Nino Lamboglia, empregue em relação a um conjunto de fabricos na sua
maioria elaborados na área itálica, cuja relação com o surgimento da produção da sigillata itálica propriamente dita é questionável (WELLS 1990: pág. 4). C. Goudineau contestou de
imediato a expressão (apud Idem), e, mais recentemente, Wells rejeitou-a, conjuntamente com outras que aplicam os prefixos “proto” e “pré” em referência a produções que antecedem ou preludiam a sigillata de tipo itálico, sugerindo a adopção de “imitação” (Idem). No contexto itálico, a aplicação dos prefixos “pré” e “proto” pode resultar problemática, ao implicitamente esquecer a existência e importância das produções de
sigillata oriental, anteriores no tempo ao surgimento das produções ocidentais.
Na mesma sequência, e de acordo com estes mesmos princípios conceptuais, torna-se questionável a designação de “pré-sigillata sud-gálica”, aplicada às primeiras produções dos centros oleiros de Bram, Narbonne, Lyon-Loyasse, Montans e La Graufesenque (PASSELAC 1986 mas especialmente PASSELAC 1993c: pág. 532 e POLAK 2000: pp. 33-34). O problema coloca-se pela possível confusão a que se presta a utilização do prefixo para estes fabricos derivados de influências itálicas directas e mais ou menos profundas (PASSELAC 1986: pp. 35-6; PASSELAC 1993c), e a correspondente “pré-sigillata” que antecedeu a produção itálica a que nos referimos atrás. Trata-se de uma questão de enfoque, que perspectiva a génese da produção sud-gálica a partir das produções supra citadas.
Picon criticou recentemente o termo numa óptica tecnológica (PICON 2002). Refere que centros que produziram “pré-sigillata” continuaram o seu fabrico em paralelo com o da sigillata “verdadeira”, justificando assim que não se tratou de uma incapacidade técnica que impediu os oleiros de obter o fabrico “verdadeiro” (Idem). Mais refere que seria incompreensível que oleiros seguramente itálicos, como alguns dos presentes em La Muette-Lyon, não dominassem os processos ou tivessem que percorrer um trajecto de adaptação às condições locais (Idem: pág. 161). Termina o seu raciocínio referindo casos de centros como La Graufesenque, onde o fabrico de “pré-sigillata sud-gálica” se prolongou para além do início da produção da “verdadeira” sigillata, e, de forma categórica, Lezoux, que laborou desde a época de Augusto, fabricando ininterruptamente “pré-sigillata” até ao século II d.C. (Idem). M. Picon chama, nessa sequência, a atenção para a difusão estritamente local/regional deste tipo de cerâmica, e defende que a questão assumiria contornos comerciais e não tecnológicos (Idem).
O investigador francês propõe uma classificação baseada em critérios tecnológicos: “Sigillatas de modo de cocção A e B”, para as denominadas “pré-sigillatas gálicas” e “Sigillatas de modo de cocção C” para as “verdadeiras” (Idem: pág. 162).
Outros termos similares de conotação evolucionista também se revelam de utilização problemática: é o caso de “sigillata hispânica precoce”, adoptado recentemente por Simon
Keay, Fernando Amores (AMORES e KEAY 1999) e Encarnación Serrano Ramos (SERRANO RAMOS 1999), em referência à “Cerâmica de tipo Peñaflor”/ “Sigillatas de imitação tipo Peñaflor”/”Presigillata”/“Cerâmica de Verniz Vermelho Julio-Cláudia” (Idem:pág. 231), que para além de tecnologicamente não se enquadrar na definição de terra
sigillata (são cerâmicas não sinterizadas), presta-se a confusão com expressão empregue
para designar o grupo mais antigo de indivíduos representado nas “marcas de oleiro” do grupo de Trício, os “precoces”(SAÉNZ PRECIADO 2000b: pág. 289).
A discussão em torno deste tipo de questões terá suscitado a intervenção de J. Poblome, R. Brullet e O.Bounegru, investigadores dedicados ao estudo do mundo oriental, que defendem o alargamento do conteúdo do termo sigillata a todas as produções relacionadas historicamente e que procurem tecnologicamente um fabrico com revestimento mais ou menos vitrificado (POBLOME et al. 2000). A proposta dos autores referidos não só alarga os critérios de inclusão, como é fundamentada nas ligações, comprovadamente estabelecidas num determinado período, entre os fabricos dos dois lados do Mediterrâneo, tendo defendido a importância dos padrões de intercâmbio “socio- cultural, económico, religioso, administrativo e militar, envolvendo uma variedade de outros bens, pessoas e ideias” existentes à época, que justificam o fenómeno do “boom de produção dos chamados serviços augústeos” (Idem). Acentuam também que, ao longo da evolução da cerâmica de mesa romana, o impulso emprestado pela sigillata itálica da época de Augusto à disseminação de produções com determinadas características corresponde ao único momento onde se pode verificar um “fenómeno de integração cerâmica à escala do império” (Idem: pág. 282).
Nos estudos sobre a Antiguidade a aplicação do termo terra sigillata é hoje quase consensual, e faz-se em referência a um conjunto de olaria de mesa de época helenística e romana que ostenta um revestimento de coloração avermelhada, obtido por sinterização (POLAK 2000: pág. 15).