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Contra o poder e a riqueza: Cão Celeste, o capitalismo

2. PRIMEIRA PARTE: CINISMO

2.1. Cão Celeste e o cinismo antigo

2.1.2. Contra o poder e a riqueza: Cão Celeste, o capitalismo

A defesa incondicional da liberdade levava os cínicos a adotarem uma postura de irreverência e resistência aos poderes instituídos, considerados a principal ameaça à liberdade dos homens, indispensável para que eles alcancem a felicidade. Com efeito, as desavenças entre os cínicos e os representantes do poder atravessaram os séculos. Afrontosos com os reis e generais macedônios, perseguidos e banidos por sucessivos imperadores romanos — sendo, inclusive, açoitados e decapitados por Vespasiano —, condenados por heresia pela Igreja Católica no século XVII, os cínicos tornaram-se símbolos de oposição ao poder que sobreviveram à passagem do tempo, fornecendo ainda nos dias atuais um modelo tácito bastante utilizado de resistência à autoridade.

O espírito cínico de irreverência a todas as formas de poder, em nome da liberdade, perpassa os textos da Cão Celeste, constituindo um discurso comum de resistência que se faz

19 Os termos “capitalismo” e “sistema capitalista” são com frequência evitados atualmente por serem considerados

desgastados pelo uso, sendo geralmente substituídos pela palavra “mercado”, destituída do caráter de sistema que está imbuído naqueles termos. No entanto, a não atribuição ao capitalismo de seu verdadeiro nome resulta no não questionamento de seus efeitos e características enquanto sistema, fazendo com que as possíveis críticas sejam dirigidas ao mercado, e não ao sistema, o que deixa implícita a ideia de que não seria necessária a alteração do sistema socioeconômico que rege atualmente a sociedade. Essa obliteração do termo, e os efeitos que produz, é um dos aspectos assumidos contemporaneamente pela ideologia que sustenta e justifica o capitalismo, ocultando os seus reais efeitos. Por esse motivo, insistimos na utilização nesta tese dos termos “capitalismo” e “sistema capitalista” quando os julgarmos necessários para a devida nomeação do que estiver sendo discutido.

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presente já no editorial do primeiro número, em que a revolta e o pensamento crítico livre são apresentados como motivadores das escritas dos colaboradores da revista:

[...] o Cão Celeste pretende apenas ganir, ladrar com raiva ou paixão, amar ou odiar sem peias aquilo que o mundo quotidianamente lhe dá a ver. [...] Este é, antes de mais, um espaço de encontro entre pessoas que ainda consideram urgente o livre exercício da crítica, do pensamento ou da revolta. E é justamente em nome dessa precária liberdade que prescindimos de qualquer apoio exterior, passível de condicionar os nossos gestos.20

Esse mesmo tom de revolta, manifesto de forma marcante em todos os números da revista, vai se expressar novamente de modo semelhante no editorial do oitavo número, com referência direta a Diógenes e a toda uma linhagem de autores questionadores das convenções de seu tempo: “O cão é eterno, ladra desde o tempo de Diógenes até à crítica do espectáculo feita por Debord ou ao riso iconoclasta de Alberto Pimenta, passando ainda por Montaigne ou Swift, entre muitos outros. Morrerá, a ladrar, quando este mundo cão morrer”21. A retórica

agressiva dos cínicos é frequentemente reiterada pela revista como seu modo discursivo próprio: “Era uma vez um cão, celeste e com dentes aguçados, obstinado numa crítica inclemente do que se passa à nossa volta”22. De fato, “ladrar com raiva” descreve bem o tom

geral do discurso cínico: “O discurso dos cínicos era cáustico e agressivo; ele encurralava o interlocutor até este ser forçado a questionar a si próprio. É por isso que jogos de palavras, sarcasmo ácido e observações implacáveis são características de seus próprios métodos e do modo como eles foram representados por outros” (GOULET-CAZÉ; BRANHAM, 2007, p. 36). Segundo Navia, “[e]m vez de deixarem as pessoas à vontade para mergulhar mais fundo em sua depravação, os cínicos transformaram em dever o persegui-las, ao modo de cães de caça, e invectivá-las onde quer que estivessem, na suposição e esperança de que seu latido e sua mordida não seriam vãos” (NAVIA, 2009, p. 110), assumindo o compromisso de combatê-

20 FREITAS, Manuel de; DIAS, Inês. Editorial. Cão Celeste, Lisboa, n. 1, abr. 2012, p. 3. 21 ____. Breve nota editorial. Cão Celeste, Lisboa, n. 8, dez. 2015, p. 3.

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las com o intuito de regenerar moralmente uma sociedade grega corrompida. Assim como os cínicos, os colaboradores da Cão Celeste “ladram com raiva”, perseguem e invectivam os poderes instituídos e seus representantes, considerados uma ameaça à liberdade do homem e responsabilizados pela degradação moral e social que estaria levando à destruição do mundo contemporâneo: “O poder é uma fome sem senhor. Duas mandíbulas só dentes, voracidade e estômago. Uma certeza cujo sentido é não parar de mastigar. Não devora apenas os medíocres e os fracos, importa que o entendas. Devora todos por igual.”23. Com a agressividade característica dos cínicos, eles acusam a hipocrisia dos representantes do poder, descrevendo- os com sarcasmo de modo a desqualificá-los moralmente, o que às vezes se associa à depreciação de seu aspecto físico. É o que faz Jorge Roque num poema em prosa intitulado “O poder e os seus servidores”:

Sentado ao centro da mesa (o lugar na mesa importa), corpo recostado na cadeira larga (a postura e o tipo de cadeira importam), as mãos cruzadas sobre a barriga opada ilustravam o discurso suficiente e director (isto, sobretudo, deu-me que pensar). O modo como as mãos sapudas se apoiavam na barriga distendida em perfeita curvatura era a imagem exacta da inteira complementaridade entre o poder e os seus servidores. Que visão funesta e, ao mesmo tempo, que rigor. Enganam tudo e todos, a si mesmos sem excepção. Só não enganam o que são.24

Esse viés satírico era comum ao discurso cínico, manifestando-se na revista na desmoralização dos representantes do poder por meio da ridicularização de sua conduta e o consequente rebaixamento de sua autoridade. Continua Roque: “Chega a ser cómico, chega a ser trágico, a destreza com que alternam entre a postura servil e a de absoluto senhor. Cómico porque tão súbita e conseguida alternância reenvia-nos a artes burlescas e enredos bufos (quero dizer, não se percebe como possa ser verdadeira). Trágico porque para se ser, num homem, numa vida, com tamanha naturalidade um e outro, é preciso ser ninguém”25.

23 ROQUE, Jorge. Uma escada que sobe pelos degraus de ti. Cão Celeste, Lisboa, n. 3, mai. 2013, p. 15. 24 Idem.

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Não se poupa nenhum representante do poder, mesmo o do chamado pequeno poder. Numa crônica de Guilherme Faria, o chefe do canteiro de obras é bestializado pela preocupação excessiva com o dinheiro, numa condenação cínica do valor da riqueza, caracterizando-se também a luta de classes que isso gera, perceptível no ódio implícito entre o chefe e o operário Aníbal, que ressente a opressão sofrida: “Manhã nevoenta e Aníbal encaixa o jugo, enquanto o chifrudo aureolado, o chefe, andarilha por ali em escoicear territorial. Desliga o telefone e as mandíbulas martelam à cata de sangue «estes cabrões, querem-me todos roubar», para logo percorrer a cercania com a mira alçada e sibilar para Aníbal «então e o fim-de-semana?» Um abrolho, rosna Aníbal e, entre esguelhas de sanha, cai o silêncio no curro”26.

A ridicularização, desmoralização e bestialização dos poderosos era um procedimento comum entre os cínicos gregos. Crates, um dos cínicos mais influentes da Antiguidade, “costumava dizer que deveríamos estudar filosofia até vermos nos generais nada mais do que condutores de asnos” (GOULET-CAZÉ; BRANHAM, 2007, p. 21). Diógenes expressava em público frequentemente seu desdém pelos reis e generais de sua época, afirmando que “Alexandre não era digno nem de se olhar”, “Pérdicas era uma tarântula”, “Filipe II da Macedônia e Antípatro, homens miseráveis”, e “Dionisio de Siracusa, um escravo mesquinho” (NAVIA, 2009, p. 58). Essa desmoralização dos poderosos, tanto os do passado como os do presente, é altamente recorrente na revista, descritos como parasitas corruptos, hipócritas e individualistas, cuja cobiça desmedida leva toda a sociedade à derrocada:

Mas isso pouco importa agora. Agora o que importa reter é que o povo estava farto deles.

Estava farto deles da mesma maneira que agora está farto dos grupos, ou dos grupinhos, ou dos partidos, ou da máfia, ou das máfias de agora. Estava farto deles a mais não poder estar.

Porquê? Ora, porquê.

Porque todos eram sanguessugas e corruptos, porque eram prepotentes, mentirosos e falsos a tempo inteiro.

Mais ou menos como os de agora, não? Tal como os de agora, sim.

45 Estava farto deles porque já fediam. Lá isso, não custa a crer, deviam feder, tanto ou quase tanto como os de agora.27

Numa afinidade com a crítica cínica aos valores do poder e da fama cultivados pela aristocracia, a revista censura reiteradamente os hábitos da elite, determinados por sua necessidade de poder e por sua preocupação excessiva e fútil com sua imagem social. É o que Isabel Nogueira ataca nos costumes remanescentes de uma aristocracia decadente, representada em seu conto pela personagem Estefânia da Rocha, descrita pejorativamente como uma “mulher altiva” que “andava tão direita que o queixo ia um pouco para trás, na direcção da nuca, acentuando-lhe a papada”28:

Estefânia tinha decidido fazer uma acção de beneficência na vila da Régua, com o objectivo de ajudar duas ou três famílias francamente necessitadas. Para tal, empenhara-se em juntar alguns jovens da terra e fazer uma peça de teatro. [...] O dinheiro da bilheteria reverteria para as famílias em questão. E isto era um assunto muito sério. Toda a senhora de sociedade tinha os seus pobres, que urgia ajudar. Estes, por seu lado, prestavam-lhe vassalagem, apesar de a Revolução Francesa ter colocado cobro formal a este tipo de práticas, há quase dois séculos.29

O narcisismo de classe da elite no poder, bem como a indiferença e o desprezo que ela sente pelo povo que deveria representar, também são com frequência denunciados. Numa crônica de Abel Neves, o soberano de um território preocupa-se exclusivamente consigo mesmo, numa atenção obsessiva ao próprio corpo — que ele quer expandir no desejo de expandir também seus domínios e ocupá-los com sua presença —, e não é capaz de reparar na realidade que o cerca. Ao mesmo tempo, nutre um profundo desprezo pelo povo, que ele considera, numa hierarquia moral imaginária, acima apenas dos vermes:

Disse vou deixar crescer os cabelos e já agora as unhas. Tinha domínios e por isso foi fácil, não falou logo mal. Sentou-se e esperou para ver crescer as unhas e o cabelo,

e já agora também o coisinho. E foi assim que também se pôs a ver se aquilo crescia.

A verdade é que tudo crescia à sua volta, embora não se desse conta desse tudo. Davam-lhe a comidinha e ele comia, com apetite e na expectativa de topar a sua

27 CAEIRO, Rui. Aquele bonito gesto da rainha (achega para uma introdução à história de Portugal, muito concisa

e delirante). Cão Celeste, Lisboa, n. 5, mai. 2014, p. 5.

28 NOGUEIRA, Isabel. Génova. Cão Celeste, Lisboa, n. 5, mai. 2014, p. 84. 29 Idem.

46 cabeleira a enrodilhar-se nos veios do soalho, as unhas a treparem e a meterem-se nas ranhuras dos estuques mal tratados. O coisinho, esse, tinha dias. E foi por isso que disse para os adeptos [...]: acima dos vermes estão os do povo; acima dos do povo

estão os do governo [...]. Ajeitou-se melhor ao trono onde estava e contemplou as

unhas e os cabelos ensarilhando-se na geografia.30

Ricardo Álvaro leva ao extremo a agressividade cínica contra o poder e radicaliza a ofensa aos seus representantes, cuja baixeza moral e mediocridade intelectual são postas em evidência; como é comum na revista, os poderosos são responsabilizados pela miséria do mundo:

Os «dominadores comuns» são estes pequenos homens que desgovernam o mundo, gentinha reles e vulgar, que não possuem Grandezas Naturais ou Grandezas

Estabelecidas, carregadores da Peste, asquerosos múltiplos, políticos apoucados,

aprendizes de ditadores de repartição, o presidente-rês que junta os bois da freguesia, criadores e exploradores de elefantes brancos, inauguradores de rotundas à escala da sua própria mediocridade, invólucros ocos e bacocos da mesquinha província do espírito, do pensamento e da acção, encarregados da miséria própria e alheia, capatazes da aldeia que não os larga, lâmpadas fundidas sem luz nem génio, varas de porcos sobre as relvas estrumadas, trepadeiras sociais de conversas treta-a-treta, ranço e bolor que corrompe a fruta doce dos nossos sonhos e ideais.31

Num poema de Julián Axat transcrito por Pádua Fernandes, narra-se retroativamente a vida de um menino pobre preso pela polícia, vítima da brutalidade e hipocrisia dos representantes do poder estatal, numa acusação implícita de que eles seriam agentes da violência, da morte, da destruição dos sonhos, da extinção da liberdade:

aos 15 sonhava ser cantor de hip-hop mas era fuzilado em um episódio confuso aos 14 sonhava que o prendiam em uma cela e no outro dia lia o jornal com a manchete «jovem se suicidou em delegacia»

[...]

aos 12 o pesadelo era um juiz com rosto de rato que lhe dava um sermão [...]

aos 9 sonhava que um candidato a político lhe dava um abraço e depois chefiava um esquadrão que o perseguia

[...]

aos 2 caiu da cama e desmaiou por alguns segundos que foram obscuros então viu a chispa de seu destino vestido de tira jurando lealdade a um ministro que logo traiu32

30 NEVES, Abel. Três textos. Cão Celeste, Lisboa, n. 8, dez. 2015, p. 11. Itálicos do autor. 31 ÁLVARO, Ricardo. Omnia obstant: ne imprimatur. Cão Celeste, Lisboa, n. 6, nov. 2014, p. 24.

32 FERNANDES, Pádua. Julián Axat: a poética e o princípio de rebelião. Cão Celeste, Lisboa, n. 7, jul. 2015, p.

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Os ataques da Cão Celeste aos detentores e representantes do poder político-econômico partem do pressuposto implícito de que seus colaboradores seriam portadores de uma ética de que tais poderosos estariam desprovidos, o que lhes confere uma superioridade moral capaz de autorizar e legitimar esses ataques. As anedotas sobre os encontros entre Diógenes e Alexandre, o Grande, revelam a existência também desse pressuposto nas atitudes do filósofo cínico. Numa delas, Alexandre, o Grande, muito admirador de Diógenes, aproximou-se dele e disse: “Peça- me qualquer coisa que deseje”. Ao ver que o rei macedônio se interpunha entre ele e o sol, Diógenes respondeu: “Saia da frente da minha luz” (BRANHAM, 2007, p. 103). Essa anedota ficou famosa por representar a irreverência de Diógenes ao poder, sua não aceitação de favores que pudessem comprometer sua independência, numa rejeição das tentativas do poder de cooptá-lo, o que é reiterado em outras anedotas em que o filósofo recusa presentes oferecidos por Alexandre. Segundo Long, “[m]esmo que os encontros entre Diógenes e Alexandre, o Grande, sejam espúrios, eles se tornaram a ilustração cínica favorita da superioridade do reinado ético sobre o político” (LONG, 2007, p. 47). No caso da Cão Celeste, há o pressuposto de tal superioridade do ético não somente sobre o político, mas também sobre o econômico.

Decerto, constata-se que o poder contra o qual a revista mais acomete é o econômico e financeiro. Ela elege como seu maior inimigo o grande capital, na maioria das vezes sob o nome de mercado, acusado de provocar a degeneração das relações humanas, das condições sociais, dos valores morais e da natureza. A revista combate constantemente a lógica do lucro e do dinheiro que rege as sociedades sob o sistema capitalista, assim como os valores que o sustentam, tais como o individualismo, o sucesso e o progresso. A cobiça é frequentemente condenada como um sentimento na origem da corrupção moral do homem e da consequente degradação social e cultural do mundo atual. Há aqui uma atualização dos ataques dos cínicos ao valor da riqueza, que consideravam prejudicial ao bem-estar do homem e da sociedade. De

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fato, os ataques preferenciais da revista ao poder econômico trazem implícita a indissociabilidade e interdependência entre os valores do poder e da riqueza no mundo contemporâneo.

Desse modo, Manuel de Freitas, em mais de uma ocasião, denuncia a destruição dos lugares de afeto pelo capital, juntamente com as relações humanas que neles se constituíam. No texto de abertura do segundo número, ele lamenta o fechamento da Livraria Portugal, incapaz de competir com as grandes cadeias de livrarias, relatando relações de afeto que nela se estabeleceram, inclusive seu próprio vínculo afetivo com ela:

[...] habituei-me a olhar com ternura as montras de livros de arte ou edições francesas com que a Portugal saudava o vizinho Elevador de Santa Justa. Foi esta, aliás, a única livraria histórica do centro de Lisboa que contactou directamente a Averno (editora de que faço parte) com o propósito de ter à venda os nossos livros. Impecável no trato, bem como nos pagamentos, a Livraria Portugal vai agora fechar. Digo-o sem lágrimas, mas com uma profunda tristeza. Foram muitos, em tempos recentes, os livros que ali encontrei antes de chegarem às ditas grandes cadeias (termo, aliás, sordidamente adequado). E fiquei, claro, a gostar do senhor Joaquim, livreiro como não se fazem já. [...]

Fui hoje, talvez pela penúltima vez, à Livraria Portugal. Para entregar uma última factura e receber a devolução final. De permeio, um velho cliente quis ser fotografado entre os dois proprietários do estabelecimento. Ia até de gravata, contrariamente aos seus hábitos. Ao balcão, de factura em riste, senti-me bastante deslocado. Pois trata- se, afinal, da morte de um tempo que apenas em parte acompanhei.33

Os lugares de socialização e troca de afetos estariam sendo dizimados em prol de interesses econômicos. Freitas amplia o alcance de sua denúncia, acusando o capital de privatizar os lugares de uso coletivo e diminuir os espaços de encontro em Lisboa. A capilaridade e o domínio do capital estendem-se das livrarias para a cidade, e desta para todo o País:

Lisboa está a morrer. Disso não tenho dúvidas. As mãos criminosas que agora vedaram uma rua, para que o Condomínio Ramiro Leão possa oferecer segurança à «raça ruiva do porvir», são as mesmas que violentamente exterminaram, em 2008, o Grémio Lisbonense, uma das referências históricas da cidade. Tudo isto se faz, naturalmente, com o apoio tácito dos políticos, que nem sequer se esforçam por esconder a sua dependência de empresários, empreiteiros e especuladores imobiliários. Votar, mais do que nunca, é uma estupidez. Fecha uma taberna, acaba

49 uma livraria, encerra-se uma rua, privatiza-se um jardim. Não tardará que seja o país a fechar, irremediavelmente.34

Ao anunciar o fechamento de sua própria livraria, a Paralelo W, no número 13 da revista (2019), ele retorna a essa questão, deplorando a extinção de lugares que representavam a tradição de Lisboa, e com os quais ele tinha uma relação de afeto, para serem substituídos por estabelecimentos comerciais americanizados que, junto com o turismo, estariam descaracterizando a cidade:

Em rigor, o Paralelo W nasceu em Lisboa e veio a morrer, pelo menos física e simbolicamente, numa cidade sem nome nem gente, destinada à ruminação turística e a «cenas tipo» Sushi Lounge, Hamburger Gourmet, Gin Barber Shop. Longe vão os tempos em que apetecia jantar n’O Tripeiro, beber um café quase pessoano na esplanada da Pomona, apanhar eléctricos não perdidos. A Adega dos Lombinhos fechou, a Cervejaria Palmeira fechou, o Bar Pirata fechou, a Antiga Casa Faz Frio deixou de ser antiga, o Estádio tornou-se uma aldrabice iluminada, até a insigne

Pastelaria Suíça fechou. Lisboa, em certo sentido, fechou uns anos antes do Paralelo

W. E nem sequer estou a ser nostálgico; limito-me a reivindicar esse árduo direito de cidadania a que chamamos tristeza, por me lembrar demasiado bem da alegria irrecuperável que chegou a haver nessa tristeza.35

Em seguida, Freitas relembra com saudosismo as relações de afeto que se constituíram na Paralelo W e que agora estariam se perdendo com o seu fechamento. Ao mesmo tempo, frisa duas vezes que a livraria não almejava o lucro e não se importava com as vendas, sendo antes um espaço de encontro; estabelece-se implicitamente uma oposição entre os lugares de afeto e a lógica do lucro:

De início, éramos doze, talvez mais, numa associação informal que não pretendia nem a glória nem o lucro. Hoje, fazendo as contas por alto, seremos quatro. Estou, claro, a ser injusto para com os amigos, que eram muitos. Não havia semana em que não fôssemos incentivados pelo sorriso místico do António, pelas exclamações comovidas do Gil, pelos irreprimíveis desaforismos do Ricardo, entre várias outras grandes razões. [...] Devo à Rosa a primeira frase deste texto e inúmeras tardes memoráveis. E, de outro modo, não teríamos convivido tão de perto com a Carmo, a Débora, o Fábio, a Isabel, a Madalena...

Muitas coisas aconteceram no Paralelo W: exposições, festas, as leituras em scat do Nuno Moura, em allegro assai do Diogo Dória ou con tenerezza do João Paulo