2 I POLÍTICA DE SAÚDE NO BRASIL: história,
2.6 CONTRADIÇÕES, INFLUXOS E CONQUISTAS NA POLÍTICA DE
A eleição de Lula em 2002 representou um marco para os movimentos sociais contemporâneos. A chegada de um operário – que expressava conexão entre as demandas populares e o exercício governamental – ao maior cargo representativo nacional, simbolizou, para parte significativa da esquerda, um impulso importante para a continuidade na luta por plenos direitos. Lula é eleito em um momento de significativo influxo nas políticas sociais, especialmente na Política de Saúde, deixando esperançosos aqueles corações que bravamente resistiam ao projeto privatista, que cada vez mais ganhava fôlego na disputa direcional da Política de Saúde. A maior parte do movimento sanitário acreditava que:
Apesar das dificuldades do cenário internacional, coma pressão dos mercados e do capitalismo financeiro, muitos acreditavam que, no Brasil, estaria se inaugurando um novo momento histórico em que uma política de reformas sociais seria privilegiada em detrimento das políticas de ajuste (MENEZES, 2014, p. 10).
Para essa eleição o Partido dos Trabalhadores – PT, que tanto contribuiu para a consolidação do Projeto de Reforma Sanitária, já se encontrava completamente heterogêneo em termos de projeto societário, contendo em suas fileiras tanto membros que insistiam no socialismo – que via de regra esse formato nunca ficou bem definido pelo partido - quanto aqueles que apostavam que seria por meio de um melhoramento da democracia que se alcançaria uma vida plena para os trabalhadores - os chamados reformistas. Ainda existiam no partido, embora com menos força, aqueles que defendiam um afastamento do PT da esquerda, sob a justificativa de que seria sua aproximação a maior causa de outras perdas eleitorais no passado – a exemplo da eleição em que disputaram Lula e FHC.
Com essa base bastante diversa – e um tanto controversa, já nos primeiros meses do Governo Lula, foram eliminadas gradativamente as esperanças alimentadas durante os anos de existência do partido. Isso porque:
Fatos e acontecimentos do governo apontam para um “transformismo promovido por Lula e pelo PT, isto é, processo de adesão (individual ou coletivo) ao bloco histórico dominante, por parte de lideranças e/ou organizações políticas dos setores subalternos da sociedade, com o abandono de suas antigas concepções e posições políticas (MENEZES, 2014, p. 10).
Com o passar dos meses esse cenário foi ficando cada vez mais nítido para os movimentos populares, inclusive aqueles ligados ao PT, resultando em um processo de desfiliação – voluntárias e/ou impostas pelo partido, de importantes figuras com teor mais revolucionário que compunham a organização. Entretanto, é preciso deixar explícito que as crises internas dentro do partido não se iniciaram com a eleição de Lula; Menezes (2014) sintetiza bem esses processos ao elucidar que:
A primeira grande crise veio com o governo Erundina à frente da Prefeitura de São Paulo. A questão central colocada era a relação com o regime democrático: aceitar ou não os limites legais da constitucionalidade. (...) Não houve rupturas no partido, mas as placas tectônicas do PT se moveram. O PT pagou a dívida externa do município, escrupulosamente, e não hesitou em convocar a PM (Polícia Militar) contra a luta operária e popular. No início dos anos 1990, quando a situação política evoluía à direita, e as pressões burguesas pela estabilidade do regime democrático eram mais intensas, a direção do PT convocou o 1º Congresso e decidiu expulsar a Convergência Socialista, uma corrente trotskista que constituiu, após uma unificação com outras organizações marxistas, o PSTU. Foi a segunda grande crise. Dali
para frente, as tendências de esquerda que ainda resistiam no PT ficaram sabendo qual seria seu destino se desafiassem a direção. (...) Finalmente, em 2003, depois da eleição de Lula, a direção do PT não hesitou em expulsar Heloísa Helena e os deputados que vieram a formar o PSOL, com a acusação, novamente, de indisciplina, por terem se recusado a votar no congresso a Reforma da Previdência. Foi a terceira grande crise. Ficou comprovado que a mão da direção do PT não iria tremer no seu giro à direita. Foi, porém, em 2005, que o PT atravessou a mais séria crise de sua história. Uma parcela do núcleo duro de sua direção foi decapitada, politicamente, pela crise aberta pelas denúncias do mensalão (MENEZES, 2014, p. 9).
Essas crises foram se acirrando diante das implicações do partido nos cargos representativos do Estado, denotando um descompasso absurdo entre aquilo que o fundou enquanto organização e as alianças e escolhas políticas realizadas para a manutenção do poder. Analisando o projeto econômico que estruturou o governo é possível afirmar que todos os parâmetros macroeconômicos da era FHC permaneceram intocáveis: o superávit primário; a Desvinculação de Receitas da União (DRU); taxas de juros paramentadas pela Selic; apostas na política de exportação, com base no agronegócio; o inesgotável pagamento dos juros, encargos e amortizações da dívida pública; e o aumento da arrecadação da União (MENEZES, 2014).
Essas orientações econômicas trouxeram impactos importantes para as políticas sociais, fazendo prevalecer a defesa de que ao invés de aumentar os recursos voltados ao atendimento das políticas sociais devia-se racionalizá-los, garantindo somente o acesso aos mais pobres, reverberando a famigerada focalização e seletividade, tão presente nas políticas públicas ao longo da nossa história. De acordo com Figueiras e Goncalves (2007):
A política focalizada é de natureza mercantil. Concebe a redução da pobreza como um „bom negócio‟ e transforma o cidadão portador de direitos e deveres sociais em um consumidor tutelado, por meio da transferência direta de renda. A escolha dos participantes desses programas subordina-se a critérios „técnicos‟ definidos ad hoc, a depender do governo de plantão e do tamanho do ajuste fiscal, numa operação ideológica de despolitização do conflito distributivo. Formula-se uma política social que, por sua origem e natureza, nega os direitos e as políticas sociais universais (FIGUEIRAS; GONÇALVES, 2007, p. 156).
O governo Lula (assim como, posteriormente, o governo Dilma) continuou, embora de forma ampliada, com a estratégia do governo de Fernando Henrique Cardoso de implementar políticas sociais compensatórias, de caráter focalizado, em detrimento de outras pautadas na lógica do direito e da Seguridade Social universalizada (MENEZES, 2014 p. 10).
Um aspecto importante que precisa ser destacado para entendermos a maneira como as políticas de austeridade foram executadas, em um governo que se reivindicava de esquerda, foi o desenho das políticas nessa época. As políticas focais, de dimensão compensatória, se tornaram um instrumento importante para a adesão ao plano de governo por uma parte significativa dos movimentos sociais. Sendo o pressuposto desses programas sociais “a tentativa de compensar o que estava sendo agravado pela política econômica e pela ausência efetiva de reformas” (IAMAMOTO, 2009, p. 36).
Portanto, foi com base nessas políticas que “os governos petistas teriam obtido uma base de sustentação eleitoral entre os segmentos mais pobres da população e o governo” (MENEZES, 2014). Assim:
A hipótese aqui desenvolvida de que começa a se desenhar uma nova base de apoio do governo Lula – baseando-se no desenvolvimento de programas de transferência de renda, com características bastante diferentes da que deu origem à formação do PT – é completada, no âmbito maior da proteção social, com a destruição do que havíamos avançado na Constituição de 1988, como fruto do processo de redemocratização do país. Em nome da estabilidade, do crescimento e do cumprimento dos „contratos‟ com os credores internacionais e nacionais, abandona-se a ideia de universalização das políticas sociais, adotando as antigas formas assistencialistas para os pobres e deixando para os demais (embora não ricos), como única alternativa o mercado (MENEZES, 2014, p. 11).
Desse modo, em contraposição ao modelo de seguridade social explicitado na CF/88, estabelece-se uma modalidade de gestão em que a focalização tem além de uma finalidade econômica, uma funcionalidade política, tendo em vista uma massa social mobilizada em torno dessa proposta de política. Foi essa contradição – aliada às fortes pressões de movimentos organizados específicos, que possibilitou que o aparecimento de políticas de equidade em um contexto de severos cortes nas políticas universais torna-se a marca maior desse governo. Outrossim, acentua-se nessa época a tendência da transferência de
responsabilidade pelo planejamento, execução, monitoramento e avalição das políticas sociais para o “terceiro setor”.
Essa prática, além de eximir o Estado de custos consideráveis, tendo em vista que, via de regra, os valores passados para o terceiro setor são alçados num valor infinitamente menor do que seria necessário para o Estado executar, também construiu uma relação de parceria importante entre governo e sociedade civil, garantindo a docilidade de uma parte importante dos movimentos sociais. Além de, e com muita recorrência, incorporar no governo ativistas históricos em diversos campos sociais – a exemplo do movimento negro e movimento LGBT.
Portanto, podemos resumidamente descrever, e por isso não contemplar as diversas outras contradições presentes nesse processo, os governos petistas com relação à política social a partir de algumas dimensões: ausência de uma estratégia política sofisticada, em relação a todos os outros presidentes do período democrático, ao inserir fortemente atores importantes dos movimentos sociais; investimento estratégico em políticas compensatórias e; relação com o receituário neoliberal.
No campo da Política de Saúde não foi diferente, sendo replicada a lógica da otimização de gastos pela via da focalização dos recursos, dando, eventualmente, respostas às demandas sociais que não foram possíveis de serem negociadas via Ministério da Saúde e Movimentos Sociais. Nesse sentido, a aposta do governo para a Política de Saúde foi deixar vivo e fortalecido os dois projetos (privatista – reforma sanitária) em disputa. Respondendo estrategicamente a um ou outro projeto, deixando notar que esteve presente nesse governo tanto ações que dialogam com o projeto da Reforma Sanitária quanto aquele que flerta com o da saúde empresarial.
Sem deixar de considerar a importância dos movimentos sociais – e de profissionais que defendiam internamente o projeto de Reforma Sanitária dentro do governo, para os avanços da Política de Saúde; nesse período torna-se importante destacar os elementos de avanços. Bravo (2007) ainda expõe os aspectos de inovação nesse governo ao defender que, diferente do que vinha ocorrendo desde a década de 1990, é possível perceber: o retorno – ao menos discursivo da concepção de Reforma Sanitária; a contratação de profissionais qualificados e comprometidos com o Projeto de Reforma Sanitária para ocuparem o segundo escalão do Ministério da Saúde; a participação do Ministro da Saúde nas reuniões do Conselho Nacional de Saúde e; a convocação extraordinária da XII Conferência Nacional de
Saúde em 2003, em que foi debatido e deliberado acerca da necessidade de aprofundar as propostas defendidas pelo Movimento de Reforma Sanitária.
Também foi nessa época que a taxa de cobertura do Programa Saúde da Família, com relação ao total da população brasileira, aumentou significativamente: 35,7% (2003); 39% (2004) e 43,4% (2005). E embora tenha sido no governo de FHC que esse programa tenha sido criado, não restam dúvidas que ele foi significativamente fortalecido nessa época. Isso mostra que é inegável as importantes diferenças nesse período em comparação com as anteriores, embora não estruturais.
Também não podemos desconsiderar que foi durante o período do governo petista que houve a criação de políticas importantes e tão reivindicadas e negligenciadas dentro da saúde, a exemplo da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (2009), da Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (2011) e da Política Nacional de Atenção Integral à saúde do Homem (2011).
Entretanto, também é imprescindível demarcar os elementos de continuidade do projeto neoliberal presentes nesse período. Sobre eles, Soares (2010) considera que, embora a Política de Saúde nesse governo tenha sido completamente marcada por uma intensa disputa de projetos, prevaleceu a racionalidade privatista, terceirizada, precarizada, focalizada, desfinanciada e estratégica para o mercado (BRAVO, 2007). Deixando evidente que os elementos revolucionários tão presentes na criação do Partido dos Trabalhadores, foi hegemonicamente substituído em prol dos acordos políticos e econômicos.
Sem desconsiderar o papel fundamental exercido pelos movimentos sociais para a criação dessas normativas (a exemplo das políticas de saúde LGBT, do Homem e da população negra, referenciadas acima), Iamamoto (2009) deixa mais nítido esse processo – de ataques aos elementos universais da política em paralelo à valorização do equitativo, ao trazer o Relatório sobre Desenvolvimento Mundial, produzido pelo Banco Mundial em 2006. Nele fica explícito que a meta para a década é o desenvolvimento de políticas de equidades, entendida “enquanto igualdade de oportunidades de forma que respeite as liberdades individuais, bem como o papel do mercado na alocação dos recursos” (IAMAMOTO, 2009 p. 39). A proposição supracitada aposta que é a partir do desenvolvimento estratégico de algumas políticas que a sociedade avançara completamente enquanto nação, desconsiderando que as vidas desses sujeitos são inevitavelmente atravessadas por diversas condições.
Esse direcionamento do Banco Mundial, atrelado à ebulição de alguns movimentos sociais – a exemplo do LGBT, que nos anos 2000 ganha corpo inspirado nas movimentações internacionais que reivindicam o direito à diversidade em organismos da Organizações da Nações Unidas – ONU,25 foram os responsáveis pelo desenvolvimento da Política de Saúde em um contexto um tanto adverso para o fortalecimento do SUS. Entretanto, nascidas em meio às contradições, a execução dessas políticas se daria em um contexto de cortes importantes na Política de Saúde pública. Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, chamada “Radiografia dos gastos Tributários em Saúde 2003 - 2013, concluiu que embora não tenha havido reduções expressivas em termos de recursos para a saúde, estes foram destinados prioritariamente ao setor filantrópico, ou seja, a organizações não estatais de saúde.
Esse direcionamento de recurso para o autodenominado setor filantrópico e não estatal revela mais uma contradição presente nos governos petistas no trato da Política de Saúde. Afinal de contas, como garantir a implementação de políticas recém-criadas no âmbito do SUS, privilegiando, em termos de recurso, um setor que historicamente tem dado as costas para as demandas de equidades? E mais, como garantir a plena execução de políticas que são bastante complexas de serem implementadas – levando em consideração as amplas desigualdades inscritas na nossa sociedade, é preciso que contestemos de onde viriam os recursos para essas políticas?
Sem a intenção de esgotar essa discussão, tendo em vista que há intenção de recuperá- la mais à frente nessa dissertação, podemos, de maneira geral, admitir que embora o PT tenha por muitos anos contribuído para o avanço do Movimento de Reforma Sanitária, tendo sua criação, inclusive, entrelaçada com as pautas mais gerais do movimento, essa intenção não se materializou de fato ao chegar ao poder, reverberando na formatação da política de saúde durante essa época. Portanto, ao passo que há processos importantes de avanços, a exemplo dos citados, há também, e de uma maneira bastante forte, a continuidade do projeto privatista na saúde.
3 “NÃO RECOMENDADAS PARA A SOCIEDADE”: (in)definições, lutas e o lugar de Travestis e Transexuais nas políticas sociais
De maneira não incomum, e cada vez mais assídua, surgem posições que, na intenção de desqualificar e nivelar por baixo as discussões, tem colocado as transexualidades como sendo experiências categoricamente novas no cenário mundial. Esses argumentos têm aparecido com bastante ferocidade, e não ingenuamente, em um momento histórico para o movimento de Travestis e Transexuais no Brasil: a ampliação de um entendimento social sobre essas experiências trans e a conquista, sob duras penas e com muitas limitações, de equipamentos públicos de acolhimento e cuidado para esse segmento. Nesse sentido, com intenção de produzir contrapontos a essas percepções e evidenciar as lutas empreendidas por esses sujeitos para a construção de outro imaginário social acerca das transexualidades, e assim engajar outros atores para a garantia de direitos, esse capítulo tem o objetivo de historicizar, introdutoriamente: i) as artimanhas coloniais do gênero e a pertinência da colonialidade como elemento condicionante para a criação das experiências trans; ii) a construção e importância do movimento LGBT (delineando o protagonismo dos sujeitos T) para a conquista de direitos; iii) a criação de equipamentos de acolhimento e cuidado voltados a essas pessoas e; iv) a dimensão, os limites e as fragilidades desses equipamentos e das políticas.