O COMPOSITOR E A OBRA
9. Contraponto Rítmico
Tabela 2 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão - Fantasia para Clarineta em
O primeiro episódio apresentado na Orquestra é formado por dois materiais: um cromático e outro diatônico, que segundo o compositor, “sujam” a nota lá,39 a qual é
sustentada pelos Violoncelos, enquanto Violinos I e II e Violas alternam-se nestas duas coleções diferentes. Almeida Prado chama de diatonismo e não tonalismo, pois pode utilizar as notas diatônicas sobrepostas, formando Clusters. conforme mostra o exemplo 4.
6
3
Exemplo 4 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão-Fantasia para Clarineta em
sib e Orquestra de Cordas, c. 3 e 6, ocorrência dos episódios cromático e diatônico.
39
Entre os compassos 19 a 32 ocorre um ostinato de ritmos e alturas diferentes em cada naipe, conforme mostra o exemplo 5.
24
Exemplo 5 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em
sib e orquestra de cordas, c. 24, ocorrência de ostinato.
A coleção diatônica de Dó Maior ocorre nos compassos 33-36, em um contraponto de dez ritmos diferentes, denominado pelo compositor “Total Diatônico de Dó
Maior”. Nesses quatro compassos o compositor utiliza a escala de Dó Maior em um
contraponto complexo de dez ritmos diferentes. “Não existe uma só nota que não pertença
a Dó Maior. É o Diatonismo total, que eu chamo de Pandiatonismo (...) você não ouve todos esses ritmos, ouve um cintilamento de Dó Maior. É o caos organizado, um
caleidoscópio de Dó Maior, restrito a esses quatro compassos.40 Conforme mostra o
exemplo 6.
40
Exemplo 6 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em
Nota-se que, no compasso 37, há um intervalo de terça menor nas Violas, formado pelas alturas mi e sol. Segundo o compositor, neste compasso há uma sugestão ambígua: essas alturas podem corresponder à terça e à quinta da tríade de Dó Maior ou à fundamental e à terça de mi menor. O material que e segue, em torno de Ré Maior, dá suporteà essa afirmação, uma vez que tanto Dó Maior como mi menor apresentam uma relação intervalar de segunda maior com a altura ré, conforme mostra a figura 10.
Fig. 13 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em sib e
O quarto material utilizado na Orquestração é a tríade de Ré Maior, que aparece em seis ritmos sobrepostos, e ocorre nos compassos 44 a 47, conforme mostra o exemplo 7.
Exemplo 7 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em
Nos compassos 56 a 70, aparece o que o compositor denomina de Episódio
Cromático Atonal Contrapontístico. Neste trecho o compositor utiliza-se de um
contraponto contínuo, rítmico e acusticamente complexo, onde não há nenhuma nitidez das funções. Livremente composto para não soar Tonal. Conforme mostra o exemplo 8.
5
Exemplo 8 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em
sib e orquestra de cordas, c. 58-60, Episódio Cromático Atonal Contrapontístico.
O que o compositor chama Episódio de Arpejos Harmônicos percorre toda a orquestra do compasso 79 ao 98, como se fosse um piano. Neste trecho há uma desintensificação gradual da textura. A primeira vez em que ele ocorre, os instrumentos vão se agregando, com ritmo em semicolcheias, formando uma textura mais densa e, na última vez, há apenas um instrumento tocando de cada vez, com ritmo em colcheias, conforme mostra o exemplo 9.
79 80 81
97 98 99
Exemplo 9 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em
O sétimo material utilizado na Orquestração ocorre entre os compassos 99 e 116.É denominado pelo compositor de Escuta Harmônica. É formado por arpejos fixos: os instrumentos executam os arpejos em ostinato, com ritmos diferentes em cada naipe, produzindo uma sensação estática, conforme mostra o exemplo 10.
100
Exemplo 10 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em
O oitavo material utilizado na Orquestração é o que o compositor denomina de
Acorde Transtonal de Fá Maior, ou seja, há o acorde de Fá Maior, mas há também
ressonâncias que não fazem parte da tríade. Este material ocorre nos compassos 117 a 127, conforme mostra o exemplo:
Exemplo 11 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em
2m 2m
Fig. 14 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em sib e
orquestra de cordas, c. 127, alturas que estruturam o Acorde Transtonal de Fá Maior: Fá M, Fá # M e Mi M.
A Cadência:
Embora Almeida Prado não denomine Cadência, no compasso 128 ele escreve um breve monólogo com a indicação: Súbito, Tempo Livre
Como num Concerto tradicional este é o momento em que o instrumento solista mostra toda sua virtuosidade e lirismo.
É tradição a cadência fazer referência temática ao movimento ao qual ela esta ligada, entretanto neste momento o compositor cria uma inovação: além de fazer referências ao Motivo presente no primeiro movimento, antecipa o tema do Scherzo – Solar. Ao mesmo tempo profética e memorial.
Motivo Cadência 4A 4J 2M 4A 4J 2M
O nono material utilizado na Orquestração é o Contraponto Rítmico, que ocorre a partir do compasso 129, onde as cordas unem-se ao ostinato que a Clarineta faz ao final da cadência, iniciando o diálogo rítmico que estará presente em todo o Segundo Movimento. Este trecho faz a transição entre os movimentos. Esse contraponto utiliza apenas duas alturas, dó e si, conforme mostra o exemplo 12.
Exemplo 12 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em
3.2 - Segundo Movimento: Solar (Scherzo)
Optou-se por apresentar a divisão deste movimento em seções, uma vez este procedimento contribuirá para uma melhor compreensão do discurso musical.
O segundo movimento, Solar, apresenta quatro seções, as quais são determinadas através da utilização de dois gestos41 diferentes, conforme mostra a figura 12.
Primeiro Gesto predominância de saltos
Segundo Gesto graus conjuntos
Fig. 16 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em sib e
orquestra de cordas, II Movimento, Solar, materiais utilizados.
O Primeiro Gesto apresentado, aqui denominado a, caracteriza-se pela predominância de saltos. Gesto Melódico.
Segundo Gesto apresentado, aqui denominado b, caracteriza-se pela utilização de graus conjuntos. Gesto Escalar.
Esses Gestos determinam as quatro seções deste movimento, conforme mostra a tabela 3.
Seção A Seção B Seção A’ Transição c. 135-153 c. 154-163 c. 164-189 c. 190-194
Tabela 3 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em sib
e orquestra de cordas, II Movimento, Solar, seções.
41
Este Movimento tem início com uma múltipla atividade rítmica e constantes mudanças na fórmula de compasso, ao contrário do Primeiro Movimento onde não existem diálogos: a Clarineta tem a melodia principal e a parte da Orquestra representa paisagens -
árvores, fontes, campinas verdes.
No Scherzo há um diálogo permanente entre o solista e a Orquestra.
Por se tratar de um Scherzo há predominância da pulsação ternária, entretanto, para quebrar a monotonia o compositor introduz as fórmulas 8/16; 11/16 e 13/16.
È um Movimento que exige vigor do solista e do maestro.
A tabela seguinte mostra a ocorrência do gesto melódico e do gesto escalar na Clarineta e na Orquestra de Cordas. Além destes dois gestos a Orquestra faz a marcação do pulso.
3.3 - Terceiro Movimento: Crespuscular
O terceiro movimento, Crepuscular, apresenta dois materiais:
O primeiro na Clarineta, uma variação do gesto melódico apresentado no II Movimento, em ritmo acéfalo, onde as primeiras notas de cada compasso estruturam uma movimentação cromática descendente, conforme mostra a figura 13.
Fig. 17 – Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em Sib
O Segundo na orquestra de cordas, uma sobreposição de tríades. Os instrumentos graves fazem uma movimentação cromática ascendente enquanto os instrumentos agudos fazem uma movimentação cromática descendente, acompanhando o mesmo desenho da Clarineta. Nota-se que os acordes apresentam-se sobrepostos formando uma dissonância triádica não tonal, conforme mostra a figura 14.
Fig. 18 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão,Fantasia para Clarineta em Sib e
O cromatismo ocorrente entre a Clarineta e a orquestra de cordas resultará numa movimentação convergente que conclui na altura si, conforme mostra a figura 19.
195 . . . 206 207 208
Fig. 19 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão,Fantasia para Clarineta em Sib e
orquestra de cordas, III Movimento, Crepuscular, cromatismo convergente, c. 195-208.
Nos compassos 209-211 todos os instrumentos, inclusive a clarineta, fazem movimentação cromática descendente, concluindo na estrutura vertical formada pelas alturas mi, fá, fá#, sol e láb, onde se inicia o IV Movimento, Noturnal, conforme mostra a figura 20.
Fig. 20 – Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão,Fantasia para Clarineta em Sib e orquestra de
3.4 - Quarto Movimento: Noturnal
O Quarto Movimento inicia-se com o prolongamento do cluster formado pelas alturas que concluem o cromatismo convergente apresentado no III Movimento - mi, fá,
fá#, sol e láb. Sobre esta estrutura a Clarineta faz um recitativo que remete ao Motivo
apresentado no Primeiro Movimento.
A partir do compasso 216 a orquestra de cordas inicia um ostinato, que percorre todo o movimento, formado por dois elementos diferentes.
O primeiro, uma passacaglia,42 ou seja, uma forma de variações contínuas
embasada em uma melodia repetida, a qual ocorre primeiramente no baixo mas não é restrita a esta voz, também ocorre nos violoncelos.É constituída pelas alturas si, ré e fá,em saltos de terças e quartas. Apresenta-se em oitava, com movimentação ascendente e descendente e utiliza, como figura rítmica, a unidade de compasso, conforme mostra a
figura 16.
216 222
Fig. 21 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em Sib
e orquestra de cordas, IV Movimento, Noturnal, ostinato apresentado nos violoncelos e
contrabaixos, c. 216-222.
42
TUREK, Ralph. Op. Cit. p. 482. “A continuous variation form based on a repeated melody, whitch usually
O segundo, uma chacona,43 ou seja, uma série de variações contínuas na qual o tema é a repetição de um modelo harmônico, ocorre nos violinos e violas. Formado por sobreposições de terças e quartas em movimentação ascendente e descendente, utiliza,
como figura rítmica, a unidade de tempo (mínima), conforme mostra a figura 17.
Fig. 22 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em Sib
e orquestra de cordas, IV Movimento, Noturnal, ostinato apresentado nos violinos e
violas, c. 215-217.
O Motivo retorna, neste movimento, inicialmente no Violino I e posteriormente na Clarineta e utiliza processos de variação abordados por Schoenberg.44
43
TUREK, Ralph. Op. Cit. p. 478. “Chaconne: A series of continuous variations in witch the theme is a
repeated harmonic pattern, usually four to eight measures in length.” 44
Nos compassos 217-222, o Violino I apresenta o Motivo com permutação e aumentação rítmica, conforme mostra a figura 23.
217 222
Fig. 23 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em sib e
orquestra de cordas, IV Movimento, Noturnal, Violino I, c. 217-222.
A segunda ocorrência do Motivo dá-se nos compassos 223-228, na Clarineta, apresentando permutação, aumentação rítmica, omissão da altura fá#, inserção de alturas e deslocamento rítmico, conforme mostra a figura 24.
Altura Omitida Inserção de
Alturas
Fig. 24 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em sib e
Nos compassos 229-234, a Clarineta apresenta o Motivo com permutação de intervalos, aumentação rítmica, variação de alturas e deslocamento rítmico, conforme mostra a figura 25.
Fig. 25 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em sib e
orquestra de cordas, IV Movimento, Noturnal, Clarineta, c. 229-234.
O Motivo aparece fragmentado nos compassos 235-236, apresentando transposição, permutação, diminuição e variação rítmica, conforme mostra a figura 26.
Fig. 26 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em sib e
Os compassos 237-238 apresentam o Motivo fragmentado, com mudança de direção e variação nos intervalos, conforme mostra a figura 27.
Fig. 27 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em sib e
orquestra de cordas, IV Movimento, Noturnal, Clarineta, c. 237-238.
A figura 28 mostra os compassos 238-239, onde o Motivo apresenta-se fragmentado, com permutação, variação de intervalos e mudança de direção.
Fig. 28 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em sib e
Nos compassos 239-240, o Motivo apresenta-se novamente fragmentado, com permutação, variação de intervalos e mudança de direção, conforme mostra a figura 29.
Fig. 29 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em sib e
orquestra de cordas, IV Movimento, Noturnal, Clarineta, c. 239-240.
A figura 30 mostra os compassos 241-244, onde o Motivo apresenta-se fragmentado, com deslocamento rítmico, aumentação e inserção da altura sol.
Fig. 30 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em sib e
orquestra de cordas, IV Movimento, Noturnal, Clarineta, c. 241-244.
Nos compassos 244-246, o Motivo ocorre com uma altura omitida, apresentado inserção de alturas, diminuição e deslocamento rítmico, como se observa na figura 31.
Fig. 31 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em sib e
orquestra de cordas, IV Movimento, Noturnal, Clarineta, c. 244-246.
A última ocorrência do Motivo aparece a partir do compasso 247 e extende-se até o final da peça. Ele apresenta-se fragmentado, com aumentação rítmica e mudança de direção. Observe a figura 32.
Fig. 32 - Almeida Prado, Crônica de Um Dia de Verão, Fantasia para Clarineta em sib e
A tabela 4 mostra a ocorrência do Motivo no violino I e na Clarineta, com os processos de variação utilizados.
CONCLUSÃO
O aparecimento das Bandas de Música no início do séc. XIX marca uma tradição que se mantém até os dias de hoje: é através dessas instituições que se dá o ingresso do músico de sopro no mercado de trabalho, em especial os clarinetistas.
Constatamos uma crescente evolução na qualidade de ensino de clarineta no país, desde que o prof. Jayoleno dos Santos assumiu a cadeira da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sucedendo a Antão Soares. Seus alunos difundiram o ensino de clarineta espalhando se pelos mais importantes centros musicais do país, assim não seria pretensioso dizer que se há uma “Escola” de Clarineta no Brasil, ele é o lançador da pedra fundamental para que ela acontecesse.
Muitos compositores brasileiros têm escrito para Clarineta, mas na forma Solo/Orquestra de Cordas (a escolhida por Almeida Prado para Crônica de Um Dia de Verão) não encontramos número significativo de títulos catalogados.
O primeiro movimento é monotemático e os contrastes são estabelecidos na Orquestra. Há um jogo contínuo de tecidos sonoros obtidos através dos diferentes “Episódios” ocorrentes nas Cordas e a unidade é estabelecida pela Clarineta que percorre todo o movimento como um fio condutor.
Solar-Scherzo apresenta se com intensa variedade rítmica e mudanças da fórmula de compasso. A pulsação predominante é ternária. Os contrastes são obtidos através dos dois “gestos” presentes no movimento e do diálogo constante ocorrente entre a Clarineta e a Orquestra.
No Crepuscular, Almeida Prado é singular na criação do movimento cromático convergente existente entre a clarineta em conjunto com as cordas agudas, e as cordas graves em analogia ao por do sol.
No quarto movimento ocorre a reexposição do motivo, desta vez sobre uma sobreposição de chacona (Violinos e Violas) com uma passacaglia (Cellos e Contrabaixos). A movimentação das vozes agudas dá-se em tempo diferente das graves e é o pulsação do baixo que sugere o movimento.
Em oposição à ordem da maioria dos Concertos tradicionais: rápido-lento- rápido, o compositor opta por apresentá-la lento-rápido-lento, onde o movimento rápido dá- se pela junção dos dois movimentos intermediários. Assim concluímos que Crônica apresenta-se sob uma grande forma ternária.
A
B
A’
Matinal-Motivo Solar / Crepuscular gestos a e b gesto a
Noturnal-Motivo
A análise demonstrou ser uma ferramenta essencial para uma melhor compreensão da obra, trazendo a luz uma série de aspectos e informações normalmente despercebidos por nós instrumentistas. Este conhecimento mais profundo estabelece uma cumplicidade única entre o músico (instrumentista/pesquisador) e o objeto de estudo (partitura), que aliado ao estudo técnico/músico instrumental resulta numa melhor performance .
“Crônica de Um Dia de Verão” é uma obra extremamente bem escrita para clarineta. Tudo soa e flui com facilidade e naturalidade. Almeida Prado mesmo não sendo clarinetista conseguiu escrever uma das mais primorosas páginas da música brasileira para clarineta como se fosse um profundo conhecedor deste instrumento.