CAPÍTULO 4 – RESISTÊNCIA E CRIAÇÃO
4.5 Contraprotocolos
Talvez as formas menos comentadas de resistência e abertura de possibilidades sejam aquelas que se dirigem ao diagrama da rede, especialmente fora da internet. É possível encontrar diversos materiais sobre modos de subversão da internet e os algoritmos que hoje ditam o funcionamento das redes sociais (GALLOWAY, 2004 GALLOWAY; THACKER, 2004, SILVEIRA, 2018, PARRA, 2018, SANCHO, 2018).
Todavia, ao tratarmos da questão do diagrama de rede não nos referimos somente ao funcionamento da internet ou da tecnologia, mas ao diagrama de rede que funciona em conjunto com a governamentalidade neoliberal e extrapola os limites da internet. Além disso, a relação da rede com a desigualdade é ainda menos comentada.
Neste ponto da análise, vamos nos dedicar um pouco ao que Galloway e Thacker chamam de contraprotocolos (counter-protocols, no original), uma estratégia que visa a modificar o funcionamento das redes distribuídas para que se transformem as formas de resistências à governamentalidade neoliberal e as formas de política internas aos diagramas de rede. Os autores entendem que os protocolos são usados para manter a ordem vigente, incluindo ao máximo atores heterogêneos e escondendo as diferenças entre eles, além de manter a modulação do possível internamente ao funcionamento da rede.
Quanto à estrutura dos contraprotocolos, Galloway e Thacker (2004) sugerem cinco pontos principais que comentaremos a seguir. No entanto, devemos ter em mente que essa estratégia não parte da negação das redes ou da tecnologia que ajudou a propagá-la, buscando uma alteração em seu funcionamento enquanto diagrama.
O primeiro ponto levantado pelos autores é a mudança de uma representação e entendimento da rede focada no nodo enquanto todo completo que se conecta com outros nodos que também são completos. É necessário vislumbrar um modelo de diagrama que pense uma relação de muitos para muitos e que seja dinâmica, sem a lógica estática das representações comuns de redes.
O segundo ponto é a mudança de protocolos que sejam robustos e flexíveis por protocolos que sejam vigorosos e elásticos (vigorous e pliant, no original). Isso porque é necessária uma lógica de tempo diferente, o que os autores chamaram de tempo de inatividade (downtime, no original). A robustez e flexibilidade dos protocolos hoje leva a uma captura constante de elementos heterogêneos e um tempo sem parada, sempre ativo.
Esse ritmo não deve se manter, mas se tornar outro.
A flexibilidade e a robustez dos protocolos permitem a entrada desses elementos heterogêneos sem a modificação do que é possível, enquanto a elasticidade permite larga influência externa e uso diverso desses protocolos na rede enquanto o vigor permite que a estrutura não se quebre, mesmo com a elasticidade necessária para a acomodação de diversos elementos. Aqui percebemos que os autores não estão procurando uma volta ao passado, ou seja, o retorno às estruturas duras da disciplina.
O terceiro ponto trata de uma questão tática, que não significa ir contra a tecnologia ou as redes em uma resistência negativa, que só nega o que já está posto, ou propõe uma volta ao passado. De acordo com Galloway e Thacker:
In reality, counterprotocological practice is not “counter”
anything. Thus the concept of resistance in politics should be superceded by the concept of hypertrophy. The goal is not to destroy technology in some neo-Luddite delusion but to push technology into a hypertrophic state, further than it is meant to go. We must scale up, not unplug. (2004, p. 25)
É necessário aumentar os usos e as práticas nas redes de forma a ser impossível a manutenção da modulação por meio da flexibilidade.
O quarto ponto trata de dissolver nós e hastes de forma a não os manter como elementos díspares, ou seja, acabar com a diferença entre indivíduos e relações. As redes hoje são focadas nos nodos e não nas formas de relação entre eles ou mesmo se eles são diferentes. Por exemplo, as relações diretas não podem se dar através de indivíduos ou
um nodo não pode ser uma junção de hastes? O foco dos contraprotocolos deve estar nas formas de relações humanas e não humanas, diferenciando, inclusive, entre elas.
O quinto ponto é a possibilidade de utilizar a homogeneização de elementos que são capturados pela rede, para conseguir ressoar outras práticas com os protocolos, permitindo a expansão e intensificação dessas táticas contraprotocolares. A necessidade de captura e intensificação dessas novas práticas pode levar a um curto-circuito do diagrama da rede.
Para concluir, devemos compreender que os protocolos modulam elementos básicos da vida e geram novas formas de viver dentro do mecanismo do controle. O alvo da resistência então deve ser “(...) not simply protocol; rather, to be more precise, the target of resistance is the way in which protocol inflects and sculpts life itself”
(GALLOWAY; THACKER, 2004, p. 26).
Vale lembrar que ao falarmos do diagrama da rede estamos lidando com um elemento importante e organizativo da governamentalidade neoliberal. Os autores, ao proporem uma resistência à modulação presente nas redes, também estão propondo uma forma de resistência ao neoliberalismo. Ou seja, ao proporem outros protocolos e outro funcionamento da rede, estão atacando o diagrama que permite e facilita a produção da subjetividade neoliberal, atacando também a própria representação da visão de mundo neoliberal.
Neste capítulo pudemos olhar para diversas tentativas de resistência e criação no sentido de acabar com o domínio da governamentalidade neoliberal, entendendo que essa está nos levando a uma crescente desigualdade, uma piora na democracia, chegando até a ameaçá-la, além de jogar com a nossa própria sobrevivência neste planeta.
Após olharmos para essas novas possibilidades é necessário entendermos a urgência deste momento para superarmos essa governamentalidade que busca estabelecer uma realidade que não somente piora a vida dos indivíduos, mas pode impossibilitá-la no futuro. Além disso, ela também busca moldar nossa subjetividade e usá-la como combustível para seu funcionamento, apropriando-se da nossa capacidade de criação, o que ao mesmo tempo, dificulta nossa possibilidade de reação.
Nas considerações finais teceremos mais comentários e interligações entre essas formas de resistência. Explicaremos por que a palavra resistência não é o melhor termo
para buscar algo novo, parecendo se tratar de algo reativo, quando precisamos é de criação ativa.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nesta tese, procurei relacionar a governamentalidade neoliberal, a desigualdade e a competição – essas últimas como dois elementos de uma mesma lógica de funcionamento que se retroalimentam e estão presentes em importantes estratégias, funcionamentos e formas de governo do indivíduo e da sociedade. Tudo isso em um momento histórico no qual a governamentalidade neoliberal alcança a maior parte do globo e da humanidade, chegando a um alcance único na história.
É importante lembrarmos que, apesar disso, não há uma forma única de governamentalidade hoje e nenhuma estratégia de poder tem a hegemonia diante das outras (disciplina e soberania, por exemplo). Como o foco deste trabalho é uma das formas específicas do governo de condutas, pode parecer que outras formas não existem, ou mesmo não têm um efeito importante nesse momento histórico, mas isso não é o que acontece. Estruturas de poder diferentes, especificidades locais, formas diferentes de Estado, entre outros fatores podem fazer o funcionamento neoliberal se modificar ou mesmo ter outras estratégias de poder ainda mais importantes. Não podemos perder isso de vista na análise que fiz até aqui e nestas considerações finais.
Este último capítulo pretende costurar diversos momentos e argumentos da tese para chegar a uma compreensão da relação que procuramos mostrar até agora. Vamos retomar diversas passagens do texto para finalizar as relações aqui propostas (quando falo sobre finalizar, estou me referindo ao escopo deste trabalho, e não da discussão aqui proposta. Este trabalho não tem a pretensão de encerrar qualquer discussão ou chegar a conclusões finais imutáveis ou irredutíveis).
Procuramos demonstrar como a desigualdade e a competição (duas faces da mesma moeda) estão no centro da governamentalidade neoliberal e que são elementos essenciais para o seu funcionamento. Essa desigualdade se estende além do econômico, ela existe na subjetividade individual, na visão que temos de sociedade e dentro de um diagrama específico, ocupando outros espaços e levando a duras consequências para nós e para nossa vivência em nosso planeta.
Diversos autores consultados neste trabalho expõem o quanto a competição é necessária para o neoliberalismo. A substituição da troca pela concorrência que os autores ordoliberais fazem em relação ao liberalismo clássico, além da desnaturalização do mercado e, posteriormente, o desenvolvimento da teoria do capital humano é fundamental
para o funcionamento dessa governamentalidade. Para que a competição entre os atores no mercado ocorra a desigualdade é necessária como elemento de estímulo, como forma de dividir ganhadores e perdedores nesse jogo e para trazer o risco na concorrência.
Para que isso ocorra passam a acontecer mudanças na subjetividade dos indivíduos que precisam se ver como competidores autônomos e livres, aceitar o risco dessa disputa e, com isso, aceitar a desigualdade. Aqui é importante olharmos para o homo oeconomicus e a teoria do capital humano. O homo oeconomicus vai trazer duas características que ressalto para o sujeito neoliberal: um padrão economicista de comportamento e uma unidade autônoma do sujeito.
A teoria do capital humano fortalece esse padrão economicista ao entender o sujeito como detentor de capital e não mais como trabalhador. Como uma empresa, esse investimento em si, no próprio capital, deve ocupar um espaço central na vida do sujeito, extrapolando o momento do trabalho, chegando a todas as esferas da vida.
O comportamento baseado em métricas vindas da economia capitalista cria um sujeito que em todas as esferas de sua vida procura maximizar seus ganhos e minimizar suas perdas em busca de seus interesses. Esse sujeito de interesse não deve se preocupar ou pensar nas consequências sociais de suas ações, já que isso levaria a um desequilíbrio da sociedade, ou melhor, da competição. Ninguém deve ter ajuda neste jogo, a não ser o mínimo para competir (e mesmo esse mínimo às vezes é ignorado) e ninguém deve mexer com o delicado equilíbrio do mercado. As ações que buscam acabar com a desigualdade, nessa visão, teriam resultados nefastos ao desequilibrar o mercado.
O sujeito de interesse deve agir de acordo com essa procura por maximização de ganho individual. Mais do que isso, para contribuir para a sociedade como um todo, ele deve seguir seus interesses, estabelecendo um sujeito autônomo do resto da sociedade e a própria sociedade como uma reunião destes sujeitos autônomos. Além disso, esses sujeitos estarão em competição por esses ganhos e os mais capazes sairiam vencedores.
Podemos falar aqui de uma meritocracia individual, que ignora por completo qualquer desigualdade prévia, seja ela econômica, social ou de outro tipo. Durante esta tese ficou perceptível o quanto essas desigualdades são ignoradas na governamentalidade neoliberal.
Chegamos a um ponto em que o indivíduo passa a ser visto como uma empresa e que para vencer a concorrência ele precisa investir em si mesmo, ser seu próprio capital,
o capital humano. Novamente o que leva a ação é a competição entre agentes desiguais desde seu início. E mais, o único fator importante para o sucesso ou fracasso dessa empreitada é o próprio sujeito. Essa meritocracia individual não só retira os fatores coletivos para o funcionamento da sociedade, como também individualiza os resultados dessa competição baseada na desigualdade.
Essa responsabilização individual pelo sucesso ou fracasso nesse jogo faz com que a desigualdade seja mais bem aceita. Afinal, se alguém foi derrotado nesse jogo é por sua própria responsabilidade, sem qualquer razão social para que isso aconteça e os vencedores obtiveram sucesso por meio de seu próprio esforço e capacidade. A desigualdade aqui é vista como resultado de suas próprias ações, independentemente da situação anterior do indivíduo ou mesmo a conjuntura social a qual ele está inserido.
A subjetividade neoliberal ao ser construída em volta de um sujeito completo em si mesmo, ou seja, que não depende de mais ninguém, da sociedade ou do Estado, se fecha aos encontros externos que podem transformar sua experiência e modificar a sociedade e o próprio sujeito. Sem essa abertura para a formação relacional da subjetividade, o indivíduo sente que há algo faltando à sua subjetividade e a responsabilidade por essa falta só pode estar também nos indivíduos.
A visão atomizada da sociedade e a ideia de que somos autônomos e independentes da conjuntura social a qual estamos ligados, individualiza a noção de sucesso e fracasso. Se formos bem-sucedidos em nossos empreendimentos (lembrando que para o empreendedor de si, nós mesmos somos empreendimento também) a responsabilidade é apenas nossa, devendo-se somente ao nosso trabalho. Agora, se fracassarmos em nossos empreendimentos, a responsabilidade também é só nossa.
Podemos então juntar os dois fatores aqui descritos. Primeiro, que a responsabilidade por nossa subjetividade incompleta é nossa e que se fracassarmos a responsabilidade também é só nossa, as desigualdades, ou qualquer outra questão social, não estão consideradas. Se a culpa pelo fracasso é do indivíduo, não seria correto responsabilizar a sociedade ou a governamentalidade neoliberal, por exemplo. Estamos diante da redução dos problemas coletivos ou sistêmicos para problemas individuais.
Mesmo que sempre existam desempregados nos países capitalistas, se o sujeito está desempregado, ele é o único culpado.
No entendimento da lógica neoliberal os moradores de rua, por exemplo, estão nesta situação porque desejam estar, eles não querem responsabilidade ou “trabalho duro”
para sair das ruas. Afinal, se chegaram a morar nas ruas da maior cidade da América do Sul, São Paulo, é porque não se esforçaram, a responsabilidade é de cada um deles individualmente. Não há responsabilização social ou coletiva pela desigualdade, mesmo que existam 24.344 pessoas morando nas ruas em São Paulo e que o número de moradores de rua na cidade tenha aumentado em 53% nos últimos 4 anos (esses números são de 2019, anteriores à chegada da Covid-19 que provavelmente agravou essa situação).19
O sentimento de culpa que surge a partir dessa responsabilização dos indivíduos que não são “bem-sucedidos” pode se voltar para dois lados: para si mesmo ou para outros sujeitos. Quando essa responsabilização é colocada sobre si, temos o desenvolvimento de transtornos psicológicos, como a depressão, a síndrome do pânico, entre outros. Quando a culpa se dirige a outros indivíduos, ela normalmente acha lugar em populações minoritárias. Essas populações, que muitas vezes já estão em posição de desigualdade pelo preconceito sofrido, ficam em uma posição ainda mais fragilizada. Percebe-se aqui uma alimentação da desigualdade pela desigualdade, por estarem em posição desigual, as populações minoritárias serão alvo de preconceito e, assim, sua posição se torna ainda mais desigual.
Essa busca por um culpado externo para o insucesso é estimulada pela aliança entre a governamentalidade neoliberal e o neoconservadorismo que vem ganhando força nas democracias formais ao redor do globo. Essa aliança mantém a economia nas mãos de tecnocratas que se colocam como apolíticos, e como matéria que não pertence à política. O Estado e a política devem garantir as bases para o mercado, a não ser quando se trata das chamadas pautas de costume. Essas pautas buscam colocar como culpados pelo desemprego, pela atomização social e pela decadência moral vista por eles na sociedade nas populações minoritárias. Populações LGBT+ seriam culpadas pela dita decadência moral, pelo fim dos valores cristãos e o fim da família tradicional ou da família fordista. Imigrantes e migrantes seriam culpados pela falta de emprego. Negros seriam culpados pela atomização social através de uma suposta radicalização política da
19 Fonte: <https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/01/30/populacao-de-rua-na-cidade-de-sp-chega-a-mais-de-24-mil-pessoas-maior-numero-desde-2009.ghtml>, Acesso em: 18 fev. 2020.
sociedade, ou seja, ao cobrar seus direitos e o fim do racismo essa população estaria estimulando um racha social.
Podemos dizer então que a subjetividade neoliberal colabora no governo da desigualdade, já que a normaliza e estabelece como responsável por ela as mesmas pessoas que estão em posições mais desiguais. Vimos durante esse trabalho que apesar disso as pessoas em sua maioria ainda veem a desigualdade como um problema do Estado.
Portanto, apesar da ação da governamentalidade neoliberal, as pessoas ainda enxergam alguns problemas como questões sociais e não individuais. Para compreender melhor esse fenômeno seria necessária uma pesquisa mais profunda e específica, mas deixamos isso aqui ainda como uma questão.
O Estado terá um papel bastante importante na governamentalidade neoliberal, ao contrário do que diz o senso comum. O Estado deve servir ao mercado e organizar a economia de forma a permitir a concorrência e a desigualdade necessária para tal, garantindo o cumprimento das leis comerciais e mantendo a estabilidade econômica e política necessária para que o mercado possa continuar a funcionar. Também não deve interferir na competição entre os agentes do mercado, mesmo diante das diferenças entre eles. O protecionismo para a produção local e a rede de proteção social devem ser minimizados ou até mesmo desfeitos.
Porém existe um problema nessa questão que é a pressão da população para manter ou aumentar essa rede de proteção social e diminuir a desigualdade. A subjetividade neoliberal cria um sujeito que vê essas ações como negativas e de desestímulo ao trabalho e à competição. Mas isso ainda não resolve o problema. Então os Estados e as organizações econômicas supranacionais tentam retirar a pressão das populações ao deixar a economia longe das pressões democráticas.
Para manter a economia longe das mãos da vontade por maior igualdade de parte da população o Estado vai designar essa área para tecnocratas e aqueles que não são chamados de políticos profissionais, muitas vezes colocando em cargos importantes pessoas ricas, já que estas saberiam ganhar dinheiro (visto muitas vezes como o objetivo do Estado) e teriam menor probabilidade de se corromperem por mais dinheiro.
Já as organizações supranacionais se mantêm longe de qualquer processo democrático para decidir os rumos da economia mundial e depois fazer uso da competição entre Estados desiguais para conseguir levar essas diretrizes para outros países. O Fórum
Econômico Mundial do qual participam representantes dos Estados e das maiores empresas do mundo é um bom exemplo de espaço para compreensão e deliberação do que vai ser feito economicamente no mundo sem respaldo democrático.
O aumento da desigualdade e a falta de representação dos interesses da população pela classe política, entre outros fatores, leva a um antagonismo da política e do Estado, que seria uma organização parcial, ineficiente e corrupta. Quando a população não vê diferença entre políticos diversos e propostas políticas e só tem como momento de participação na política o período de eleições, perde-se o interesse na política e até mesmo no voto. Esse afastamento permite o avanço ainda maior da desigualdade da representação política na democracia formal, em que os de maior poderio econômico e político têm seus interesses super-representados no Estado.
Se tratarmos a democracia como algo mais amplo do que um sistema formal de votação para a escolha de representantes, mas como uma lógica de governo inclusiva, que busca inserir cada vez mais grupos na política, observamos um recuo nesse sentido a partir das consequências dessa desigualdade e o avanço da antipolítica. Esses elementos afastam cada vez mais partes da população para longe da política institucional ou de fora da instituição e estimulam o distanciamento da política como um elemento moral positivo do comportamento. Estar relacionado ou próximo da política levanta dúvidas quanto às atitudes de indivíduos e organizações. Por vezes, chega-se à confusão entre política e politicagem, como tendo o mesmo significado.
Percebe-se então que a desigualdade resguardada pela governamentalidade neoliberal como forma de estímulo à competição é antidemocrática, tanto no sentido institucional formal quanto no sentido mais amplo de democracia. Além disso, o neoliberalismo não encontra problemas em funcionar em governos não democráticos.
Durante a sua história, o programa neoliberal de Estado foi implementado na maioria das vezes a partir de democracias, mas que flertaram com o autoritarismo como o governo Thatcher e o governo Reagan, mas no caso do Chile de Pinochet o autoritarismo é mais que um flerte, foi o modo de funcionamento desse governo. Hoje nos vemos diante de governantes que ameaçam a democracia formal, e isso não parece ser um impeditivo para a governamentalidade neoliberal funcionar. O mercado deve ter seu funcionamento protegido a todo o custo, independentemente da forma que a instituição toma.
Outro ponto importante para esta tese é a proliferação de redes em nossa sociedade como diagrama ideal para o funcionamento do neoliberalismo. Cabe entender que nem tudo precisa ou vai estar nesse formato para que as estratégias de poder neoliberais funcionem (o Estado que vínhamos tratando até aqui é um exemplo disso). A relação entre o diagrama da rede e o neoliberalismo se inicia pela própria estruturação da sociedade, que vai passar a ser vista como uma reunião de nodos autônomos interligados, mas não interdependentes ou mesmo com elementos que estejam aquém ou além desses agentes.
A união desses elementos não geraria nada além do que ligações entre eles. Isso vai de encontro com a ideia de que a sociedade é somente indivíduos ou famílias ligadas entre si. Não há nesta representação um só elemento que se forme a partir da junção dos agentes, apesar de se aproveitar das produções coletivas (como no caso do Big Data) elas não estão presentes no modelo. Cabe-nos perguntar aqui, o que seria das redes sociais se as pessoas não produzissem conteúdos coletivamente?
A relação entre a governamentalidade neoliberal e o diagrama da rede não para na sua estruturação do mundo, mas avança em direção ao fortalecimento da desigualdade e uma falsa impressão de paridade e liberdade decisória. Os agentes só se enredam a partir da desigualdade, ela é o elemento fundante das redes. Isso porque as redes funcionam a partir de protocolos que servem para estabelecer o regramento necessário para que agentes desiguais e heterogêneos possam se conectar. Sem os protocolos não há rede e sem a rede não há protocolos. Quando nos referimos a agentes desiguais vale a pena lembrarmos que estão aqui incluídos atores não humanos, que serão importantes na formação da subjetividade neoliberal a partir da servidão maquínica.
A servidão maquínica funciona a partir de componentes assignificantes, ou seja, que não passam pela linguagem, e essa servidão só pode funcionar a partir da relação com a máquina. Se nas redes distribuídas não se distingue entre máquinas e humanos isso potencializa a servidão maquínica. A tecnologia é capaz de perceber essas relações sem significado, medi-las e, assim, nos recortar enquanto sujeitos. Se por um lado a subjetividade neoliberal nos atomiza, por outro ela também nos retalha. Esse processo é necessário para que esses elementos sejam vendáveis como dados e que voltem para nós como estímulo ao consumo e propaganda.