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se deram em momentos cruciais no que diz respeito às mudanças na imagem da mulher chinesa ideal.

Como já foi dito, o início do século XX foi um período de grandes mudanças políticas na China. Os intelectuais buscavam se modernizar, bem como estimular as massas a fazerem o mesmo. Em uma onda de nacionalismo jamais vista antes, um acontecimento marcou a história política chinesa e teve grande influência em sua história cultural. Esse movimento ficou conhecido como “Quatro de Maio”:

O termo deriva do Incidente de 4 de Maio de 1919, quando em resposta às estipulações humilhantes do Tratado de Versalhes, que teriam cedido ao Japão o controle de parcelas do território chinês na Província de Shandong, milhares de estudantes universitários em Pequim marcharam até a Praça Tiananmen em protesto. O termo “Quatro de Maio” também é usado para descrever um movimento cultural mais abrangente, às vezes chamado Movimento da Nova Cultura (新文化运动), que era tanto diferente como bastante próximo do nacionalismo anti-imperialista expressado em demonstrações estudantis e movimentos patrióticos ao redor da nação que se seguiram56. (DENTON, 2016, p. 7)

Essa época também é lembrada como o momento de florescimento da literatura de autoria feminina na China. Dooling (2016, p. 130) assevera que assuntos como “concubinagem, prostituição, moralidade feminina, enfaixamento dos pés, domesticidade, e uma miríade de outros tópicos identificados como ‘problemas de mulheres’ (妇女问题) foram discutidos fervorosamente na imprensa, e as próprias mulheres afirmaram sua própria autoridade nesses assuntos”57. Autoras como Ding Ling 丁玲e Xiao Hong 萧红, publicaram obras nesse período que ainda hoje são influentes nos estudos de literatura chinesa. As mulheres finalmente encontravam seu espaço na sociedade e desafiavam a tradição.

autoimagem feminina e percepção social do que significa ser uma mulher ideal, ou, também podemos dizer, uma boa mulher. Como a história da China no século XX possui vários pormenores que estão interligados, é viável fazer uma retomada dos principais acontecimentos que levaram às mudanças na situação das mulheres chinesas, bem como às situações relatadas por Xinran (2003) em As Boas Mulheres da China.

Antes que o Partido Comunista tomasse o poder, ocorreram inúmeras batalhas contra o Guomindang, o Partido Nacional do Povo, fundado por Sun Yat-sen e posteriormente comandado por Chiang Kai-chek, que se tornaria um dos principais inimigos políticos de Mao Zedong, deixando o país em estado de guerra civil. Essas intrincadas disputas pelo poder, que incluíram a aliança temporária dos dois partidos na luta contra as tropas japonesas que invadiram a China no início do século XX, seu rompimento e aliança do Partido Comunista com os soviéticos, culminaram na derrota dos nacionalistas e na instauração da República Popular da China.

Na obra literária A Terra do Cervo Branco, de Chen Zhongshi, é possível perceber os efeitos das mudanças políticas ocorridas na China no século XX e, mesmo se tratando de uma obra de ficção, possui uma base sólida para uma explicação a respeito das disputas políticas desse período. A fala do personagem Mestre Zhu a seguir expressa as contradições existentes entre os dois partidos, deixando claro que se tratava, acima de tudo, de uma disputa ideológica:

A meu ver, a ideologia dos nacionalistas é muito semelhante à ideologia dos comunistas. Há pequenas divergências entre as duas, mas o princípio é o mesmo. Um defende a ideia de que "tudo é para todos", enquanto o outro sustenta que "tudo é de todos". Já que os dois invocam para si a missão de beneficiar o povo, por que não unem as duas doutrinas, afirmando que "tudo é para todos e de todos"? Por que não conseguem se unir, e, em vez disso, vivem se matando? Será que a disputa não gira em torno de definições e conceitos, com cada lado querendo impor seu próprio dicionário? (CHEN, 2019, p. 432, grifos do autor)

No próximo subtópico, esse assunto será explorado com mais detalhes, mas antes é importante destacar que o restante deste capítulo foi dividido em dois subtópicos que acreditamos atender às nossas necessidades no que diz respeito às contextualizações históricas necessárias para possibilitar uma boa compreensão da análise de As Boas Mulheres da China.

Os subtópcios são ‘A China de Mao’, no qual vamos contextualizar os principais eventos que levaram ao estabelecimento da República Popular da China e, claro, os que se deram durante o governo de Mao Zedong. Em seguida, no subtópico ‘A China das mulheres’, vamos trazer o foco dessa contextualização para as mulheres chinesas e como as políticas daquela época influenciaram sua vida no geral. Como já foi mencionado, essa foi uma época que teve grande

impacto na vida da maioria das mulheres que tiveram suas histórias relatadas por Xinran (2003), por isso acreditamos ser plausível traçar esse paralelo. Além disso, ao longo desses subtópicos serão discutidos trechos da obra de Xinran (2003) como forma de auxiliar o leitor na interpretação dos eventos narrados e, ainda, trazer algumas histórias que, por questão de organização deste trabalho, não serão mencionadas durante a análise.

3.2.1 A China de Mao

Apesar das semelhanças em seus discursos, as ideias socialistas do Partido Comunista ainda divergiam dos objetivos principais do Partido Nacionalista. Uma das principais questões fruto de divergências era a reforma agrária. Essa foi uma das primeiras medidas tomadas por Mao ao chegar ao poder e até 1952 a distribuição de terras foi concluída na maior parte da China. De acordo com Shu (2012) “a distribuição de 46 milhões de hectares de terra gratuitamente para 300 milhões de camponeses transformou radicalmente a estrutura social do campesinato, o que, por sua vez, desencadeou um grande surto na produção agrícola” (SHU, 2012, p. 43-4). Desde que se iniciaram as ações do Exército Vermelho, antes do Partido Comunista tomar o poder de fato, os comunistas já vinham abrindo caminho para a coletivização dos latifúndios, ou seja, “a reforma agrária já havia sido implementada em diversas regiões do país durante a revolução” (SHU, 2012, p. 43) e com a fundação da República Popular da China, em 1949, ela passou a ser implementada em escala nacional. Não é nosso objetivo analisar profundamente as consequências dessa coletivização, todavia ela foi de grande relevância para as mudanças que ocorreram na estrutura social chinesa naquela época. Isso porque, a partir da coletivização das terras, passou a ser implantado um sistema de equipes de ajuda mútua, que logo se transformaram em cooperativas elementares, com dezenas ou centenas de famílias e, com o passar do tempo, tornaram-se cooperativas maiores, com cerca de 5 a 6 mil famílias (cerca de 20 a 30 mil pessoas). Por fim, surgiram as comunas, celebradas pelo próprio Mao Zedong, que contavam com cerca de 10 mil famílias cada (SHU, 2012, p. 48).

Foi no seio dessas comunas que ocorreu o esforço dos camponeses para suprir as exigências de produção estabelecidas por Mao durante o período que ficou conhecido como o Grande Salto para Frente, entre 1958 e 1960. Com esse programa econômico, o presidente tinha a intenção de transformar a China em um país industrial, avançando e verdadeiramente socialista. Todavia, devido ao planejamento deficiente e a falta de organização, esse programa teve como consequência a Grande Fome nos anos subsequentes.

Foi nesse período de grande demanda de mão de obra que as mulheres foram convocadas a participar mais ativamente em diversos tipos de trabalhos antes considerados “masculinos”.

No início, a grande demanda de homens para a realização de projetos de irrigação no campo os afastou das cooperativas e, para solucionar os problemas gerados pela falta desses trabalhadores.

Dessa forma,

as mulheres foram incentivadas a assumirem um papel maior no trabalho agrícola fora do lar. Para tanto, era essencial libertá-las do trabalho doméstico, verificando-se tentativas de centralizar o cuidado das crianças e as tarefas domésticas, inclusive a preparação de refeições. (SHU, 2012, p. 48)

Além da inserção em trabalhos agrícolas, as mulheres, especialmente as que viviam em zonas urbanas, também passaram a participar cada vez mais de trabalhos industriais que antes só eram realizados por homens. Como explica Jin (2006):

No final dos anos 1950, sob uma política radical de rápida industrialização, um grande número de mulheres urbanas ingressou na indústria pesada, incluindo as áreas de ferro e aço, construção, mineração, petróleo e a indústria química. As mulheres, portanto, quebraram o padrão tradicional de empregos de concentração feminina nas indústrias leves e de serviços. Esse fenômeno de aumento no número de mulheres na indústria pesada se deu em razão de uma política de estado que priorizava a indústria pesada. (JIN, 2006, p. 614)58

O Grande Salto para Frente foi, portanto, de grande importância para a inserção da mulher chinesa no mercado de trabalho. Contudo, foram mudanças que ocorreram para atender às necessidades econômicas do momento e, mesmo que hoje seja possível perceber sua influência no mercado de trabalho chinês atual, culturalmente, como será demonstrado em seguida com a Revolução Cultural, a imagem da mulher ideal na sociedade chinesa continuou praticamente inalterada. Trata-se de um período significativo para a análise da situação da mulher chinesa ao longo do século XX, bem como para a compreensão da própria China.

As consequências desastrosas do Grande Salto para Frente, com estimativas de mortes entre 10 e 30 milhões (SHU, 2012, p. 59-60) foram fundamentais para o surgimento de disputas internas dentro do Partido Comunista, que culminariam na Grande Revolução Cultural Proletária

文化大革命。A partir de 1962, o marechal Lin Biao, importante aliado de Mao

Zedong e por ele promovido a um dos vice-presidentes do Partido, começou a promover o culto à imagem de Mao, o que culminou na promoção da ideia de infalibilidade do presidente e sua idolatria pela população. Dessa forma, mesmo com desavenças internas no Partido, uma vez

58 At the end of 1950s, under a radical policy of rapid industrialisation, large numbers of urban women entered heavy industry, including the fields of iron and steel, construction, mining, petroleum and the chemical industry.

Women thus broke the traditional employment pattern of female concentration in light and service industries. This phenomenon of increasing numbers of women in heavy industry was based on the state policy of prioritising heavy industry (JIN, 2006, p. 614).

que diversos dirigentes discordaram de seu plano do Grande Salto e o criticaram duramente após seu fracasso, Mao conseguiu certificar sua permanência no poder através do apoio das massas.

Esses acontecimentos se deram no contexto da Guerra Fria, além de outros conflitos internacionais enfrentados pela China. Nesse momento, as relações diplomáticas do país estavam restritas a cerca de trinta países. É nessa conjuntura que os membros do partido defensores de uma revolução ininterrupta passam a preparar o terreno para o que viria ser conhecido como a Revolução Cultural. De acordo com Pomar (2003):

Essa "revolução" constituiu a tentativa mais extremada de implementar a ideia de que as massas mobilizadas são capazes de remover qualquer montanha.

Todas as experiências de participação maciça para elevar a produção, desenvolver as ciências e a tecnologia, governar o Estado, exercer a democracia direta e implantar o igualitarismo foram praticadas durantes seus dez anos de duração. (POMAR, 2003, p. 20, grifo do autor)

Em maio de 1966 “foram publicados dezesseis pontos sobre a Grande Revolução Cultural. O conceito de revolução permanente passava, na prática, a ser o conceito básico da construção do socialismo na China” (POMAR, 2003, p. 98). Esses pontos incitavam as massas a:

“Fazer a revolução”, “transformar os pensamentos, a cultura, os hábitos e os costumes antigos”, “moldar a fisionomia moral de toda a sociedade conforme os pensamentos, a cultura, os hábitos e costumes do proletariado”, “derrubar os que ocupavam postos de direção, mas seguiam o caminho capitalista”,

“tomar o poder”, “opor-se aos ataques da burguesia no domínio ideológico”,

“criticar as autoridades acadêmicas reacionárias”, “atacar a ideologia burguesa e todas as outras classes exploradoras” e “reformar a estrutura de ensino, a literatura, a arte e todos os demais ramos da superestrutura”.

(POMAR, 2003, p. 98-9, grifos do autor)

Uma vez que o presidente Mao defendia que “as massas não devem ser tuteladas”, cada grupo chegou a uma interpretação própria de como seguir cada um desses pontos. Essa falta de clareza em suas instruções era proposital, pois Mao “apenas manipulava atrás das cortinas, deixando o povo lutando entre si, verbal e fisicamente, em uma violenta guerra de todos contra todos” (SHU, 2012, p. 112). A situação se tornou tão extrema que, mesmo historicamente sendo considerado que a Revolução Cultural durou entre 1966 e 1976, já em 1969 ela se esgotava devido a violência das massas ao encontrar formas de obedecer aos dezesseis pontos.

A violência durante a Revolução Cultural, contudo, não foi uma exceção na história do Partido Comunista da China. Perseguições aos considerados direitistas e inimigos de classe já haviam sido promovidas em anos anteriores, com consequências tão violentas quanto a última.

Um exemplo foi a campanha de “repressão contrarrevolucionários escondidos” (

肃反运动

) entre 1955 e 1956: “não sabemos os pormenores deste expurgo, mas, segundo um discurso de Mao Zedong, cerca de 4 milhões de pessoas foram investigadas. Entre elas, 160 mil foram consideradas suspeitas e apenas 38 mil condenadas como contrarrevolucionárias (SHU, 2012, p. 34). De acordo com esses números, apenas 0,95% dos investigados seriam de fato culpados.

Todavia é possível que os números de investigados sejam maiores e o de pessoas inocentes seja menor, inferindo-se que ao serem submetidas a torturas constantes diversas pessoas poderiam confessar coisas que não fizeram por pressão e serem, portanto, condenadas.59

Além disso, desde o estabelecimento da República Popular da China, as perseguições às pessoas com antecedentes “sujos”, ex-proprietários de terras, capitalistas e afins, também ocorriam e o ostracismo sofrido por essas pessoas era bastante violento. Isso se intensificou com a Revolução Cultural, quando não apenas suas relações familiares, como suas relações no trabalho e na vizinhança começaram a ser investigadas e isso passou a ser motivo de tortura e mesmo execução. Situações assim são narradas em As Boas Mulheres da China e ajudam a esclarecer a violência a que essas pessoas eram submetidas. Em um relato pessoal, Xinran (2003) conta que:

Durante a Revolução Cultural, toda pessoa que pertencesse a uma família rica, que tivesse recebido educação superior, fosse um especialista ou um acadêmico, tivesse ligações com o exterior ou tivesse algum dia trabalhado no governo antes de 1949 era classificada como contrarrevolucionária. Havia tantos criminosos políticos desse tipo que as prisões não podiam abrigá-los.

Assim, esses intelectuais foram banidos para regiões remotas no interior, para trabalhar na lavoura. Passavam a noite “confessando seus crimes” para os guardas vermelhos ou recebendo aulas dos camponeses, que nunca tinham visto um carro na vida nem ouvido falar em eletricidade. Meus pais suportaram muitos desses períodos de trabalhos pesados e reeducação.

(XINRAN, 2003, p. 218-9, grifo da autora)

Nesse trecho, há duas informações que merecem destaque. A primeira diz respeito aos guardas vermelhos, bastante presentes nos relatos pessoais de Xinran (2003) e das mulheres cujas histórias ela compartilha. A segunda é relativa ao banimento de certos grupos para regiões remotas com a intenção de que fossem educados pelos camponeses.

Em relação aos guardas vermelhos, a Guarda Vermelha surgiu logo no início da Revolução Cultural, como uma resposta de jovens engajados politicamente que ansiavam por responder ao chamado do presidente Mao e combater tudo aquilo que interpretavam que seria

59 Durante as épocas de perseguição mais intensa, era comum que as pessoas se sentissem coagidas a fazer denúncias, mesmo sem fundamento, numa tentativa desesperada de não se tornar um alvo. O romance Irmãos, de Yu Hua e a autobiografia Cisnes Selvagens: Três Filhas da China, de Jung Chang ilustram como mesmo um membro atuante do partido podia se tornar, do dia para a noite, vítima desse sistema do qual participava.

contra os valores comunistas, pois, como já foi dito, o presidente preferia deixar em aberto para que o próprio povo fizesse essas interpretações. Esses jovens tinham nascido entre 1947 e 1959, em áreas urbanas e, portanto, passaram sua infância sendo doutrinados pela ideologia maoísta (CHEN, 1999, p. 221).

Quando Lin Biao, responsável pela criação do culto à imagem de Mao, convocou os jovens, em 1966, para “’quebrar os quatro velhos’ (velho pensamento, velha cultura, velhas práticas e velhos hábitos) começou uma cruzada contra a cultura tradicional chinesa. Uma onda e vandalismo sem precedente na história da China” (SHU, 2012, p. 85).

A geração dos guardas vermelhos recebeu uma educação idealista, que os ensinou os fundamentos do patriotismo, altruísmo, heroísmo, dentre outros valores comunistas da época e, por essa razão, estavam prontos para responder ao chamado do presidente na luta contra os direitistas. Nesse sentido, Chen (1999) ressalta que

tal idealismo inspirou muitos deles a se comportarem de maneira violenta no Movimento dos Guardas Vermelhos, pois eles acreditavam honestamente que o que estavam fazendo servia uma grande revolução, ou a se mudar para vilarejos, porque viam a se mesmos como engajados em uma transformação radical da área rural atrasada60. (CHEN, 1999, p. 222)

Um estudo mais aprofundado sobre a geração dos guardas vermelhos revela que esses jovens enfrentaram dificuldades ímpares na história de seu país, uma vez que as atividades da Guarda Vermelha acabaram por suspender as aulas em praticamente todas as escolas, o que resultou em mais de 90% desses jovens nunca terem a chance de ingressar em universidades, sua educação permanecendo, portanto, incompleta (CHEN, 1999, p. 227). O que esses jovens tinham de sobra era idealismo e vontade de participar de uma verdadeira revolução, o que fizeram, mas de formas que se tornaram cada vez mais violentas com o passar dos anos. Como explica Chan (1985): “às vezes havia uma base racional para seus ataques contra as autoridades, como na vingança contra professores excessivamente restritivos ou abertamente parciais. Mas, na maioria das vezes, a violência era um produto do preconceito, intolerância autoritária, medo e pressão do grupo”61 (CHAN, 1985, p. 219).

60 Such idealism inspired many of them to behave violently in the Red Guards Movement because they honestly believed that what they were doing served a great revolution, or to go down to villages because they saw themselves as engaged in a radical transformation of the backward countryside (CHEN, 1999, p. 222).

61 Sometimes there was a rational basis for their attacks against authority, as in the vengeance wreaked against overly restrictive or blatantly partial teachers. But more often than not, the violence was a product of prejudice, authoritarian intolerance, fear and peergroup pressure (CHAN, 1985, p. 219).

Um dos fatores que mais insuflou a violência da Guarda Vermelha e que é bastante citado em diversos capítulos de As Boas Mulheres da China, diz respeito à questão da linhagem sanguínea:

Antes, não importava como as reivindicações das classes vermelhas a uma

‘natureza revolucionária’ eram interpretadas, o argumento baseava-se no princípio da influência social dos pais. A nova teoria da linhagem sanguínea [criada e disseminada pela Guarda Vermelha] transformou e enrijeceu a noção de ‘natureza revolucionária’ ao descartar a possibilidade de se alcançar a virtude revolucionária por meio do ativismo político e de atitudes corretas.

Apenas o sangue “vermelho” nas veias seria reconhecido62. (CHAN, 1985, p.

133-4, grifos do autor)

Dessa forma, “a teoria da linhagem sanguínea se transformou em uma das justificativas para a violência exercida durante o que as próprias crianças intitulavam orgulhosamente de o Terror Vermelho”63 (CHAN, 1985, p. 134). Para Xinran (2003), isso significou a prisão de seus pais e sua exclusão de inúmeras atividades escolares por ser considerada “poluída”64 (XINRAN, 2003, p. 207) devido à sua linhagem sanguínea que continha “burgueses capitalistas”.

É importante ressaltar que os guardas vermelhos se organizavam em pequenos grupos isolados, sem comunicação um com o outro, portanto, cada grupo agia como lhe apetecia.

Quando são convocados a “quebrar os quatro velhos” e se inicia uma onda de vandalismo ao redor do país, essa falta de organização, somada à violência extrema dos guardas, resultou na invasão e saque de milhões de residências ao redor da China. No capítulo em que conta sobre sua infância, Xinran (2003) faz menção a esse vandalismo praticado pela Guarda Vermelha, relatando que assistiu à sua casa ser queimada e os bens de sua família saqueados (XINRAN, 2003, p. 204-5), imagens que serão exploradas no próximo tópico.

Em 1969, ano em que a Revolução Cultural já se esgotava, a Guarda Vermelha foi dissolvida pelo Exército chinês, pois a situação já havia se tornado perigosa demais (POMAR, 2003, p. 99). A maioria desses jovens, contudo já não se encontrava mais na cidade. A paralização das escolas e dos vestibulares gerou uma onda de desemprego que afetou drasticamente essa geração. Dessa forma, a partir de 1968, Mao “incentivou os jovens a viverem

62 Previously, no matter how the red classes' claims to an inherited 'revolutionary nature' were interpreted, the argument rested on the tenet of parental social influence. The new blood-line theory transformed and rigidified the notion of 'revolutionary nature' by ruling out the possibility of attaining revolutionary virtue by political activism and correct attitude. Only 'red' blood in one's veins was now to be recognized (CHAN, 1985, p. 133-4).

63 The 'blood-line theory ' became one of the justifications for the violence exercised in what the cadres' children themselves proudly titled the Red Terror (CHAN, 1985, p. 134).

64 Esse termo, utilizado por Xinran em sua obra, refere-se ao fato de que, por seus pais terem sido taxados como direitistas, mesmo sendo uma criança ela era considerada “infectada” ou “poluída” por essa linha de pensamento e, portanto, poderia “transmitir” isso para outras crianças.

com as massas, principalmente no campo, para receberem a ‘reeducação’ dos camponeses”

(SHU, 2012, p.106) com o objetivo primordial de lidar com a questão da falta de emprego para eles nas cidades. Esse movimento também funcionou como uma forma de dissipar a Guarda Vermelha, já que os jovens seriam dispersados geograficamente nas áreas rurais (CHAN, 1985, p. 149). Nessa época, “por vontade própria ou pela pressão política, milhões de jovens saíram da cidade para morar no campo, tentando levar o progresso aos camponeses e em busca de um novo sentido de vida” (SHU, 2012, p. 107).

Isso nos leva à segunda informação mencionada anteriormente por Xinran (2003)65, que é relevante para a compreensão de sua obra, ou seja, o exílio de inúmeras pessoas, consideradas inimigos de classe, no interior66. Após essa breve análise da situação dos guardas vermelhos, é evidente que não foram apenas artistas, intelectuais e direitistas que foram enviados para a reeducação nas áreas remotas da China. No capítulo catorze, “Uma mulher moderna”, ao falar sobre modas na China, a própria Xinran toca nesse assunto ao ressaltar que “durante a Revolução Cultural, a moda era ir para o interior para ser ‘reeducado’” (XINRAN, 2003, p. 238, grifo da autora). Esse assunto é aqui destacado apenas para contextualização histórica e melhor compreensão de algumas passagens que serão analisadas posteriormente, pois se trata de uma situação recorrente nas histórias das Boas Mulheres da China.

Além do que já foi exposto, cabe finalizar este tópico com uma importante reflexão apontada pelas editoras da obra Some of Us, citada no capítulo anterior. Como já foi comentado, nesse livro elas buscam trazer uma narrativa que se opõe ao discurso predominante que ressalta as mazelas desse período histórico da China. As autoras ressaltam que: “A dominância das narrativas da ‘idade das trevas’, apoiadas no mandato político de ‘negar completamente a Revolução Cultural’, junto com o imediatismo das consequências da Revolução Cultural, deixou pouco espaço para outros tipos de memórias e para reflexões” (ZHONG; WANG; DI, 2001, p. XX).67 Mais uma vez, repensar a história não significa ignorar as tragédias que ocorreram naquele momento, mas manter-se consciente de que sempre existe mais de uma narrativa para um fato e, muitas vezes, uma delas acaba sendo deixada de lado.

65 Aqui nos referimos ao trecho da obra de Xinran (2003, p. 218-9) citado na página 55 deste trabalho.

66 Esse grupo de pessoas era formado, principalmente, por artistas e intelectuais que se posicionavam contra determinados aspectos das políticas de governo e eram considerados elementos perigosos, pois poderiam criar um movimento político contrários às premissas comunistas defendidas no governo Mao, assim como poderiam “poluir”

os outros cidadãos com suas ideias. Essas pessoas eram taxadas como direitistas, o pior título que se podia ter na época, e eram mandadas ao campo como medida de segurança, supostamente para o povo, mas na realidade para manter o governo livre de qualquer possível oposição.

67 The dominance of the “dark age” narratives, riding on the political mandate “to thoroughly negate the Cultural Revolution,” along with the immediacy of the aftermath of the Cultural Revolution, allowed little room for other kinds of memories and for thoughtful (ZHONG; WANG; DI, 2001, p. XX).

3.2.2 A China das Mulheres

Durante os anos que sucederam a fundação da República Popular da China, a imagem feminina passou por diversas transformações. O Grande Salto para Frente, como foi mencionado, marcou um período de mudança no papel das mulheres na sociedade chinesa, que agora eram incentivadas a realizar trabalhos antes considerados masculinos. Todavia, a propaganda que incentivava essa participação já vinha sendo disseminada havia alguns anos.

Nos cinco pôsteres de propaganda expostos a seguir, a mudança na forma como as mulheres chinesas são retratadas ao longo dos anos é nítida e significativa, pois é perceptível que cada vez mais as imagens se aproximam da neutralidade de gênero que se tentava alcançar para elas.

Figura 1 -

农村风光

Cena da área rural

Autor: Xin Liliang

忻礼良

(1953)68

Figura 2 –

我们为参加国家工业化建设而自豪

Temos orgulho de participar da construção da industrialização do nosso país

68 Disponível em: https://chineseposters.net/posters/e12-527