Capitulo I -Retrato do crítico enquanto jovem
Capítulo 2 -A formação das almas
2.3. Contrastes e confrontos
No conjunto recente de estudos a respeito da história das ciências sociais no Brasil, comparece de modo geral a tendência analítica de se contrastar as trajetórias intelectuais e acadêmicas de Antonio Candido e Florestan Fernandes, no intuito de se compreender quer as principais características do processo de institucionalização universitária das ciências sociais em São Paulo, quer a singularidade do grupo Clima no interior do meio intelectual paulista. Desse modo, ao examinar os “estudos sociológicos brotados na academia, reunidos no interior da chamada 'escola paulista de sociologia', cuja figura principal foi Florestan Fernandes", Arruda registra que ao contrário dos integrantes do grupo Clima, cujas
trajetórias intelectuais evocam “uma vinculação débil com a Sociologia”, “Florestan Fernandes discrepa, radicalmente, dos seus colegas, podendo ser incluído numa geração diferente dos seus contemporâneos, uma vez que suas referências e diálogos são outros” (Arruda, 1995: 168). Não é outra a perspectiva levada a cabo por Sylvia Garcia (2002), que recupera lances da trajetória e conduta de Candido para contrastá-las com as iniciativas tomadas nos primórdios da carreira profissional do “jovem Florestan”. Em Destinos Mistos (1998), Heloisa Pontes pondera que “um exame circunstanciado de sua [Florestan Fernandes] origem, de seu universo familiar, de sua carreira acadêmica e de sua trajetória intelectual permite caracterizar, pela diferença, as razões de ordem cultural e social mais amplas que estão na base da formação do Grupo Clima. (Pontes, 1998: 144). Nem mesmo no pioneiro trabalho de Mariza Peirano (1991), deixam de repontar no texto diversas referências recíprocas entre os dois pesquisadores, como fator explicativo da estrutura e dinâmica do universo acadêmico uspiano durante as décadas de quarenta e cinqüenta 89.
Não há motivo para se esquivar desse confronto, posto que ele permite de fato esclarecer aspectos decisivos da implantação do padrão acadêmico consolidado pelas ciências sociais paulista. Além disso, os próprios envolvidos estimulam a comparação, como observa Peirano, para quem o contraste entre as trajetórias intelectuais de ambos “pode nos permitir olhar melhor o leque de possibilidade disponíveis em determinado momento. Aqui, o contraste mais interessante talvez seja com Florestan Fernandes, mesmo porque é o próprio Antonio Candido o primeiro a falar de seu período de formação na USP pautando o seu discurso sobre as afinidades e diferenças entre os dois” (Peirano, 1991: 29). Em linhas gerais, as análises abordadas argumentam que diferenças sensíveis de origem e extração social, influências acadêmicas distintas e interesses intelectuais diversos responderiam pelas trajetórias divergentes dos pesquisadores. Nesses termos, Candido e Florestan encarnariam distintos - e quase antagônicos - padrões de concepções e práticas sociológicas, tomando-os “como representantes exemplares
89 Para maiores informações a respeito tanto do processo de institucionalização das ciências sociais em São Paulo, como da trajetória intelectual e acadêmica de Florestan Fernandes, consultar os trabalhos de Peixoto (2000), Pontes (1998), Arrruda (1995; 2001; 2003); Peirano (1991); Garcia (2002).
da contraposição entre a atividade cultural e a atividade científica” (Arruda & Garcia, 2003 : 60).
Diante disso, gostaria de explorar a perspectiva inversa a esse consenso explicativo, a partir da comparação da semelhança notável entre eles em termos das estratégias profissionais e perfil dos investimentos acadêmicos realizados. Em lugar de discutir as diferenças de toda ordem existentes quando ambos lecionavam e pesquisavam na área de sociologia, pretendo acentuar os pontos de convergência profissionais no momento em que Candido assume a direção da área de TLLC.
Após assumir a direção da cadeira de sociologia I, no final de 1954, com o retorno do professor regente Roger Bastide para a França, Florestan começa a implementar uma série de inovações e procedimentos nesse nicho, ampliando sua margem de atuação e influência dentro do curso de ciências sociais. De acordo com Pontes, nesse momento Florestan “encontrou o espaço necessário para ‘pôr em prática as concepções que formara a respeito do ensino de sociologia e de investigação sociológica’. No decorrer dos catorze anos seguintes (de 1955 a 1969, quando foi compulsoriamente aposentado pelo regime militar), Florestan converteu a cadeira de sociologia I em um dos maiores centros de produção sociológica do país. Verdadeira ‘instituição dentro da instituição’, responsável pela configuração intelectual da chamada ‘Escola Paulista de Sociologia’, essa cadeira reuniu, sob sua liderança, o grupo mais expressivo de cientistas sócias da faculdade na época” (Pontes, 1998: 187).
No estudo “A Sociologia no Brasil: Florestan Fernandes e a ‘escola paulista’”, Arruda elenca os principais recursos utilizados por Florestan Fernandes para dar impulso ao seu projeto intelectual e habilitar a hegemonia institucional da “escola paulista de sociologia”: a) a seleção de um grupo competente de jovens sociólogos ao seu redor, formando uma equipe de trabalho coesa com a qual promoveu pesquisas científicas articuladas90. Nas principais vertentes temáticas de pesquisas científicas desenvolvidas pelo grupo liderado por Florestan, nota-se a preocupação
90 Segundo Arruda, a “idéia da formação do grupo seleto de sociólogos, meticulosamente selecionados por ele para compor o corpo de seus assistentes, ele retirou, como sugerimos, da Escola de Sociologia e Política de São Paulo” (Arruda, 1995: 192)
do sociólogo em estimular a continuidade e ampliação dos resultados alcançados através da orientação de dissertações de mestrado e teses de doutorado de seus principais assistentes; b) a orientação da grande maioria dos trabalhos acadêmicos produzidos na área de sociologia. Nesse contexto, Florestan assume a maior parte das orientações científicas, tornando-se responsável por cerca de 50% das pesquisas defendidas na área de ciências sociais da FFCL-USP; c) a consolidação de uma agenda temática de assuntos pertinentes e de um estilo de pesquisa característico de produzir conhecimento em sociologia; d) a realização de acordos com as principais editoras comerciais do período, permitindo a circulação em nível mais amplo dos estudos por ele realizados ou supervisionados91.
Ao que tudo indica, ao assumir a direção da área de TLLC, Candido aplicou os mesmos princípios e recursos que impulsionaram a marcha da trajetória profissional de Florestan Fernandes e acabaram por favorecer-lhe a construção um espaço institucional hegemônico na área das ciências sociais.
A despeito das divergências no aporte pedagógico, Florestan e, depois, Candido procuravam articular o conteúdo temático discutido nos cursos oferecidos com as pesquisas científicas que orientavam. No caso de Candido, essa tendência é bastante acentuada no conjunto de estudos sobre o movimento modernista e a crítica literária no país. De outro lado, ao contrário de Florestan, Candido contava com o auxílio dos demais integrantes do grupo Clima atuando no programa de pós- graduação, o que permitia orquestrar a discussão conjunta de temas correlatos em diferentes disciplinas. Da mesma forma que Florestan, Candido incentivou seus alunos a pesquisar um conjunto de temas correlatos, propondo e consolidando áreas de pesquisa. Como ele pondera: “Um professor, à medida que os anos passam, vai sentindo necessidade de renunciar a uma série de trabalhos que gostaria de fazer, mas que são variados ou numerosos demais para sua competência ou fôlego. Procura, então, sugeri-los aos jovens que mostram vocação universitária e são escolhidos para a Pós-Graduação. Alguns trazem as suas próprias obsessões já marcadas, e quando são viáveis, cabe ao professor encontrar
91 Pode-se constatar por tudo isso que “havia um claro projeto de expansão da cadeira de Sociologia I em diversas direções e mesmo de divulgação dos trabalhos nela realizados” (Arruda, idem: 197).
os meios de favorecê-las. Outros estão mais disponíveis, e a eles o professor sugere a lista de suas próprias obsessões” (Candido, 1970: prefácio). Por fim, Candido estimulou a publicação dos principais trabalhos realizados na pós-graduação da área. No catálogo da editora Duas Cidades pode-se encontrar publicada quase a totalidade das pesquisas realizadas, ampliando com isso o círculo de leitores92.
No prefácio de A Condição de Sociólogo, Candido pondera que Florestan “mostrou pelo exemplo que o trabalho do cientista se desdobra pelo trabalho de outros cientistas; e que para tanto é preciso haver plano, sistematização, esforço organizado de grupo, senso dos problemas, - culminando, em seu caso, pelo senso imperioso do dever social e político" (Candido, 1978: XI). Como se pode averiguar, não passou despercebido ao crítico as estratégias mobilizadas pelo amigo sociólogo. Esta hipótese me parece viável em razão da relação estreita entre ambos. Como lembra Peirano “eles passaram a juventude juntos e discutiram em extensas conversas questões de ordem intelectual, compromissos políticos e projetos institucionais”(Peirano, 1991: 102)93. E a plausibilidade dessa comparação é reforçada quando nos deparamos com a seguinte declaração de Antonio Candido, coligida pela mesma autora: “É na literatura, contudo, que identifica seus alunos: Roberto Schwarz, Walnice Nogueira Galvão, Davi Arrigucci Jr., João Lafetá, José Miguel Wisnik, por exemplo: “Esses são os meus Fernando Henriques, os meus Octávio Iannis” (Peirano, 1991: 36 - grifos nossos).
92 Da mesma forma que Florestan, Candido se incumbiu de prefaciar quase todos os trabalhos orientados por ele, conferindo-lhes a legitimidade científica necessária através do seu renome como crítico. Nessas intervenções podem-se encontrar, de um lado, sutis indicações das divergências e/ou contestações de Candido frente às vertentes críticas oponentes e, de outro, registros etnográficos de pequenos fragmentos reveladores da dinâmica intelectual interna da área de TLLC. Já os prefácios assinados por Florestan salientam de modo geral o esforço dos pesquisadores em consolidar um novo padrão de trabalho científico e rigoroso de pesquisa sociológica e ressaltam a pujança do arcabouço teórico-metodológico empregado por eles no desvendamento de problemas sociológicos candentes, confiando na capacidade da ciência em indicar caminhos para a transformação social.
93 No original: “their youth was spent togheter, and in long conversations they discussed intellectual matters, political commintments and institucional plans” (tradução minha).