PARTE IV – LAVAGEM DE CAPITAIS
CONTRATO, DATA, VALOR ESTIMADO e
DOCUMENTO COMPROBATÓRIO OBJETO SIGNATÁRIOS Nº 4600013311 27/10/2008 R$ 33 milhões, prazo de 36 meses, pgto em 10 parcelas bimestrais de R$ 3,3milhões, com a primeira em 20/01/2009 Anexo 6290, item 28, , p. 99-109
Prestação de serviços de consultoria técnica e administrativa empresarial, junto às obras de fornecimento de materiais, equipamentos e serviços relativos à análise de consistência do projeto básico, elaboração do projeto executivo, construção,
montagem eletromecânica,
condicionamento e assistência à pré-operação, partida, operação e apoio à manutenção das unidades e sistemas off-site pertencentes às carteiras de gasolina e de coque e HDT, da Refinaria Presidente Getúlio Vargas.
MENDES JR: Vicente Ribeiro
Carvalho
MPE: Luiz Carlos Fernandes Caldas SOG: Nobuo Sato
AUGURI.: Julio Camargo
Segundo reconheceu AUGUSTO MENDONÇA, o valor desse contrato foi majorado em R$ 11 milhões, o que foi feito com a anuência dos demais denunciados do CONSÓRCIO INTERPAR, para que esse montante pudesse ser repassado a título de propina. Assim, tendo por base a justificativa econômica, aparentemente lícita mais falsa, que era o contrato ideologicamente falso, os denunciados promoveram a transferência de recursos do CONSÓRCIO INTERPAR para a AUGURI. A realização dessas operações está comprovada por meio da análise de extratos bancários da AUGURI, devendo-se computar o desconto tributário de 6,15% sobre as parcelas bimestrais de R$ 3,3 milhões, conforme tabela abaixo (Anexo 151):
TITULAR LANÇAMENTONº da TED DATA VALOR (R$) N CNPJ ORIGEM
1 AUGURI 10217884000194 20/01/2009 3.097.050,00 C 10217884000194 INTERPAR 2 AUGURI 10217884000194 20/03/2009 3.097.050,00 C 10217884000194 INTERPAR 3 AUGURI 10217884000194 20/05/2009 3.097.050,00 C 10217884000194 INTERPAR 4 AUGURI 10217884000194 20/07/2009 3.097.050,00 C 10217884000194 INTERPAR 5 AUGURI 10217884000194 21/09/2009 3.097.050,00 C 10217884000194 INTERPAR
33,33 de participação na empresa. De: 17/04/1990 a 16/09/2010. Não há no sistema do Ministério da Fazenda registro de participação do CNPJ pesquisado em quadros societários de outras empresas.
6 AUGURI 10217884000194 23/11/2009 3.097.050,00 C 10217884000194 INTERPAR 7 AUGURI 10217884000194 27/01/2010 3.097.050,00 C 10217884000194 INTERPAR 8 AUGURI 10217884000194 01/04/2010 3.097.050,00 C 10217884000194 INTERPAR 9 AUGURI 10217884000194 26/05/2010 3.097.050,00 C 10217884000194 INTERPAR 10 AUGURI 10217884000194 20/07/2010 3.097.050,00 C 10217884000194 INTERPAR TOTAL 30.970.500,00
A partir daí, conforme reconheceu JULIO CAMARGO (Anexo 31), o dinheiro foi remetido ao exterior, de dois modos diferentes. Parte foi objeto de remessas oficiais, declarando falso motivo, e parte foi remetido por meio de operações ilegais, do tipo dólar-cabo, que o próprio JULIO CAMARGO efetuou, o que caracteriza crimes contra o sistema financeiro nacional.
De fato, parte do dinheiro foi objeto de remessas oficiais que JULIO CAMARGO encaminhou ao exterior a título de supostas “disponibilidades no exterior”, em nome de sua pessoa física e de suas empresas, conforme reconheceu, juntando cópia de alguns dos contratos de câmbio (Anexo 6, Doc 1 – quanto ao restante dos contratos, está sendo pedido que os bancos informem, na cota).
As remessas foram feitas, portanto, sob justificativas falsas, como se fossem, por exemplo, para constituir investimentos no exterior, quando se destinavam a pagar propina (art. 21 da Lei 7.492/86). Citam-se algumas remessas, a título exemplificativo e probatório, por ser impossível individualizar as remessas relativas a cada pagamento prévio ou posterior, pois havia vários contratos em andamento simultaneamente e as propinas eram consideradas de modo global (itens 07 e ss., Anexo 6, Doc 1 e Doc 2291):
a) em nome próprio: por quatro vezes, USD 1.000.000,00 em cada transferência, nos dias 19/01/2009, 08/06/2009, 15/09/2009 e 10/11/2009; USD 500.000, em 21/01/2009; USD 100.000,00, em 18/03/2009, para a conta 0835-579830-62 no Credit Suisse;
b) em nome próprio, USD 100.000,00, em 29/05/2009, e USD 700.000,00, em 24/11/2009, para a conta 7957122869 de Old Friends Inc. no Wells Fargo Bank nos Estados Unidos; e c) em nome da TREVISO EMPREENDIMENTOS LTDA, USD 2.000.000,00 em 23/01/2009, e três remessas de USD 1.000.000,00 em 27/01/2009, 17/03/2009 e 24/03/2009, para a conta 291Extraído do evento 27, INF3 e INF4, dos autos 5073441-38.2014.404.7000.
4835-1305484-22 da Piameonte Investment Corp., no Credite Suisse.
Conforme documentos contidos nos autos (Anexo 5, Docs 1 e 2292), entre
01/08/2005 e 06/09/2012, JULIO CAMARGO remeteu ao exterior o valor de USD 28.614.408,87, equivalente a R$ 55.677.697,50, dentre os quais estava boa parte do dinheiro da propina remetida.
Outra parte dos recursos foi remetida por meio de operações de dólar- cabo293, engendradas e executadas por JULIO CAMARGO. De fato, como este reconheceu,
os valores usados para os pagamentos no exterior “não necessariamente partiram dos recursos que recebeu do Consórcio, visto que sempre possuiu disponibilidade financeira elevada em suas contas no exterior.” (Anexo 31). Foi assim que boa parte dos pagamentos feitos no exterior das propinas, que tinham como contrapartida os recebimentos no Brasil de valores do CONSÓRCIO INTERPAR, foram feitos sem que o dinheiro saísse do Brasil pelo sistema financeiro oficial, sendo remetido de modo informal, sem declaração às autoridades competentes, por meio de operação de compensação privada de créditos do tipo dólar-cabo, configurando evasão proibida de dinheiro do país e lavagem de recursos 292Extraídos do evento 27, inf3 e inf4, dos autos 5073441-38.2014.404.7000.
293“O Sistema Dólar-Cabo (Euro-Cabo) é uma expressão brasileira de um sistema antigo e mundial, alternativo e paralelo ao sistema bancário ou financeiro “tradicional”, de remessa de valores, através de um sistema de compensações, o qual tem por base a confiança. Podem-se citar três espécies de operações típicas complementares bastante encontradas em investigações criminais: na primeira, um cliente entrega, em espécie ou por transferência bancária, reais a um “doleiro” no Brasil, o qual disponibiliza moeda estrangeira equivalente, em taxa pré-ajustada, em favor do seu cliente, no exterior, em reais ou por transferência bancária; na segunda, o cliente recebe do “doleiro”, no Brasil, em reais, recursos em moeda estrangeira que mantinha no exterior e que disponibilizou lá fora ao “doleiro”; na terceira, o “doleiro” aproveita a existência simultânea de clientes nas duas posições anteriores e determina a troca de recursos entre esses clientes, no Brasil e no exterior, atuando como um “banco de compensações” (clearing), isto é, movimentando recursos sem que nada passe por contas de sua titularidade. Isso se torna mais complexo quando mais de um “doleiro” entram em ação empresando entre si recursos, ou harmonizando clientes em posições opostas, numa mesma operação. Ao operar nesse sistema, é comum que o “doleiro” mantenha conta no exterior em nome de uma empresa off-shore por ele controlada. Sistemas semelhantes existem por todo o mundo, como o hawala na Índia, Paquistão e Irã, ou ainda o sistema chop, chit ou flying money, os quais, quando não são legítimos ou reconhecidos pelos países em que operados, são categorizados como underground banking. O dólar-cabo ou euro-cabo é um sistema muito procurado, no Brasil, para lavagem de ativos, uma vez que não existe um controle ou informação das Autoridades Públicas sobre as operações. A atuação de “doleiros” no sistema de dólar-cabo caracteriza vários crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e pode caracterizar lavagem de dinheiro.” Fonte: http://gtld.pgr.mpf.gov.br/gtld/lavagem-de-dinheiro/glossario/glossario-sobre-lavagem-de- dinheiro e arquivo pessoal de um dos subscritores desta denúncia, que redigiu a definição. Bancos, quando remetem recursos oficialmente, efetuam operações de compensação financeira semelhantes às operações de dólar-cabo, contudo legais porque existe o registro das transações que permite o rastreamento dos ativos. Todo ingresso ou egresso de recursos no país, de acordo com o RMCCI (Regulamento do Mercado de Câmbio e Capitais Internacionais) do Banco Central, deve ser feito mediante bancos da rede comum autorizada. Essas operações de dólar-cabo não saem e entram por meio de bancos, mas são compensações informais propícias à lavagem, por quebrarem e esconderem o rastro do dinheiro, constituindo evasão de divisas e, quando provado crime antecedente, lavagem de dinheiro.
por dificultar, extremamente, o rastreamento do dinheiro.
Em seguida, valendo-se, portanto, de remessas feitas ao exterior baseadas em motivos falsos, e de disponibilidades que já detinha em contas fora do país, JULIO CAMARGO efetuou pagamentos em favor da conta de nº 1009485285, mantida no Deutsche Bank AG em Frankfurt pela offshore (empresa de fachada) MARANELLE INVESTMENTS INC., controlada por MARIO GOES. De fato, conforme comprovado pelo colaborador (Anexo 31), foram feitos os seguintes pagamentos em favor da conta MARANELLE:
ORIGEM DESTINO DATA VALOR USD