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CAPÍTULO III – CONTRATO DE TRABALHO INTERMITENTE

3.2. CONTRATO DE TRABALHO INTERMITENTE

intermitente, nos moldes em que foi proposto pela Lei da Reforma Trabalhista, estabelece que o período de inatividade não será considerado tempo à disposição do empregador, por isso não será remunerado, conforme disposto no art. 452-A, §5º, da CLT.

Constata-se, assim, que se a intenção do legislador foi se inspirar nas legislações europeias para supostamente modernizar as relações contratuais trabalhistas brasileiras, de fato importou apenas a parte mais desvantajosa de tal modalidade de contrato, o que reflete, na verdade, o propósito da Lei da Reforma Trabalhista de atender prioritariamente demandas patronais.

Os defensores da modalidade de contrato intermitente apontam outros aspectos supostamente positivos dessa contratação, como a criação de vários postos de trabalho e o aumento das possibilidades de “obtenção do primeiro emprego, especialmente para os estudantes, que poderão adequar as respectivas jornadas de trabalho e de estudo da forma que lhes for mais favorável”93.

Ora, na prática, conforme aludido na nota técnica n. 01 redigida pelo Ministério Público do Trabalho, a instituição da modalidade de trabalho intermitente não criará empregos, pelo contrário, tal modalidade inclina-se a transformar os postos de trabalho em empregos mais precários e a ampliar o número de trabalhadores desempregados. Para mais, a pesquisa realizada pela Organização Internacional do Trabalho, “Emprego mundial e perspectiva sociais 2015: a natureza cambiante do trabalho”, constata que a diminuição na proteção dos trabalhadores não incentiva a criação de empregos e não é capaz de reduzir a taxa de desemprego94. Demonstrando, assim, falhas na justificação da adoção da modalidade de contrato intermitente.

inseriu novo §3º neste artigo, bem como introduziu o art. 452-A na CLT, preceituando nova modalidade de contratação no Direito do Trabalho brasileiro, o chamado trabalho intermitente, observe-se:

“Art. 443. O contrato individual de trabalho poderá ser acordado tácita ou expressamente, verbalmente ou por escrito, por prazo determinado ou indeterminado, ou para prestação de trabalho intermitente.

[...]

§ 3º Considera-se como intermitente o contrato de trabalho no qual a prestação de serviços, com subordinação, não é contínua, ocorrendo com alternância de períodos de prestação de serviços e de inatividade, determinados em horas, dias ou meses, independentemente do tipo de atividade do empregado e do empregador, exceto para os aeronautas, regidos por legislação própria.

Art. 452-A. O contrato de trabalho intermitente deve ser celebrado por escrito e deve conter especificamente o valor da hora de trabalho, que não pode ser inferior ao valor horário do salário mínimo ou àquele devido aos demais empregados do estabelecimento que exerçam a mesma função em contrato intermitente ou não.

§ 1º O empregador convocará, por qualquer meio de comunicação eficaz, para a prestação de serviços, informando qual será a jornada, com, pelo menos, três dias corridos de antecedência.

§ 2º Recebida a convocação, o empregado terá o prazo de um dia útil para responder ao chamado, presumindo-se, no silêncio, a recusa.

§ 3º A recusa da oferta não descaracteriza a subordinação para fins do contrato de trabalho intermitente.

§ 4º Aceita a oferta para o comparecimento ao trabalho, a parte que descumprir, sem justo motivo, pagará à outra parte, no prazo de trinta dias, multa de 50% (cinquenta por cento) da remuneração que seria devida, permitida a compensação em igual prazo.

§ 5º O período de inatividade não será considerado tempo à disposição do empregador, podendo o trabalhador prestar serviços a outros contratantes.

§ 6º Ao final de cada período de prestação de serviço, o empregado receberá o pagamento imediato das seguintes parcelas:

I - remuneração;

II - férias proporcionais com acréscimo de um terço;

III - décimo terceiro salário proporcional;

IV - repouso semanal remunerado; e V - adicionais legais.

§ 7º O recibo de pagamento deverá conter a discriminação dos valores pagos relativos a cada uma das parcelas referidas no § 6º deste artigo.

§ 8º O empregador efetuará o recolhimento da contribuição previdenciária e o depósito do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, na forma da lei, com base nos valores pagos no período mensal e fornecerá ao empregado comprovante do cumprimento dessas obrigações.

§ 9º A cada doze meses, o empregado adquire direito a usufruir, nos doze meses subsequentes, um mês de férias, período no qual não poderá ser convocado para prestar serviços pelo mesmo empregador.”95

No entanto, o trabalho intermitente provoca grave deficiência de eficácia dos direitos fundamentais, porquanto não leva em consideração noções que integram o significado histórico da clássica relação de emprego, e que têm por função conferir

95 SARAIVA, Renato; LINHARES, Aryanna; TONASSI, Rafael. CLT: Consolidação das Leis do Trabalho. 22. ed. rev. e atual. Salvador: Juspodivm, 2018.

aos trabalhadores maior densidade de proteção social96, principalmente a noção de duração do trabalho (e de jornada) e a noção de salário97.

A desestruturação desses elementos implica profunda fragilidade do valor trabalho na economia e sociedade brasileiras98, sujeito às seguintes repercussões deletérias, entre outras:

a) Estimular os bons empregadores a precarizarem o seu plano de contratação trabalhista tão logo os concorrentes iniciarem a prática do trabalho intermitente99;

b) Flexibilizar a utilização do tempo de vida do trabalhador em favor da empresa100, através de uma jornada móvel e variável, repercutindo assim na inviabilização de um planejamento do obreiro quanto ao uso de seu tempo livre – já que, de certa forma, resta permanentemente “à disposição”

do empregador;

c) Permitir o avanço da remuneração variável (sem a garantia do salário mínimo legal); e

d) Permitir a inversão do eixo do risco do negócio, sujeitando o trabalhador (e não o empregador) às vicissitudes do mercado.

Por força dessas e de outras consequências deletérias sobre a efetividade do padrão constitucional de proteção ao trabalho (art. 7º, I, da CF/88) e, também, pelo princípio da vedação ao retrocesso dos direitos sociais (art. 7º, caput, da CF/88), o trabalho intermitente pode ser considerado inconstitucional.

No trabalho intermitente “o trabalhador é remunerado pelas horas efetivamente trabalhadas, não havendo ajuste prévio da quantidade mínima de horas a serem

96 SOUZA, Geraldo Emediato [et al.]. Prestação de serviços a terceiros e figuras associadas:

análise face à nova regulamentação. Brasília: Gráfica Movimento, 2017, p. 9.

97 DELGADO, Mauricio Godinho; DELGADO, Gabriela Neves. A reforma trabalhista no Brasil: com os comentários à Lei n. 13.467/2017. São Paulo: LTr, 2017, p. 154.

98 DELGADO, Mauricio Godinho; DELGADO, Gabriela Neves. A reforma trabalhista no Brasil: com os comentários à Lei n. 13.467/2017. São Paulo: LTr, 2017, p. 156.

99 Idem.

100 KREIN, José Dari; GIMENEZ, Denis Maracci; SANTOS, Anselmo Luis dos (Orgs.). Dimensões críticas da reforma trabalhista no Brasil. Campinas, SP: Curt Nimuendajú, 2018, p. 15.

cumpridas em cada mês e do valor remuneratório mensal mínimo a ser percebido”101. Ou seja, o trabalhador pode ou não ser requisitado pelo empregador para a efetiva prestação de serviços, repercutindo em insegurança tanto em relação ao uso do tempo quanto em relação à renda auferida.

A forma de contratação do trabalho intermitente deve ser por escrito e registrado na CTPS. Nas anotações deve constar o valor da hora atividade, respeitado o valor horário do salário mínimo ou aquele devido aos demais empregados do estabelecimento que exerçam a mesma função em contrato intermitente ou não (art.

452-A, caput, CLT).

O empregador deverá avisar ao empregado da convocação para prestar serviços, com a informação da jornada, com pelo menos três dias corridos de antecedência (art. 452-A, §1º, CLT). O trabalhador terá um dia útil para responder ao chamado, caso não responda, presume-se a recusa (art. 452-A, §2º, CLT). A recusa é possibilidade aberta ao empregado, não descaracteriza a subordinação, e não configura infração trabalhista (art. 452-A, §3º, CLT)102.

Contudo, como anteriormente pontuado, é possível que o obreiro receie em ser preterido ante demais colegas de trabalho caso recuse uma convocação. Algo particularmente previsível em um cenário de mercado de trabalho com altas taxas de desemprego, no qual o receio pela preterição ou mesmo dispensa pode se apresentar como determinante para uma sujeição absoluta do obreiro ao seu empregador – o que, associado com a instabilidade dos chamados, repercutiria na transformação de uma grande parte (para não dizer a totalidade) de seu dia em tempo à disposição.

Seguindo-se as alterações: a parte que descumprir o contrato de trabalho intermitente pactuado, sem justo motivo, pagará à outra parte, no prazo de trinta dias, multa de 50% (cinquenta por cento) da remuneração que seria devida, permitida a compensação em igual prazo (art. 452-A, §4º, CLT).

O período de inatividade do trabalhador não configura tempo à disposição do empregador, portanto, não ocasiona obrigação de contraprestação remuneratória

101 MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO. Nota técnica n. 01, de 24 de janeiro de 2017, da Secretaria de Relações Institucionais do Ministério Público do Trabalho (MPT), subscrita pelo Dr. Ronaldo Curado Fleury, Procurador Geral do Trabalho.

102 DELGADO, Mauricio Godinho; DELGADO, Gabriela Neves. A reforma trabalhista no Brasil: com os comentários à Lei n. 13.467/2017. São Paulo: LTr, 2017, p. 156.

nesse intervalo, permitindo ao trabalhador prestar serviços a outros contratantes (art.

452-A, §5º, CLT).

O pagamento das verbas é realizado ao final de cada período de prestação de serviços, assim o empregado receberá o pagamento imediato das seguintes parcelas:

remuneração; férias proporcionas com acréscimo de um terço; décimo terceiro salário proporcional; repouso semanal remunerado; e adicionais legais (art. 452-A, §6º, CLT).

O recibo de pagamento terá de ter a discriminação dos valores pagos relativos a cada uma das parcelas referidas no §6º do artigo (art. 452-A, §7º, CLT).

A doutrina de Mauricio Godinho Delgado e Gabriela Neves Delgado aponta que o rol do §6º do art. 452-A da CLT não é taxativo, pois outras parcelas podem incidir em benefício do trabalhador intermitente institucionalmente precarizado. Assim lecionam:

“Ilustrativamente, sendo noturno o trabalho prestado, caberá se respeitar a hora ficta e se realizar o pagamento da hora noturna (art. 7º, IX, CF; art. 73, caput e §1º, CLT). Da mesma maneira, se o tipo de trabalho ou circunstância laborativa ensejar a incidência de qualquer outra regra jurídica ou dispositivo conexo, será devida a respectiva parcela (adicional de insalubridade, adicional de periculosidade; etc.). Evidentemente que também o Vale Transporte é devido a esse trabalhador, relativamente a todos os dias em que for convocado para o trabalho, haja ou não trabalho efetivo (art. 1º da Lei n.

7.418/1985, conforme redação promovida pela Lei n. 7.619/87).” 103

O art. 452-A, §8º, da CLT, dispõe que o empregador terá de efetuar obrigatoriamente o recolhimento da contribuição previdenciária e o depósito do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, com base nos valores pagos no período mensal e deverá oferecer ao empregado comprovante do cumprimento dessas obrigações.

No que tange às férias, o art. 452-A, §9º, da CLT, estabelece que a cada doze meses o empregado terá direito a usufruir, nos dozes meses subsequentes, um mês de férias e não poderá ser convocado para prestar serviços pelo mesmo empregador.

Nesse ponto, a doutrina de Mauricio Godinho Delgado e Gabriela Neves Delgados, destaca que só se pode admitir o pagamento das férias de trinta dias com o terço constitucional, conforme o art. 7º, XVII, da Constituição, “assegurado o cálculo

103 DELGADO, Mauricio Godinho; DELGADO, Gabriela Neves. A reforma trabalhista no Brasil: com os comentários à Lei n. 13.467/2017. São Paulo: LTr, 2017, p. 157.

de seu montante pela média mensal dos salários nos meses componentes do período aquisitivo, respeito o piso do salário mínimo mensal”104.

Verifica-se, assim, que a proposta dessa modalidade de contratação é, com grande propriedade, a “utilização da força de trabalho em um modo just-in-time, com menor nível de direitos e proteção social”105. Modulam-se disposições trabalhistas eminentemente de acordo com a demanda e interesse do empregador, flexibilizando-se preceitos relacionados à jornada de trabalho e ao salário – flexibilizando-sem, contudo, qualquer contrapartida ou perspectiva de vantagens ao empregado.