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2 O DIREITO DE PROPRIEDADE

2.2 Contratos a partir do Direito de Propriedade

Para serem realizadas as diversas transações no mercado, os contratos são usados como instrumentos que definirão os termos da negociação entre os particulares, visto que as leis, as normas e os regulamentos definirão os limites para que sejam considerados válidos. Assim, as partes inserem seus direitos e deveres nos contratos, que se de acordo com a legislação serão considerados válidos. Nesses direitos estão incluídos os direitos de propriedade que podem ser negociados entre as partes.

Anuatti Neto (2004) esclarece que ao se atribuir direitos, os titulares dos ativos têm autoridade para escolher o uso específico que desejam, dentre uma classe de usos possíveis e não proibidos, e também podem impedir que outros tenham acesso a esses recursos, ou seja, deixam determinada atribuição, exclusiva ao titular.

Esta possibilidade de comando sobre o ativo que o titular ou detentor, possui comporta três categorias de direitos conforme esclarece Anuatti Neto (2004): o direito de uso, o direito de exploração e o direito de alienação. O direito de uso dá ao titular poder de decidir como irá usufruir, transformar, ou até mesmo, destruir o ativo; o direito de exploração permite que o titular decida como auferirá renda do ativo, se explorasse diretamente, ou se contratasse outros para fazê-lo, e por fim o direito de alienação, o qual dá a possibilidade do titular transferir o ativo de forma definitiva a outros.

O fato é que ao se atribuir direitos de uso, de exploração e de alienação ao mesmo titular pode-se falar em direito de propriedade plena, isto é, o titular poderá usar, explorar e alienar o ativo conforme sua necessidade e desejo. É difícil, contudo, encontrar titulares que tenham a propriedade plena de um bem, pois muitas vezes o Estado exerce a titularidade “de fato” sobre os ativos ou sobre parte deles, ou até outras entidades exercem em conjunto a titularidade desses ativos, ou há livre acesso da sociedade ao uso desses ativos. Assim, quanto maior for a garantia estatal ao titular de direitos exclusivos de propriedade, maior será o valor do ativo (ANUATTI NETO, 2004), aumentando seu poder na negociação, conforme será visto no próximo capítulo.

O direito de propriedade também pode ser compartilhado, englobando o direito de uso e exploração juntos. A possibilidade de sua realocação e transferência dependerá da existência de custos de transação. Zylbersztajn e Sztajn (2005b, p. 87) esclarecem que “a realocação dos direitos de propriedade é regulada por contratos que definem os termos da troca tanto nas condições do uso do recurso quanto na divisão dos resultados”.

Insere-se, no contexto, a necessidade de contratar direitos de propriedade com o objetivo de compartilhamento de recursos, em que é necessária a descrição dos direitos e dos deveres de cada parte sobre os bens. Essas partes, no cenário estudado, são as organizações que podem ser chamadas conforme o enfoque de Coase (1937) firmas contratuais (ZYLBERSZTAJN; SZTAJN, 2005a)

A terminologia bem, pelo qual se tem a propriedade, pode ser entendida como ativo e esse ativo pelo qual se tem o direito de propriedade pode ser considerado um ativo específico, aumentando a complexidade dos contratos, como no caso estudado.

Para explicar ativos específicos, Azevedo (2005, p.127) citou Williamson e Klein et al. que introduziram esse termo no “mundo da análise de contratos”.

Um ativo é considerado específico se uma fração relevante de seu retorno depende, para a sua realização, da continuidade de uma transação específica. Nos casos em que os ativos são específicos, as partes dependem de suas contrapartes para obter o ganho que imaginavam por ocasião da realização do investimento. Configura-se, portanto, uma relação de dependência econômica, sendo a especificidade dos ativos a magnitude dessa dependência (AZEVEDO, 2005, 127).

O autor continua sua idéia quando se volta para a problemática da dependência econômica, pois as partes não têm a capacidade de prever todas as possíveis contingências e incorporar as respectivas garantias na formação dos contratos, tornando-os incompletos. Isto se deve ao fato dos indivíduos possuírem uma racionalidade limitada, isto é, os indivíduos possuem limites cognitivos dificultando o processamento de informações e a solução de problemas complexos, além das assimetrias de informações presentes.

As assimetrias de informações devem-se ao fato de nos contratos incompletos, os contratantes não possuírem todas as informações acerca do objeto negociado, dos direitos de propriedade envolvidos e das ações das partes, ampliando os custos da transação do negócio.

(...) em situações de dependência econômica, o contrato ultrapassa a mera transferência de direitos de propriedade e passa a representar um complexo de transações, em que os deveres não são todos explicitamente considerados, mas estão implícitos na relação econômica de interesses mútuo das partes (AZEVEDO, 2005, 128-129).

Santana (2006) ao abordar os contratos regulatórios, isto é, contratos envolvendo empresas reguladas por agências reguladoras, explica que a incompletude desses contratos, incluindo transações com ativos específicos e os efeitos sobre a performance ex-ante dos investimentos e ex-post das empresas são variáveis relevantes, no contexto. E continua ressaltando a importância do poder do governo sobre os envolvidos nesse tipo de contrato, independente de ter ou não direitos de propriedade sobre o ativo negociado. O governo, na opinião do autor, é capaz de criar instrumentos que influenciarão o desempenho ou a conduta da empresa envolvida, além da autoridade de alocar os direitos residuais.

Mostrou-se evidente a importância do governo, mas as partes deverão contratar mesmo que via contratos incompletos estabelecendo o comportamento mútuo desejado, procurando atenuar a dependência econômica. Nesse sentido, Azevedo (2005) destaca que um contrato que atenue os diversos custos das transações resulta em melhora de desempenho econômico das firmas e mercados, com implicações diretas no desenvolvimento econômico e social. Para isso a negociação, amplamente abordada no capítulo a seguir, fará com que as partes busquem coordenar suas ações, realizando ganhos coletivos, com o intuito de atenuar as assimetrias de informação.

As negociações e os conflitos estão presentes, no dia-a-dia das pessoas, desde o seu nascimento e nas organizações antes mesmo de sua formalização. As crianças choram ao nascer para negociar sua alimentação e os proprietários ou futuros sócios demandam horas de negociação para definirem a abertura de uma empresa. Desta forma, evidenciam-se os ambientes familiar, social ou organizacional como contextos de negociações, em que as pessoas estão interagindo para obtenção de informações, recursos, bens, serviços etc.

Este trabalho está centrado no ambiente organizacional, inserido em um contexto de regulação econômica, em que há a presença de diferentes agências, apresentando-se, mais complexo que os demais, devido ao grande número de interesses envolvidos, abrangendo empresas de diferentes setores (energia elétrica, telecomunicações, petróleo, gás natural e biocombustíveis), usuários, governo, gestores, isto é, visualiza-se a necessidade da negociação atender aos diversos interesses públicos e privados.

Citando Ury (2005) verifica-se que caiu em desuso a negociação como instrumento exclusivo de obtenção de vantagem, atendendo aos interesses de apenas um dos lados, pois a necessidade de cooperação em razão das parceiras e dos contratos de longo prazo está cada vez mais presente no ambiente de negócios. “No século XXI, o diferencial para competitividade resulta paradoxalmente, da habilidade de cooperar – cooperar até mesmo com os concorrentes ou aqueles com quem eventualmente tenhamos tido uma relação antagônica”.

Assim, as negociações no ambiente organizacional passam a ter maior relevância em função dos interesses envolvidos presentes nos acordos diários celebrados, nas parcerias e contratos formalizados, e nos conflitos solucionados. Quando o assunto é o compartilhamento de recursos, os conflitos são inevitáveis e a negociação surge como forma pacífica de solucioná- los, exigindo dos negociadores, habilidades básicas que garantam relações duradouras.