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1.3. Trabalho e emprego de professores

1.3.1. Contratos de Trabalho

A partir de 2007, o professorado paulista foi submetido a mudanças nos contratos de trabalho,conforme pode ser observado no Quadro I, acima. Foram inúmeras alterações legais que contribuíram para precarizar, ainda mais, o trabalho docente.

Os contratos temporários no setor público não são novidade, os governos sempre se utilizaram desses trabalhadores e trabalhadoras para substituir professores e professoras, seja em licenças ou em vacância de cargos. Os professores e professoras temporários não são ocupantes de cargo, mas de funções. Os cargos são ocupados somente por professoras e professores efetivos, ou seja, que realizaram e foram aprovados em concursos públicos.

Quando da aprovação da Lei Complementar 1010/2007, que criou o São Paulo Previdência (SPPrev36), em substituição ao IPESP (Instituto de Previdência do

36 São Paulo Previdência, autarquia que administra a previdência dos servidores públicos

estaduais de São Paulo.

OFA (estabilidade) Contrato Por Tempo Determinado (Categoria O) Professor/a Eventual Processo Seletivo (Título) Processo Seletivo (Título) Processo Seletivo (Título) Ter aula atribuída Ter aula atribuíd a Trabalha na ausência de professor es/as Progressão por mérito (prova) e evolução acadêmica ou não acadêmica Sem Progressão e sem evolução Sem Progressão e sem evolução Tempo de Contribuição e idade mínima, sendo 25/50 para professora e 30/55 para professor (SP Prev) Tempo de Contribuição e idade mínima, sendo 25/50 para professora e 30/55 para professor (RGPS)

Estado de São Paulo), havia 101.813 (46,10%) professores e professoras não efetivos – contratados pela lei 500/197437 - trabalhando em escolas públicas.

Dentre esses professores e professoras não efetivos (contratados pela Lei 500/1974), havia dois tipos de contratos, os que possuíam estabilidade, conferida pela Constituição Federal de 1988 (categoria P), e os que não a possuíam. Por ocasião da LC 1.010/2007, aquelas professoras e professores que tinham aulas atribuídas, que ocupavam um posto de trabalho em uma escola, conquistaram a estabilidade e passaram a ser denominados de “Categoria F”. Essas professoras e professores mantiveram o direito ao regime próprio de previdência dos servidores públicos estaduais38.

A L.C. 1010/2007 conferiu estabilidade aos professores que tenham sido admitidos até a data da publicação daquela lei complementar (02/06/2007), nos termos da Lei nº 500/74 (categoria “F”). Assim, estes profissionais não podem ser dispensados, salvo no caso de pedirem ou incorrerem em infrações disciplinares. Na hipótese de não lograrem atribuição de aulas, serão remunerados por doze horas aulas semanais, devendo cumpri-las na unidade escolar. (APEOESP, Manual do Professor, p. 24)

Foram ainda criadas duas novas categorias de “ocupantes de função atividade”, isto é, de professoras e professores com contratos temporários: “Categoria S” - Docentes com vínculo contratual, após a promulgação da Lei Complementar 1.010/2007 e antes de Lei Complementar 1.093/2009 -; e “Categoria L” - Docentes com aulas atribuídas após promulgação da Lei Complementar 1.010/2007 e antes de Lei Complementar 1.093/2009 -. Essas categorias eram compreendidas como transitórias, por dois anos, e já surgem sem o direito ao regime próprio de previdência dos servidores públicos estaduais. Em

37 Lei 500, de 13/11/1974, institui o regime jurídico de servidores públicos estaduais admitidos em

caráter temporário (ACT).

38 O primeiro projeto do governo, de criação do São Paulo Previdência (SPPrev), previa a

demissão de todos os trabalhadores e trabalhadoras não efetivos. Ocorreram manifestações por vários dias, principalmente de professores e professoras, o que fez o governo de São Paulo assinar um termo com o Ministério da Previdência, com anuência do Ministério Público, que garantiu a estabilidade aos trabalhadores e trabalhadoras estaduais contratados pela Lei 500/74, que tivessem vínculo empregatício com o estado em 02 de junho de 2007.

2009, a Lei 1. 093 possibilitou a demissão desses profissionais e sua recontratação em novas bases.

A Lei Complementar 1.093, de 16 de julho de 2009, redefine a contratação por tempo determinado (temporários) de servidores públicos estaduais, retirando diversos direitos, como o de participar do regime de previdência dos servidores públicos estaduais. Os professores – “categoria S e L” – são demitidos e recontratados como “categoria O”, e os professores “categoria F”mantêm os direitos conquistados em 200739.

O professor – “categoria O”- com contrato temporário, nos termos da Lei Complementar 1093/2009, não tem direito ao atendimento médico-hospitalar conferido pelo Instituto de Assistência Médica dos Servidores Públicos Estaduais (IAMSPE), assim como não tem direito ao regime geral de previdência do setor público estadual, pois está vinculado, para fins previdenciários, ao Instituto Nacional de Seguro Social (INSS). Entre um contrato e outro, por tempo determinado de três anos, há um interstício de 40 dias (Lei Complementar 33/2017); esse prazo já foi de 200 dias (2009) e de 180 dias (2011) 40. Os contratos

são válidos durante o período letivo, podendo ser suspenso ao final do ano letivo ou a qualquer momento, na ausência de aulas. Em dezembro de 2010, eram 15.416 contratos temporários – “categoria O” -, saltando, em dezembro de 2013, para

39 Lei Complementar n 1093/09 - DISPOSIÇÕES TRANSITÓRIAS - Artigo 1º - Aos servidores

ocupantes de funções de docente abrangidas pelo disposto no § 2º do artigo 2º da Lei complementar nº 1.010, de 1º de junho de 2007, será assegurada a atribuição de carga horária equivalente a 12 (doze) horas semanais de trabalho, composta por 09 (dez) horas em atividades com alunos e 03 (três) horas de trabalho pedagógico sendo 01 (uma) hora na escola, em atividades coletivas e 02 (duas) horas de livre escolha.

40 Os trabalhadores e trabalhadoras em educação efetivos e com estabilidade podem gozar de 6

faltas abonadas por ano enquanto os trabalhadores em educação categoria O, apenas 2 faltas abonadas durante a vigência do contrato. Os trabalhadores em educação efetivos e com estabilidade podem ter 24 faltas justificadas ao ano, sendo 12 justificadas pela escola e 12 pela diretoria de ensino, enquanto que os trabalhadores em educação categoria O têm direito a 3 faltas, sendo que, ao exceder o limite, responderá processo e poderá ter o contrato encerrado. Em uma categoria majoritariamente feminina, chega a ser perverso que professoras contratadas como categoria O tenham 4 meses de licença maternidade, em detrimento dos 6 meses para as demais professoras.

61.880 contratos temporários. Em dezembro de 2018, havia 30.234 contratos temporários41.

Para além desses contratos temporários, no setor público, área da educação, há, desde 2009, professores e professoras eventuais ou intermitentes – “categoria V” -. Esse professor ou professora, assim como as professoras e professores temporários, não tem o direito aos serviços médicos hospitalares e nem ao regime de previdência dos servidores públicos estaduais. Como trabalhador intermitente, essa professora e esse professor ficam à disposição da escola para trabalhar, caso haja ausência de alguma professora ou professor, e é remunerado pelas aulas trabalhadas. A formação profissional exigida para os contratos temporários e intermitentes são semelhantes.

O Decreto nº 24.948/86, em seu artigo 10, trata da substituição docente nos impedimentos eventuais de titular de cargo ou ocupante de função atividade, por período de 1 (um) até 15 (quinze) dias. Estas disposições aplicam-se aos admitidos como substitutos eventuais nos termos da Lei nº 500/74 até 15 de julho de 2009. Após essa data, o docente eventual vincula-se ao serviço público nos termos do regime jurídico instituído pela LC nº 1.093/2009 (Manual do Professor, Apeoesp, 2015, p. 57).

Os diferentes contratos de trabalho – efetivos, estáveis, temporários e intermitentes – constroem hierarquias entre os professores e as professoras, não só salariais e contratuais, mas de identidades profissionais. Para o mesmo trabalho e responsabilidades, são construídas diferentes condições de trabalho, o que promove maior precarização42 do trabalho e do emprego.

41 Dados do CGRH (Coordenadoria Geral de Recurso Humanos), tabulados pelo DIEESE

(Departamento Intersindical de Estudos Sócios Econômicos), subseção da APEOESP. Esse tema será desenvolvido no capítulo II.

42 De acordo com Mészáros (2002), estamos diante de um ataque à classe dos trabalhadores em

todo o mundo que se revela, de um lado, no desemprego crônico em todos os campos de atividade, disfarçados como práticas trabalhistas flexíveis (eufemismo para a política de precarização da força de trabalho) e para a máxima exploração administrável do trabalho em tempo parcial, e, de outro, numa redução significativa do padrão de vida até mesmo dos trabalhadores em ocupações de tempo integral. (FERNANDES, D.C. Precarização do trabalho. In: OLIVEIRA, D.A.; DUARTE, A.M.C.; VIEIRA, L.M.F. DICIONÁRIO: trabalho, profissão e condição docente. Belo Horizonte: UFMG/Faculdade de Educação, 2010. CDROM - https://www.gestrado.net.br/pdf/330.pdf

Essa mudança nas relações de trabalho apresenta reflexos nos modos de pensar e fazer a docência na escola pública paulista. Há diferentes clivagens na escola: entre as professoras e professores, entre as consideradas “não professoras e não professores” (intermitentes) e entre os estáveis e/ou efetivos e temporários. No trabalho de campo, foi possível ouvir de jovens professores e professoras, com contratos temporários e que pretendem realizar concurso público, que as vagas em concursos são limitadas por “culpa” dos professores e das professoras “categoria F” (estáveis sem concurso público). As aulas desses professores e professoras não são contabilizadas para criação de novos cargos43.

1.3.2. Para além dos contratos, as formas de contratação

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