A natureza da proposição do presente estudo sugere importante contribuição acadêmica à medida que procura desenvolver um modelo teórico para o entendimento da dinâmica de funcionamento da organização universitária na perspectiva de seus integrantes. Ao considerar que os fatores determinantes da gestão da universidade estão baseados em aspectos subjetivos da realidade e que esta é função da percepção de cada agente social, relativiza-se sobremaneira o papel de instrumentos prescritivos como determinantes centrais deste tipo de organização.
Pretender restringir e otimizar o processo decisório a partir do estabelecimento de relações perfeitas de causa e efeito é, senão uma postura ingênua do pesquisador, uma presunção em detrimento de décadas de estudos da dinâmica organizacional.
A ascensão do ensino superior no Brasil como um empreendimento empresarial trouxe consigo uma forte tendência de busca de eficiência, esta entendida como a otimização na relação entre recursos despendidos e resultados gerados. Nesse contexto, a discussão sobre a avaliação do ensino superior emergiu com destaque no cenário nacional, acalentando em muitos a esperança de uma total reformulação da dinâmica de ação social destas organizações e a concepção de uma metodologia que conseguisse determinar o comportamento na universidade.
No bojo deste debate e oriundo de um retumbante sucesso junto ao meio empresarial, o balanced scorecard tem buscado constituir-se também na organização universitária em um instrumento à otimização das estratégias (MONTEIRO PESSOA, 2000) e articulação dos vários esforços e frentes de ação. Rocha (2000), Lima (2003) e Olve et al.(1999), corroboram esta idéia ao indicarem que, pelo fato de buscar um equilíbrio entre indicadores financeiros e não financeiros, é nas organizações sem fins lucrativos que a metodologia tem maior potencial de aplicação.
A originalidade do presente estudo está em propor a utilização dos conceitos fundamentais do balanced scorecard na organização universitária a partir da crítica a um de seus principais sustentáculos, a construção de indicadores de performance calcados na determinação de relações de casualidade, aspecto não tratado nas pesquisas anteriores. O estabelecimento de relações de conseqüência exatas pressupõe, conforme afirma Sguissardi (1997), objetivos claros e consensuais, tecnologias certas e estáveis, consistência e conexão entre planejamento e ação, políticas e resultados, e muitas vezes ignora o sentido específico da atividade universitária, que repousa na liberdade e autonomia acadêmica de decidir por si só o que e como ensinar, o que e como pesquisar. Isto constitui a verdadeira essência e pedagogia da universidade.
A partir da adequação da dinâmica de construção do modelo em estudo à realidade da organização universitária, as características intrínsecas do modelo, principalmente nos aspectos relacionados à explicitação das grandes orientações estratégicas percebidas pela comunidade acadêmica, poderão ter um impacto
positivo sobre a coalizão interna de objetivos e a efetividade organizacional, como sugerem Bowman e Ambrosini (1997). Ao integrar o modelo cibernético de organização da dinâmica da universidade relatado por Birnabaum (1988) com a metodologia do balanced scorecard proposta por Kaplan e Norton (1997, 2001), esta pesquisa contribui no desenvolvimento de uma metodologia singular de entendimento da realidade acadêmica em um contexto de autogestão.
Pelas observações pessoais do autor desta investigação, há vários anos atuando no apoio à gestão universitária, constata-se uma expressiva carência de instrumentos de suporte à decisão, especificamente no que concerne à geração de informações, compatíveis com as peculiaridades deste tipo de organização. Percebe-se, também, um crescimento significativo do papel deste modelo de universidade na formação superior clássica, nos programas de aperfeiçoamento e, nos últimos anos, em programas de pesquisa, conduzidos isoladamente ou em conjunto com outras instituições nacionais ou internacionais.
As características do modelo de gestão e a multiplicidade de objetivos que perpassam toda a estrutura organizacional da Universidade ampliam seu foco competitivo. Deve-se considerar que em muitos objetivos a competitividade não se dá pela busca e manutenção de uma posição privilegiada diante de outras instituições, mas em função da capacidade de articulação e busca de coerência interna. O estilo de gestão descentralizado que tem ainda, na cúpula diretiva, a gestão colegiada, exige que existam instrumentos de suporte que permitam, de modo concomitante, decisões ágeis e articuladas ou, no mínimo, que considerem o
conjunto de objetivos a serem conduzidos e que disputam o mesmo montante de recursos escassos (financeiros, humanos e tecnológicos).
Entende-se, ainda, que uma das contribuições relevantes da pesquisa é sua metodologia de consecução que, ao tomar como parâmetro motivador inicial à análise do entendimento dos atores sobre as possibilidades e condicionantes do modelo autogerido e da finalidade da Universidade, conduziu o estudo vendo nos indicadores ou variáveis essenciais os elementos operativos do processo comunicativo, que constitui a “alma” da autogestão nessas organizações. Identificar estes elementos operativos significa esclarecer e estabelecer o canal de comunicação entre os vários agentes organizacionais na universidade, integrando seus colaboradores internos, as instâncias de decisão e a sociedade.
O processo de investigação deixou transparecer com bastante clareza que não tem sido por falta de informações ou instrumentos de apoio à gestão que a autogestão não apresentou avanços administrativos, ainda, maiores e ainda tem dificuldades em operar com o conceito de gestão por resultados. A carência está na existência de informações ou instrumentos considerados legítimos pela academia e tecnicamente consistentes por seus gestores, fatores bastante presentes na metodologia adotada. Neste aspecto, a metodologia de investigação utilizada, tendo como referência a técnica Delphi, como mecanismo de identificação e validação dos indicadores essenciais e fatores de influência em um modelo referenciado no
balanced scorecard, constitui-se igualmente em uma contribuição original e que se
mostrou bastante adequada às peculiaridades da organização e objetivos do estudo. Pôde-se observar uma sensível redução da resistência na discussão de indicadores
de performance por parte da comunidade acadêmica, aspecto bastante latente nas investigações diretas. Desta forma, o uso da técnica Delphi em pesquisa de temas mais polêmicos apresentou um potencial bastante positivo.