A leitura prévia e cuidadosa das pesquisas analisadas permitiu a observação de sugestões e recomendações feitas pelos pesquisadores acerca das práticas pedagógicas necessárias ao atendimento das crianças diagnosticadas como disléxicas.
Os apontamentos feitos pelos pesquisadores foram compreendidos em cinco categorias, a saber: sugestões e recomendações voltadas para a atuação e a organização dos sistemas de ensino, a questão da formação dos professores, o desenvolvimento de políticas públicas, a oferta de atendimento especializado, e os processos de inclusão escolar e social.
Sobre a atuação e a organização dos sistemas de ensino, os pesquisadores apontaram que estes devem proporcionar o diagnóstico e as intervenções adequadas ao atendimento da criança com dificuldades de aprendizagem (SOUZA, 2008; SILVA, 2010); oferecer atendimento articulado à educação especial (MENEZES, 2007; SILVA, 2010; SAGLIA, 2010); promover a contratação e a participação de profissionais da saúde no
acompanhamento das crianças (SILVA, 2010; ANDRADE, 2010; GERMANO, 2011); promover adequações no currículo (MICHEL, 2009); oferecer atendimento individualizado (SOUZA, 2008); desenvolver e promover políticas públicas voltadas para o atendimento educacional de crianças com dislexia (SOUZA, 2008; SAGLIA, 2010); promover a diversificação metodológica (PONÇANO, 2007; GROFF, 2007; SOUZA, 2008; SAGLIA, 2010); adquirir e investir em recursos pedagógicos (SOUZA, 2008); promover a inclusão escolar (PONÇANO, 2007; SOUZA, 2008; SAGLIA, 2010); instituir uma equipe multidisciplinar de apoio (SOUZA, 2008); instituir avaliações diversificadas (GROFF, 2007; PONÇANO, 2007; SOUZA, 2008; SAGLIA, 2010); observar cuidados com o diagnóstico (GERMANO, 2008, 2011; FRAGELLI, 2011); promover intervenções remediativas por meio do desenvolvimento da consciência fonológica (MENEZES, 2007; DINIZ, 2007; MACHADO, 2009); promover a avaliação e a identificação precoce da dislexia (MENEZES, 2007; DINIZ, 2007; MACHADO, 2009; ANDRADE, 2010); garantir a participação de professores especialistas em educação especial no diagnóstico das crianças (MENEZES, 2007; SAGLIA, 2010); desenvolver registros detalhados sobre o atendimento das crianças (MENEZES, 2007); aplicar métodos de alfabetização que promovam o desenvolvimento da consciência fonológica (MENEZES, 2007; ANDRADE, 2010); e promover a formação continuada dos professores para o atendimento das crianças com dislexia (PONÇANO, 2007). Sobre a formação de professores, os pesquisadores afirmaram a importância deste processo para o preparo destes profissionais para o atendimento adequado das crianças com dislexia (GROFF, 2007; PONÇANO, 2007; DINIZ, 2007; SOUZA, 2008), a importância do preparo do professor desde a sua formação inicial (MENEZES, 2007; SAGLIA, 2010); e o papel da formação continuada no atendimento da diversidade em sala de aula (PONÇANO, 2007).
Em relação às políticas públicas, os pesquisadores abordaram a importância do desenvolvimento de políticas públicas que contemplem o atendimento educacional da criança com dislexia (SOUZA, 2008; SAGLIA, 2010); e para o processo de inclusão escolar destes alunos (PONÇANO, 2007; SOUZA, 2008; SAGLIA, 2010).
Sobre a oferta do atendimento especializado, os pesquisadores apontaram o papel dos sistemas de ensino para o diagnóstico e as intervenções adequadas (SOUZA, 2008; SILVA, 2010); a questão da oferta do atendimento educacional para os alunos considerados disléxicos na educação especial (MENEZES, 2007; SAGLIA, 2010; SILVA, 2010); a questão da
adequação do currículo, do atendimento individualizado e da diversificação metodológica (PONÇANO, 2007; GROFF, 2007; SOUZA, 2008; MICHEL, 2009; SAGLIA, 2010), e a inclusão de professores especialistas em educação especial no processo terapêutico (MENEZES, 2007; SAGLIA, 2010).
E sobre os processos de inclusão escolar e social, os pesquisadores afirmaram a importância da participação da família e da comunidade no acompanhamento terapêutico e na inclusão social (DINIZ, 2007; MENEZES, 2007; SILVA, 2010), e promoção da formação (inicial e continuada) de professores para a diversidade (DINIZ, 2007; GROFF, 2007; PONÇANO, 2007; MENEZES, 2007; SOUZA, 2008; SAGLIA, 2010).
Nesta distribuição, é possível observar que uma mesma sugestão/ recomendação foi enquadrada em mais de uma categoria. Isto se deu em razão da dialética das relações entre os elementos e aspectos responsáveis pelos processos educativos escolares. Neste ínterim, problematizar a atuação e a organização dos sistemas de ensino sobre o atendimento educacional das crianças diagnosticadas como disléxicas, também significa problematizar a formação dos professores, as políticas públicas educacionais instituídas, o atendimento especializado ofertado, e a maneira como os processos de inclusão escolar e social têm sido desenvolvidos.
Diante da dialética das categorias propostas, considero importante ressaltar as questões relativas à inclusão escolar e social em razão de sua abrangência, pertinência e atualidade.
Conforme os apontamentos que apresentei anteriormente em diferentes momentos deste trabalho, a promulgação da Declaração de Salamanca (BRASIL, 1994) exigiu a necessidade de se instituir e oferecer uma escola preparada para atender a todas as crianças. Logo, isto significou a necessidade de se reorganizar e reconfigurar os sistemas de ensino, promover uma formação de professores que os preparem para lidar com diversidade, garantir o desenvolvimento e a implantação de políticas que promovam acesso igualitário ao conhecimento escolar, e garantir a oferta e o acesso aos serviços de educação especializada quando necessário. Ainda segundo o referido documento, os governos, instituições e organizações são responsáveis pelo empreendimento das mudanças necessárias aos sistemas de ensino para que todas as crianças tenham condições de acesso ao conhecimento e permaneçam na escola.
Desta forma, as colocações, proposições, recomendações e sugestões apresentadas nas pesquisas analisadas denunciam que pouco tem sido feito para que todas as crianças possam aprender juntas na escola, independentemente de suas condições.
As afirmações dos pesquisadores apresentadas a seguir apontaram a ineficiência dos sistemas de ensino frente às exigências dos processos de inclusão escolar e das dificuldades de aprendizagem das crianças:
“[...] as limitações mediadas pelos fatores sociais e psicológicos são os principais determinantes na conformação de uma personalidade estigmatizada.” (GROFF, 2007, p. 120).
“[...] trata-se de um processo de rastreamento objetivando uma intervenção pedagógica compensatória, de modo que, na identificação, o importante é a utilidade da informação e sua eficácia pedagógica. É de demasiada importância a percepção do professor em virtude de sua convivência com a criança, durante os momentos explícitos de aprendizagem.” (DINIZ, 2007, p. 83, sobre os processos diagnósticos).
“O cuidado com o estudante disléxico envolve atenção individualizada, prática pedagógicas inovadoras, além da vontade de democratização do ensino por parte do professor. Por outro lado, a família e a comunidade também são cruciais para a viabilização desse processo de emancipação da autonomia dos disléxicos no espaço escolar.” (SOUZA, 2008, p. 89).
“Os resultados sugerem que a experiência escolar das crianças com dislexia do desenvolvimento, principalmente com distúrbio de aprendizagem, quando enriquecidas com atividades propícias ao desenvolvimento de estratégias e a utilização da leitura como instrumento de construção podem possibilitar um aprimoramento no desenvolvimento dessas habilidades.” (MACHADO, 2009, p. 76)
“[...] o professor especialista pode contribuir na construção eficaz da educação inclusiva, como um consultor colaborativo, pois na concepção de cooperação e intercâmbio de experiências, o beneficiário é sempre o aluno e, por conseguinte, os demais envolvidos.” (SAGLIA, 2010, p. 66).
Com base nestas afirmações, é possível observar que os sistemas de ensino não têm se dedicado a compreender a maneira como as crianças se relacionam com a linguagem escrita, assumindo as incoerências das práticas de escrita como um fim em si mesmo e atribuindo rótulos àquelas que apresentam os resultados esperados.
Esta atuação pode ser considerada controversa e discriminatória, pois aponta e assume um suposto defeito incapacitante ao mesmo tempo em que lhe nega acesso aos recursos necessários para a aprendizagem escolar, seguindo na contramão dos processos de inclusão.
Com base no exposto, considero que as contribuições para as práticas pedagógicas propostas pelas pesquisas analisadas apontaram as lacunas do processo de escolarização, as quais têm obstruído o desenvolvimento dos processos de aprendizagem e contribuído para a manutenção do conceito vigente de dislexia.