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CONTRIBUIC ¸ ˜ OES E LIMITAC ¸ ˜ OES DA DISSERTAC ¸ ˜ AO

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5.3 CONTRIBUIC ¸ ˜ OES E LIMITAC ¸ ˜ OES DA DISSERTAC ¸ ˜ AO

Tendo em vista os seus objetivos, esta disserta¸c˜ao contribui para uma revis˜ao da abordagem laboviana de an´alise estil´ıstica da fala nar- rativa, ou seja, da fala que aparece em narrativas orais dentro da entre- vista sociolingu´ıstica. Ao revisarmos a abordagem laboviana de an´alise estil´ıstica da fala narrativa propondo um novo modelo, n˜ao somente questionamos a sua propriedade, como tamb´em buscamos o seu refina- mento e a sua adequa¸c˜ao como procedimento de pesquisa, haja vista a realidade das muitas amostras de entrevista sociolingu´ıstica existen- tes que foram constitu´ıdas nos moldes da investiga¸c˜ao laboviana. No cen´ario da sociolingu´ıstica variacionista brasileira, conforme menciona- mos no in´ıcio do cap´ıtulo 1, ´e o caso de alguns grupos de pesquisa que mantˆem consider´aveis acervos de entrevista organizados `a luz da me- todologia de pesquisa da sociolingu´ıstica variacionista laboviana, tais como o Projeto VARSUL (Varia¸c˜ao Lingu´ıstica na Regi˜ao Sul do Bra- sil) (VARSUL, 2013), o PEUL (Programa de Estudos sobre o Uso da L´ıngua) (PEUL, 2013) e o VALPB (Varia¸c˜ao Lingu´ıstica no Estado da Para´ıba) (HORA; PEDROSA, 2001), para citarmos apenas alguns.

Nesse sentido, esperamos ao menos duas contribui¸c˜oes associa- das aos desenvolvimentos deste trabalho. No caso geral, este trabalho espera contribuir para ampliar o potencial de aplica¸c˜ao da abordagem estil´ıstica laboviana, ajudando a consolid´a-la como referˆencia para o desenvolvimento de procedimentos de an´alise quantitativa da varia¸c˜ao estil´ıstica. Mais especificamente, este trabalho espera contribuir para fortalecer o estudo da varia¸c˜ao estil´ıstica no ˆambito da sociolingu´ıstica variacionista brasileira, cujo enfoque tradicional tem sido privilegiar o estudo da varia¸c˜ao/mudan¸ca sob a ´otica dos fatores estruturais da l´ıngua e sociogeogr´aficos das comunidades de fala, conferindo menor aten¸c˜ao aos fatores estil´ısticos da varia¸c˜ao.

Esta disserta¸c˜ao ainda contribui para o quadro de estudo da varia¸c˜ao/mudan¸ca `a medida que ajuda a elucidar quest˜oes gerais so- bre a participa¸c˜ao dos n´ıveis discursivo e pragm´atico em fenˆomenos de varia¸c˜ao e mudan¸ca (MOLLICA; RONCARATI, 2001, p. 46). Essa par- ticipa¸c˜ao ´e importante, visto que, conforme destaca Coupland (2007, p. 3), n˜ao basta somente compreender os usos lingu´ısticos em termos

dos dialetos sociais (“estilos sociais” segundo aquele autor), ˆambito da varia¸c˜ao organizada segundo as categorias de status social, privile- giadas pela pesquisa laboviana. ´E preciso tamb´em examinar os usos lingu´ısticos no que diz respeito a como os estilos sociais s˜ao instancia- dos nas situa¸c˜oes comunicativas, de acordo com prop´ositos simb´olicos variados.

Para al´em do que j´a foi dito no fim da se¸c˜ao 4.2.1, finalmente queremos destacar (de forma n˜ao exaustiva) algumas limita¸c˜oes desta disserta¸c˜ao. Primeiro, porque o modelo de (re)an´alise estil´ıstica que propomos se apoia em um quadro te´orico-metodol´ogico que tamb´em esbarra em seus limites de atua¸c˜ao. Por exemplo, ao trabalharmos com a abordagem estil´ıstica laboviana (estilo correlacionado com a aten¸c˜ao `a fala), fatalmente assumimos a premissa de que, na fala casual (com baixo audiomonitoramento), o entrevistado produz mais frequen- temente a forma variante local (identificada com a sua comunidade de fala, avaliada como “n˜ao padr˜ao”), enquanto, em oposi¸c˜ao, na fala monitorada (com audiomonitoramento), o entrevistado produz mais frequentemente a forma variante n˜ao local (identificada com a imagem de um falante filiado a um grupo social de prest´ıgio, avaliada como “padr˜ao”).

Parafraseando Coupland (2007, p. 38), ´e como se, ao enveredar por uma fala cuidadosa (ou formal), o entrevistado tivesse a inten¸c˜ao de projetar a si mesmo como um indiv´ıduo-falante pertencente a um grupo social de grande prest´ıgio. Embora o autor n˜ao descarte a ocorrˆencia desse fenˆomeno, o seu questionamento permanece em rela¸c˜ao ao pres- suposto laboviano para que o falante alterne entre variantes estil´ısticas, saindo de uma fala casual para uma fala mais monitorada: em suma, a possibilidade de se reposicionar socialmente empregando diferentes variantes que, reconhecidamente, est˜ao associadas a priori a grupos humanos (hierarquicamente situados) com certo status social, o que implica reconhecer, ainda que em outros termos, a dominˆancia de uma prescri¸c˜ao de uso da l´ıngua. Logo, a abordagem estil´ıstica laboviana n˜ao prevˆe uma situa¸c˜ao em que, digamos, um falante monitora a sua fala para produzir mais frequentemente variantes locais, e n˜ao variantes padr˜oes, apelando, conforme assinala Schilling-Estes (2007), para um aspecto performativo da l´ıngua mais amplo, atrav´es do qual os falantes se valem dos recursos lingu´ısticos para reconstituir uma identidade (sem necessariamente aludirem a uma estrutura social hierarquicamente es- tratificada).

Portanto, vale ressalvar que a nossa proposta de modelo de an´alise assume como premissa a opera¸c˜ao de vari´aveis estil´ısticas com reconhe-

cida estratifica¸c˜ao social para os falantes que delas fazem uso, caso de vari´aveis que abrigam formas lingu´ısticas alternativas que se diferen- ciam socialmente em oposi¸c˜oes como “variante padr˜ao” versus “vari- ante n˜ao padr˜ao”, “variante culta” versus “variante popular”, “variante de prest´ıgio” versus “variante estigmatizada”, etc. Essa ressalva cer- tamente restringe o escopo de aplica¸c˜ao do modelo de an´alise sendo proposto por esta disserta¸c˜ao.

O segundo ponto que desejamos destacar sobre as limita¸c˜oes deste trabalho diz respeito a alguns aspectos do seu desenvolvimento que merecem ser mais imediatamente retrabalhados ou que permane- cem deixados em aberto. O parˆametro estil´ıstico “Altera¸c˜ao do tom” ´e um dos aspectos que merece reconsidera¸c˜ao. Reconhecemos a di- ficuldade da sua opera¸c˜ao, que prop˜oe diferenciar certos trechos de fala narrativa quanto a se a voz do entrevistado experimenta (ou n˜ao) alguma modifica¸c˜ao mais sutil em termos de acelera¸c˜ao do ritmo da fala ou aumento do volume da voz. A opera¸c˜ao desse parˆametro se torna complicada na medida em que dependemos de uma avalia¸c˜ao im- pression´ıstica (por oitiva) para delimitar se determinado trecho de fala narrativa apresenta (ou n˜ao) algumas das altera¸c˜oes do tom previstas, ainda que nos embasemos em trechos da voz do entrevistado para re- ferˆencia. Uma maneira que vislumbramos por ora para aperfei¸coar o diagn´ostico da altera¸c˜ao do tom ´e, ao lado da avalia¸c˜ao impression´ıstica, dotar a an´alise de um instrumento mais sofisticado de an´alise ac´ustica da fala, que nos permita examinar mais precisamente as flutua¸c˜oes de certos aspectos do tom considerados (p. ex., o software Praat3).