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CONTRIBUTOS CONCEPTUAIS PARA A SOBRECARGA

3 CONTRIBUTOS CONCEPTUAIS

3.2 CONTRIBUTOS CONCEPTUAIS PARA A SOBRECARGA

Grande parte da investigação que se dedica a este fenómeno teve a sua origem na teoria do stress e na teoria da crise. Porém uma dificuldade conceptual existe em adaptar ou transpor estas teorias: um dos agentes stressores perspectivados originalmente como um fenómeno novo e agudo transforma-se num stressor crónico.

Para Lazarus e Folkman (1984), uma situação de doença prolongada, de dependência prolongada de uma familiar é comummente visualizada como uma situação de crise geradora de stress. O equilíbrio de funcionamento do grupo, da família e, em última instância, do indivíduo é posto em causa. A situação perspectivada como adversa gera mecanismos de resolução de “problemas” imediatos e poderá levar a um estado de desorganização psico-emocional e social. Do sentimento de ameaça surgem frequentemente outros relacionados, tais como: medo, a culpa e a ansiedade. Neste

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paradigma o stress psicológico gerado pela relação Homem/meio é avaliado pela pessoa como excedendo as suas capacidades e recursos e coloca em perigo o seu bem-estar. O significado do conceito de stress não é consistente; é utilizado nas mais diversas áreas do saber, mas sempre com interpretações distintas. O significante pode sugerir frustração ou emoção sob tensão, resposta ao caos do trânsito como problema de concentração, na bioquímica e na endocrinologia como um puro evento químico e no desporto como uma tensão muscular.

As descrições de Seyle cit. Pais-Ribeiro (2005) adoptam uma perspectiva de homeostasia da “...resposta não específica do corpo a qualquer exigência” (pág.276). Nos seus trabalhos, podemos encontrar o denominado Síndrome Geral de Adaptação (SGA) onde identifica cinco fases:

 Reacção de alarme;  Reacção de choque;  Fase de contra-choque;  Fase defensiva;

 Fase de exaustão.

Se o processo de SGA funcionar de modo imperfeito, diz o seu autor, não será tanto o resultado directo de agentes externos tais como infecções ou intoxicações, mas antes a consequência da incapacidade do organismo para se defender contra esses agentes através de reacções adaptativas adequadas. Persiste algum determinismo de acção nesta perspectiva.

A resposta ao stress nem sempre lesa o organismo, poderemos estar perante uma situação de eustress, podendo ser necessário ou desejável como forma de enriquecimento e de adaptação eficaz.

Os trabalhos de Lazarus e Folkman acerca do stress, encontram-se entre os pioneiros, no âmbito da Psicologia. Estes autores construíram um modelo teórico de referência. Seria impossível, sem nos tornarmos exaustivos, a descrição de inúmeros modelos teóricos sobre o stress. Daí termos optado por referir apenas dois, sendo estes escolhidos tendo por base a sua relevância científica, e poderem servir de referência para a prestação de cuidados informais.

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3.2.1 Modelo Transacional de Lazarus e Folkman

A avaliação cognitiva (cognitive appraisal) que Lazarus e Folkman preconizam é uma interpretação cheia de significado. A apreciação psicológica é um elemento crítico no início ou na influência do processo de stress. Saindo da resposta estereotipada preconizada no modelo proposto por Seyle, estes autores defendem que há uma apropriação que cada indivíduo realiza, de forma específica e pessoal, do significado de uma dada situação perspectivada como stressante.

A avaliação cognitiva divide-se em duas dimensões distintas que importa discriminar: a avaliação primária (primary appraisal) e a avaliação secundária (secundary appraisal). São ambas importantes e não têm ordem cronológica definida, a primeira refere-se à interpretação que a pessoa faz em relação ao acontecimento, e a segunda diz respeito à avaliação dos recursos disponíveis para fazer frente a essa situação de stress.

Para que um acontecimento seja stressor, tem de ser apreciado como tal, ou seja, se um acontecimento não for apreciado por um indivíduo como stressor esse indivíduo não sentirá stress. Para estes autores existem diferentes formas de apreciação:

1. Acontecimentos irrelevantes que qualifica os acontecimentos que não afectam o bem-estar da pessoa;

2. Acontecimentos que mantêm ou até melhoram o bem-estar da pessoa; 3. Acontecimentos que despoletam sentimentos de perda, de ameaça e/ou

desafio.

Outras reapreciações (defensive reappraisal) podem seguir à reacção imediata da pessoa face à situação stressante, não tendo origem nessa mesma, mas que visam uma reavaliação de acontecimentos já passados. Esta assemelha-se mais a uma estratégia de coping por se realizar numa perspectiva positivista.

Para Leite (2006) o compromisso (commitment) é um factor motivacional significativo, na medida em que exprime o princípio de acção e, numa segunda análise, os valores e as escolhas.

As crenças (beliefs) desenvolvem um papel importante na medida em que podem atribuir a percepção de controlo à situação ou podem atribuir-lhe um sentido diferente. Os factores situacionais relacionam-se com os acontecimentos em si, podendo ser novos, previsíveis ou incertos.

O coping é referido por Lazarus e Folkman (1984), como estratégia ou mecanismo que permite enfrentar a situação stressante, diminuindo ou eliminado o seu efeito.

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Figura 2 - Modelo Conceptual de Lazarus e Folkman (1991) Tradução e adaptação

A apreciação cognitiva e as estratégias de coping são fenómenos críticos na teoria proposta. O indivíduo tem um papel activo, interage com o meio, apreciando-o e apreciando-se a si como parte da resolução do problema. Para estes autores, o coping é centrado no processo, e distingue-se dos comportamentos automáticos adaptativos. Segundo Pais-Ribeiro (2004), o termo esforço é usado para salientar o processo em vez do resultado, e o termo gerir é usado para evitar a ligação coping igual a sucesso.

3.2.2 Modelo de Resiliência ao Stress, Ajuste e Adaptação da Família de McCubbin McCubbin e colaboradores (1998) procuram dar resposta à diversidade de agir das famílias perante factores de stress semelhantes. Propõem um modelo centrado na Teoria dos Sistemas para trabalhar com famílias em stress: o modelo de resiliência ao stress, ajuste e adaptação da família. Para estas autoras, em muitas famílias idosas, o acontecimento que provoca o stress é o conhecimento de um diagnóstico, a deterioração da saúde de um dos seus membros.

Um dos conceitos centrais deste modelo é a vulnerabilidade da família. Não procuramos aqui explorar todos os factores enumerados pelas autoras, mas sim prestar maior

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atenção a um conceito que emerge deste “mapa mental”, relevante para entendermos os nossos resultados: o de resiliência familiar.

Para Walsh (1998), a resiliência familiar é a “capacidade de superação perante a adversidade, processo dinâmico de resistência, auto-observação e crescimento em resposta à crise e ao desafio” (pág.4). A resiliência é mais do que sobreviver ou sair ileso de uma crise familiar. Os sobreviventes não são necessariamente resilientes: alguns ficam presos à sua posição de vítimas, cuidando das suas próprias feridas e conseguindo evitar sentimentos de raiva ou a culpa.

De forma contrária, as qualidades de resiliência capacitam as pessoas para lidar com acontecimentos considerados negativos, as pessoas resilientes responsabilizam-se, não fogem do novo, do estranho, da crise. Partem para uma acção (taking charge) centrada na resolução de um desafio, num ambiente de esperança e de interajuda. Continuam a viver de forma plena, de bem com a vida.

O conceito de resiliência familiar tem por base as estratégias de coping e adaptação desenvolvidas pela família enquanto unidade. O modo como a família se confronta e gere uma experiência disruptiva, se reorganiza e segue em frente, influencia de forma imediata e a longo termo a adaptação para todos os seus membros.

Walsh propõe três dimensões para uma família resiliente:

1) Crenças da família:

a) Encontrar sentido na adversidade; b) Ter uma atitude positiva;

c) Gozar de transcendência e espiritualidade. 2) Padrões de organização:

a) Flexibilidade; b) Conectividade;

c) Recursos económicos e sociais. 3) Processo de comunicação:

a) Clareza;

b) Abertura para a expressão das emoções; c) Colaboração na resolução dos problemas.