Segundo a International Atomic Energy Agency (IAEA), o controle da qualidade em medicina nuclear está relacionado a medidas específicas que são necessárias para garantir que os aspectos de um determinado procedimento sejam satisfatórios (IAEA, 1991).
O calibrador de radionuclídeo, responsável pela determinação da atividade dos radiofármacos antes da sua administração ao paciente, deverá encontrar-se em perfeito funcionamento. Para que isto ocorra, estes equipamentos devem ser testados no momento de sua instalação (testes de aceitação) e posteriormente por meio dos testes de controle da qualidade, assegurando a confiabilidade das medidas de atividades. O desempenho inadequado dos calibradores de radionuclídeos pode promover subestimação ou superestimação da atividade, levando a resultados clínicos duvidosos, tratamentos ineficazes e exposição desnecessária à radiação (IWAHARA, 2001).
Na literatura encontram-se referências de normas elaboradas por diferentes órgãos que estabelecem os requisitos para a calibração e controle da qualidade para estes equipamentos. Na Tabela 3 são mostrados alguns destes protocolos com seus respectivos testes de controle da qualidade para os calibradores de radionuclídeos e suas periodicidades.
Tabela 3: Protocolos internacionais com seus testes de controle da qualidade e respectiva periodicidade (AGUADO et al, 2004).
Exatidão Precisão Linearidade Protocolo IAEA Trimestral Trimestral Trimestral
Protocolo NPL Anual Anual Anual
Protocolo ANSI Anual Diário Trimestral
Protocolo NRC Anual Diário Trimestral
Protocolo LNHB Anual Diário Na instalação
No Brasil, a norma CNEN-NN-3.05 recomenda os testes necessários ao controle da qualidade e suas respectivas periodicidades. Segundo esta norma, estes testes devem ser efetuados utilizando-se fontes padrão de referência que cubram a faixa de energia dos radionuclídeos utilizados nos serviços de medicina nuclear (CNEN, 1996). Os testes recomendados, as fontes radioativas utilizadas e os respectivos limites de aceitação estão apresentados na Tabela 4. Além destes testes, o National Physical Laboratory (NLP) e o Laboratoire National Henri Becquerel (LNHB) recomendam alguns testes operacionais, mostrados na Tabela 5, para assegurar o seu bom desempenho.
Tabela 4: Testes e periodicidade recomendados para o controle da qualidade dos calibradores de radionuclídeos no Brasil (CNEN, 1996).
Teste Freqüência Fonte padrão utilizada
Limites de Aceitação
Exatidão Semestralmente 57Co, 133Ba ou 137Cs 10%
Precisão Semestralmente 57Co, 133Ba ou 137Cs 5%
Reprodutibilidade Anualmente 57Co ou 133Ba 5%
Linearidade Semestralmente 99mTc 20%
Tabela 5: Testes recomendados pelo NPL e LNHB e sua respectiva periodicidade (LNHB, 2006; NPL, 2006).
Testes Periodicidade
Auto zero Diário
Tensão Diário
Radiação de fundo Diário
Todos os testes de controle da qualidade mostrados nas Tabelas 4 e 5 são descritos a seguir:
2.3.1. Exatidão e Precisão
A exatidão de uma medida descreve o grau de concordância entre o resultado da medição e o valor verdadeiro da grandeza a qual se quer medir. A precisão indica o grau de concordância entre os resultados obtidos das medições sucessivas, efetuadas sob as mesmas condições, repetidas em um curto intervalo de tempo (AGUADO et al, 2004).
Segundo Bessa, Costa e Caldas (2008), para a realização destes testes devem ser utilizadas não apenas as fontes radioativas recomendadas pela norma CNEN-NN-
3.05, como também os radionuclídeos utilizados clinicamente. Mesmo que as fontes recomendadas pela norma nacional cubram a faixa de energia utilizada nos SMN será testada apenas a porção do circuito eletrônico exclusiva para a medição da atividade de determinado radionuclídeo, ocorrendo uma omissão para as demais fontes clinicamente importantes, podendo acarretar erros significativos nas medições utilizando as condições operacionais dos calibradores de dose que não foram testadas para exatidão.
A publicação do NPL (2006) corrobora esta informação, recomendando que, na realização dos testes de exatidão e precisão, seja avaliado cada intervalo de energia utilizado no calibrador de radionuclídeos para as medições de atividade, mediante o uso dos radionuclídeos mais frequentemente utilizados na rotina dos SMN.
2.3.2. Reprodutibilidade
A reprodutibilidade corresponde à faixa dentro da qual as indicações do processo de medição são esperadas quando são envolvidos diferentes operadores, medindo uma mesma característica do produto nas condições operacionais naturais do processo de medição (ALBERTAZZI; SOUZA, 2008).
O teste de reprodutibilidade verifica o desempenho de todo o sistema de medição (câmara de ionização e eletrômetro), permitindo indentificar a presença de possíveis variações na resposta do equipamento ao longo do tempo.
O NPL (2006) recomenda que este teste seja realizado com fontes radioativas que possuam meia-vida longa e ausência de qualquer impureza radioativa, como por exemplo o 137Cs. Os dados devem ser obtidos diariamente e registrados em tabelas, sendo posteriormente dispostos em gráficos da atividade em função do tempo, correspondendo ao decaimento da fonte utilizada.
2.3.3. Linearidade
A linearidade verifica a resposta da atividade do calibrador de radionuclídeos durante todo o intervalo de atividade útil de uma fonte radioativa (IAEA, 1991). Indica a habilidade com que um calibrador de radionuclídeos mede atividades de radionuclídeos sobre uma ampla faixa de valores, sendo de primordial importância quando se trabalha em escalas diferentes de atividade (AGUADO et al, 2004).
Dentre os métodos para obter a linearidade da resposta de um calibrador de radionuclídeos, o mais utilizado é o método do decaimento. Trata-se do acompanhamento do decaimento de um radionuclídeo meia-vida curta, como o 99mTc, realizando as medidas em intervalos de tempo regulares, de modo que o tempo total seja suficiente para a fonte decair até a menor atividade utilizada clinicamente (SAHA, 1998).
Após obtenção das medidas, deve-se registrar os resultados em um gráfico mostrando a relação entre as atividades obtidas e o tempo decorrido, e traçar uma curva teórica (Figura 7) baseada no decaimento da fonte (IAEA, 1991).
Figura 7: Representação gráfica do teste de linearidade de um sistema de referência utilizando uma fonte de 99mTc (COSTA, 1999).
Tempo decorrido (horas)
A ti vi dad e (G B q ) Atividade medida Atividade calculada + ---
2.3.4. Geometria
Embora não seja exigido pela CNEN, recomenda-se a realização do teste de geometria na instalação dos calibradores de radionuclídeos. Os diversos tipos de recipientes, produzidos em diferentes geometrias e materiais, utilizados nos SMN para a medição da atividade dos radionuclídeos que serão administrados aos pacientes, nem sempre são iguais àqueles que foram utilizados pelos fabricantes para a calibração destes equipamentos. Por isso, qualquer medida de atividade em recipientes diferentes deve ser corrigida, aplicando-se os fatores de correção que levam em consideração os diferentes graus de absorção da radiação pelas paredes do recipiente, decorrente da variação na sua espessura e composição (IWAHARA, 2001).
As variações na geometria da amostra a ser medida podem afetar a exatidão das medidas, principalmente devido à atenuação da radiação. Segundo Zimmerman e Cessna (2000), é preciso obter experimentalmente os fatores de correção e aplicá-los a medições similares, quando estão sendo realizadas medidas em diferentes geometrias, especialmente para radionuclídeos de baixa energia.
2.3.5. Auto zero, tensão e radiação de fundo
I. Auto Zero:
Corresponde ao sinal medido na saída do eletrômetro quando este se encontra em curto-circuito. Alguns equipamentos permitem o ajuste deste valor. Quando isto não é possível, deve-se registrar o valor de auto zero e compará-lo às recomendações do fabricante. Qualquer tendência de aumento pode indicar a necessidade de reparo do equipamento (LNHB, 2006; NPL, 2006).
II. Tensão:
Consiste em verificar o valor da tensão aplicada à câmara poço. Como este parâmetro está diretamente relacionado à eficiência de coleta de íons, deve-se
certificar que os valores medidos estejam dentro dos limites recomendados pelo fabricante. Para valores de atividade baixos, o efeito da variação da tensão de polarização é pequeno, entretanto, este efeito torna-se mais pronunciado para atividades altas (LNHB, 2006; NPL, 2006).
III. Radiação de Fundo (Background):
Consiste em determinar a resposta do calibrador de radionuclídeos na ausência de fontes radioativas. Recomenda-se realizar esta medida no canal de um radionuclídeo com emissão gama de energia baixa. Pode-se determinar a média das medidas e estabelecer um limite superior igual à média mais dois desvios padrões de 20 medidas realizadas sem contaminação (AGUADO et al, 2004) ou ainda utilizar os valores orientativos indicados pelo fabricante.
A IAEA (1991) considera que um aumento de radiação de fundo superior ou igual a 20% do valor obtido anteriormente deve ser investigado. Este aumento pode ocorrer devido à contaminação radioativa do equipamento ou do suporte da fonte, ao aumento da radiação ambiental ou devido a problemas no sistema de medição. Este teste deve ser realizado com o suporte para amostras no interior do poço e na ausência de fontes radioativas nas proximidades.