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3. O CONTROLE DE CORPOS E AS MÚLTIPLAS VIOLÊNCIAS: DO DISCURSO

3.1. Controle de Corpos: Maternidade e Violência

Em uma das visitas do Projeto de Extensão no qual participamos, tivemos a curiosidade de perguntar para uma das mulheres sobre o que acontecia com as mulheres grávidas, pois já tínhamos visto algumas mulheres grávidas, mas nunca nenhum bebê esteve presente enquanto realizávamos nossa ação extensionista.

A Cadeia Pública Feminina de Cajazeiras/PB não conta com berçário, ou alguma ala específica para suas mulheres mães e seus respectivos bebês. Então, ficamos sabendo que quando uma mulher estava perto de partejar, era transferida para o Presídio Feminino de Patos - PB que fica cerca de 170 km do município de Cajazeiras - PB, pois o mesmo possui berçário, para que as mulheres aprisionadas possam ficar com os filhos até os seis (6) meses de idade para assegurar o direito da criança ao leite materno, direito esse assegurado na Constituição Federal de 1988, no artigo 5º, inciso L, e no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), no artigo 9º e, pela Lei de Execução Penal 7.210/84 (LEP) (Brasil, 1984), a qual tem mais de um artigo referenciando sobre a estrutura dos estabelecimentos penais destinados as mulheres, deverão ser dotados de berçários, artigo 83º, e artigo 89, recomendando que a penitenciária de mulheres poderá ser provida de seção para gestante e parturiente e de creche com a finalidade de assistir ao menor desamparado cuja responsável esteja presa.

Do total de entrevistadas 88,88% das mulheres são mães. Porém, percebemos que a grande maioria dos filhos são maiores de idade, os que não são geralmente ficam na responsabilidade da avó materna. As que residem em Cajazeiras recebem as visitas nas manhãs dos sábados, o que se torna problemático para as famílias que residem em outras cidades fazerem a visita com certa regularidade.

A convivência familiar, segundo Alencastro (2015), constitui-se como um dos direitos estruturadores do Estado, uma vez que diz respeito diretamente à família, que, constitucionalmente, é considerada a base da sociedade em que vivemos, mas mulheres em situação de cárcere e seus respectivos filhos têm esse direito diminuído em vista das circunstâncias em que se encontram.

De acordo com a Projeção 2015 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre a taxa de fecundidade por mulher no Brasil, foi de 1,72 filho, em 2015, sendo inferior ao Censo de 2010, 1,86 filho por mulher, em período fértil (IBGE, 2015).

A média de filhos entre as presas pesquisadas são de 2,16 filhos. Portanto, a média de filhos entre as presidiárias do estabelecimento prisional que foi o foco da pesquisa está um pouco acima da média brasileira de filhos nascidos vivos por mulher.

Em conformidade com Rocha e Lodi (2013. p. 103) o natural de se pensar é que na falta da mãe o filho ficará com o pai, porém, este julgamento dedutivo não se aplica ao caso das mulheres encarceradas, assim, os filhos das apenadas encontram-se nos mais diversos lugares, no caso, dos filhos menores de idade, em geral ficam na responsabilidade das avós maternas, mães das presidiárias quem mais cuidam dos netos. Inclusive, uma das mulheres enquanto respondia ao questionário disse que o filho mais novo dela tinha sido adotado sem sua permissão, um caso comum onde o Estado faz várias punições às mulheres infratoras, além de perderem a liberdade, mulheres mães, muitas vezes, perdem o direito sobre seus filhos, se caracterizando em mais uma forma de violência.

O espaço prisional para Bruna (2017) é incorporado de significados

Esse espaço aqui me deixa triste, me sufoca, porque a gente só vê grade, comandando por fulano, tudo o que você for fazer é por fulano, se você pega uma caneta essa caneta ela é aberta até chegar um final, eles abre e verifica tudo, cheira tudo, então isso eu me sinto muito mal, porque eu acho que o importante é a confiança, apesar de que eu dou confiança para não acontecer isso, mas fico mal.

Sobre a prisão feminina, França (2013. p. 193) afirma que as mulheres socialmente construídas têm sua imagem substituída pela condição de criminosa, embora, os delitos cometidos não sejam acompanhados com requintes de crueldade. Mas não a imagem de criminosa que bota medo na sociedade, como no caso dos homens, mulheres criminosas são vistas vergonhosamente, como mulheres que transgrediram o papel da feminilidade.

Algumas das mulheres pesquisadas afirmam ter sofrido violência doméstica. Do total, 55,56% afirmaram nunca terem sofrido violência doméstica de nenhuma espécie, seja ela física ou psicológica, onde entendesse violência física as agressões ou violações no corpo, e a psicológica podendo ser moral, financeira, humilhações, ameaças, uma forma mais subjetiva de violência contra a mulher. Já 44,44% das mulheres confirmaram já ter sofrido violência física e/ou psicológica, dos teus companheiros, ex-companheiros e, até familiares homens.

Gráfico 10 - Violência Doméstica

Fonte: Pesquisa Direta realizada com 18 mulheres. Elaborado pela autora, 2017

Das 44,44% mulheres que sofreram algum tipo de violência, 27,78% foram vítimas de violência físicas com 16,67% sendo o seu ex-marido o agressor e 11,11% o atual marido. Sofreram violência física e/ou psicológia por seus ex-companheiros, atuais e até parentes, como teve uma que relatou que sofreu abusos sexuais dos tios. E 5,56% sujeitas afirmaram sofrer violência psicológica do seu atual marido.

Gráfico 11 - Tipo de violência sofrida e quem praticou

Fonte: Pesquisa Direta realizada com 18 mulheres. Elaborado pela autora, 2017.

A questão da violência na vida da mulher é historicamente marcada por violências múltiplas, a própria ordem social patriarcal, prega a inferioridade das mulheres, seres humanos que são visto como O outro e que a alteridade não é colocada em prática para manter vigente um sistema de submissão feminina. As estatísticas brasileiras assombram, pois a cada 0,02 segundos uma mulher é vítima de violência física ou verbal no país. A cada 2 minutos uma mulher é vítima de arma de fogo, a cada 22,5 segundos, uma mulher é vítima de espancamento ou tentativa de estrangulamento. Por mais que tenhamos uma Lei conhecida

como Lei Maria da Penha – Lei nº 11.340/2006 que cria mecanismos de coibir e prevenir a agressão ambientada na convivência familiar a nossa realidade é ver os números saltarem dia a dia.18

3.2. O Discurso Institucional da Lei de Execução Penal e as Múltiplas Violências

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