4. PREVENÇÃO DO CRIME ORGANIZADO E FORMAS DE MANIFESTAÇÃO
4.8. INTELIGÊNCIA E CRIME ORGANIZADO
4.8.3. Controle do crime organizado e inteligência
As atividades de inteligência e policial andavam separadas até que a emersão das ameaças da criminalidade internacional, crime organizado, crime cibernético e terrorismo pressionaram para que se reencontrassem. Esses riscos para a sociedade fizeram com que as forças de segurança necessitassem mais de inteligência e se preocupassem não só com a reação ao crime, mas também com a prevenção da criminalidade. O crime organizado obrigou o Sistema de Justiça Criminal a procurar respostas na inteligência estratégica, para se antecipar à problemática tão complexa196.
As exigências contemporâneas da segurança pública fizeram com que muitas barreiras entre diferentes órgãos tivessem que ser rompidas ou que se fundissem. Foi o caso dos serviços de inteligência que vieram para o interior das polícias, ou a criação dos sistemas de inteligência, permitindo o compartilhamento de inteligência sobre eventos afetos à área criminal.
Se antes os serviços de inteligência tinham um viés de proteção da segurança nacional e uso para fins militares, passou a ser de fundamental relevo também para a
196 ZAVRSNIK, Ales. Blurring the line between law enforcement and intelligence: sharpening the gaze
of surveillance? Journal of contemporary European research.vol. 9. London: JCER, 2013. p. 181- 199.
prevenção e repressão do crime, pela dinâmica organizada e riscos impostos por ele à sociedade.
Com os novos desafios, as polícias passaram a receber poderes para desenvolver investigações utilizando-se de métodos invasivos ou técnicas especiais de investigação, adquirindo equipamentos modernos para a execução de vigilância, fazendo com que os atos de polícia se aproximassem das atividades de inteligência. Passou-se igualmente a se utilizar informações colhidas pelos serviços de inteligência para instruir procedimentos criminais, seja para iniciar investigações, seja como elemento de prova197.
Essa mudança de perspectivadas polícias, obrigando-se a sair de uma atitude passiva, de agir após o cometimento de crime, para uma postura ativa, de procurar prevenir o crime – tentando identificar as organizações criminosas e seus componentes, seu modo de agir, fraquezas e pontos fortes ou monitorando aqueles que podem vir a cometer crimes – fez com que as forças de segurança passassem a atuar de uma forma muito próxima à cultura das agências de inteligência.
O Sistema de Justiça Criminal e principalmente as polícias têm sido pressionados a atuar em uma perspectiva de inteligência, sendo cobrados quando falham em prever e evitar graves atentados à segurança pública.
Ocorre que a doutrina e a missão da inteligência e das forças de segurança são muito distintas, seus interesses são distintos, a cultura é distinta, as perspectivas são distintas e a cadeia de comando é distinta.
Coordenar os esforços desses diferentes órgãos para o controle do crime organizado é um grande desafio, diante dessa distância citada. Porém parece ser um caminho sem volta, pois as suas missões estão se convergindo diante das características das ameaças que enfrentam.
Ordenar os esforços das forças de segurança e das agências de inteligência levanta dificuldades jurídicas e administrativas, além de que pululam preocupações sobre o uso de informações colhidas pela inteligência em processos judiciais, com os meios ocultos de coleta de dados versus as liberdades civis. Outra preocupação é relacionada ao redirecionamento de esforços de inteligência para casos criminais, deixando a descoberto o apoio necessário a outras instâncias governamentais198.
197ZAVRSNIK, 2013. p. 181-199.
198 BEST JUNIOR, Richard A. Intelligence and Law Enforcement: Countering Transnational Threats
Para minimizar essas dificuldades, diante de críticas aos serviços de inteligência dos Estados Unidos que falharam em alertar o Sistema de Justiça Criminal daquele país em relação a ameaças criminais, foram propostas algumas medidas para facilitar o fluxo de informações, entre elas: criação de escritórios de coordenação em órgão central do Sistema de Justiça Criminal no intuito de aproximar a inteligência e os órgãos criminais; criação de procedimentos para a utilização de bancos de dados da inteligência para a produção de prova criminal; medidas para proteger a identidade dos agentes de inteligência; medidas para proteger informações classificadas; termo de entendimento entre o órgão central de justiça criminal e as agências de inteligência para delinear os avisos de atividades criminais; e treinamentos conjuntos de agentes do Sistema de Justiça Criminal e de agentes dos órgãos de inteligência.
Para os fins dos órgãos de segurança pública, a inteligência pode ser descrita como a informação que é obtida, trabalhada e protegida pelo Sistema de Justiça Criminal com o fim de tomada de decisão e para suporte das investigações criminais. Claro que, como já dito, o mesmo vocábulo pode ter a acepção de processo de interpretação das informações coletadas ou o órgão responsável pela coleta e processamento da informação ou o produto da atividade ou órgão199.
O implemento da inteligência criminal ou inteligência policial ou da análise de inteligência criminal tem vínculo direto com a expansão do crime organizado e o desafio que esse trouxe para as agências de aplicação da lei criminal. O crime saiu do aspecto individual para se transformar em uma atividade institucionalizada, com formato empresarial, e culminou com a necessidade de implementação dessa filosofia de utilização de técnicas de inteligência para o controle do crime organizado200.
O uso adequado da inteligência pode prover os órgãos de controle do crime organizado de conhecimento necessário para prevenir e reprimir a atuação de organizações criminosas, tal como: levantamento da atuação de grupos criminosos e seu modo de agir; identificação dos integrantes e seu papel nas organizações; locais e área de atuação; riscos que trazem para as estruturas do Estado; as tendências das organizações criminosas; monitoramento e documentação da atuação criminosa; qualificação de membros dos grupos criminosos propensos a colaborar com a
199UNODC. Criminal intelligence: manual for front-line law enforcement. New York, 2010. Disponível
em:<http://www.unodc.org/documents/organized-crime>. Acesso em 9 abr.2018.
investigação; informações sobre testemunhas e proteção dessas; além de inteligência estratégica para o planejamento a longo prazo201.
Para conter a criminalidade organizada faz-se imperioso o uso proativo da inteligência, com as instâncias de controle tendo posse de informações de qualidade e úteis, deve-se tratar adequadamente as informações coletadas com o fim de ter conhecimento estratégico, com a integração dos bancos de dados dos diferentes órgãos de inteligência, de modo a fluir as informações e criando a cultura do compartilhamento.
O simplista modelo de crime organizado como uma estrutura hierarquizada foi superado, tendo a moderna literatura especializada concordado que ele é um problema bem mais complexo, uma atividade em rede, que procura oportunidades e evita riscos. Essa constatação faz complicar a atividade do Sistema de Justiça Criminal para investigar, prevenir, constatar e reprimir o crime organizado, pois se adapta e readapta ao cenário de forma bem mais rápida que as agências de controle. Assim, os órgãos de segurança devem produzir avaliação de ameaças, devem agir com vistas além de sua jurisdição e ter uma capacidade de atuação global, levantando fatores que podem restringir as oportunidades para o crime organizado atuar, detectando as fraquezas das estruturas sociais que permitem o florescimento do fenômeno202.
Nesse contexto, apesar das dificuldades teóricas, administrativas, legais, estruturais, culturais ou conflitos de interesse, a utilização da inteligência para o controle do crime organizado, seja policial ou dos demais órgãos do Estado, seja inteligência em nível operacional, tático ou estratégico, é o caminho adequado a ser trilhado, pois, enquanto pensamos, as organizações criminosas estão aproveitando as oportunidades em aberto.