V. Estudos de caso
2. A terceirização de unidades hospitalares
2.3. Controle e acompanhamento do processo de terceirização
O processo de terceirização de uma unidade hospitalar é iniciado através de leis especificas e critérios técnicos elaborados pela Superintendência de Regulação, Promoção e Atenção à Saúde – SURAPS da SESAB. Os estudos básicos são feitos a partir do modelo de funcionamento de um hospital, com número de leitos e característica de complexidade relativa ao seu porte, com base nos procedimentos que poderiam ser gerados por mês por determinada capacidade instalada, resultando num perfil dos custos estimados para a sua operacionalização e de quanto significaria a manutenção deste hospital. Após a definição destes critérios técnicos, específicos para cada unidade que será terceirizada, como procedimento-padrão um processo é enviado à diretoria administrativa da SESAB, que verifica a existência de dotação orçamentária específica para aquela unidade e a disponibilidade de recursos. Após essa verificação, o processo é encaminhado para a Coordenação de Licitação, que elabora o edital de concorrência pública, seguindo para o gabinete do Secretário Estadual de Saúde de onde, depois de aprovado, segue para publicação. Após aprovação e homologação do contrato e iniciada a gestão, a responsabilidade de fiscalização é da Comissão de Fiscalização e Acompanhamento da Gestão dos Hospitais Públicos Terceirizados, presidida atualmente por Públio Ezequiel Cardoso. A função da comissão é acompanhar a gestão dos hospitais terceirizados, promovendo a fiscalização e acompanhamento das atividades das unidades terceirizadas. Apesar do primeiro contrato de gestão ter sido firmado em 1996, a Comissão até agora não faz parte da estrutura organizacional da SESAB e foi criada há apenas um ano e meio, através de uma portaria de designação do Secretário Estadual da Saúde, estando subordinada à Diretoria Geral da SESAB.
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RE L A T Ó R I O D E PE S Q U I S A Nº 1/ 2003 A comissão é composta por quatro membros: um administrador (que atualmente é o presidente da comissão e é proveniente da Coordenação de Licitação da SESAB), um médico, responsável pela auditoria médica e análise dos prontuários, um contador e um administrador hospitalar. Todos são provenientes de quadros da SESAB. Esta comissão deve verificar se a administração está compatível com o que foi pactuado no contrato, reportando os resultados das auditorias para aprovação pelo Conselho Estadual de Saúde da Bahia. Caso seja constatado algum desvio, inicia-se a tarefa de acompanhamento e de orientação, para que a unidade se enquadre nos termos do contrato. Mensalmente as unidades terceirizadas remetem à comissão a fatura e o relatório gerencial. Após a análise destes relatórios a comissão promove visitas às unidades, gerando relatórios de inspeção.
Quanto ao controle das unidades terceirizadas, o Presidente do Sindicato dos Médicos do Estado da Bahia entende que não haja de fato um controle efetivo. Ele assegura, já que é membro efetivo do Conselho Estadual de Saúde, que a prestação de contas dos hospitais são feitas apenas por meio de relatórios demonstrativos e por análises numéricas. Segundo ele, isso pode dar margem a conclusão que as unidades terceirizadas funcionem bem, pois cumprem as metas de realizar um certo número de consultas e procedimentos constantes nos contratos de gestão, mas essa avaliação não permite saber o quanto estas unidades estão integradas à rede do SUS. Estes hospitais, segundo Alfredo Boa Sorte Junior, não respondem ao SUS e por terem uma cota de atendimento fixada em contrato, quando estouram sua cota encaminham os pacientes aos hospitais públicos do SUS. Por isso eles não atendem com macas nos corredores como os hospitais do SUS são obrigados a fazer quando estouram sua capacidade de atendimento e isto é usado como propaganda para dizer que a administração privada funciona e que a pública não funciona, como marketing da campanha de terceirização, segundo o presidente do Sindicato.
De fato, segundo o presidente da Comissão de Fiscalização e Acompanhamento da Gestão dos Hospitais Públicos Terceirizados, a comissão pode avaliar apenas o desempenho geral da administração das empresas privadas. Já uma fiscalização mais
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RE L A T Ó R I O D E PE S Q U I S A Nº 1/ 2003 ativa e participativa só é possível na modalidade de administração via organização social. O Estado da Bahia possui apenas uma experiência deste tipo, que é o Hospital Mario Dourado Sobrinho em Irecê, gerido pela organização social PROMIR. O contrato é feito nos mesmos moldes dos contratos com as empresas privadas, em que o Estado cede a estrutura física, o imóvel e os equipamentos, e a organização social se encarrega de toda a administração da unidade. Como diferencial, Públio Ezequiel Cardoso cita que existem membros da SESAB tanto no conselho fiscal como no conselho administrativo, e que se utiliza o sistema de contabilidade pública, diferente dos contratos com as empresas privadas que trabalham dentro do sistema de contabilidade comercial, ao qual a Comissão de fiscalização não tem acesso. No modelo usual, apesar do controle e acompanhamento serem feitos por SESAB, todo gerenciamento é das empresas e os contratos não prevêem o acesso à parte contábil financeira, só a área administrativa e a área de auditoria médica. No caso, as empresas só são obrigadas a entregar o relatório gerencial. Na gestão por organização social a transparência do processo é maior pois envolve também a participação nos conselhos de gestão de representantes de outros órgãos do Estado, como Secretaria Estadual de Planejamento, Ciência e Tecnologia, Secretaria da Fazenda, Procuradoria Geral do Estado e Sociedade Civil de Irecê.
Por outro lado, Joselita Nunes Macedo, superintendente de SUDESC, cita que a experiência de Irecê teve um grande problema com os funcionários públicos originais do hospital. O governo, ao passar a administração do hospital para a organização social PROMIR, teria que realocar os funcionários do hospital, e como a cidade de Irecê é pequena, esta acabou não tendo condições de absorver todo contingente, resultando no estabelecimento de uma ação judicial dos funcionários contra o Estado. Isso realça a tese do Secretário da SESAB de que este processo deva ser feito prioritariamente em unidades novas, pelo potencial conflito com o funcionalismo público. No entanto, apesar deste problema, não relacionados ao modelo de gestão, a experiência de Irecê parece ser bastante positiva. Embora esta experiência de administração via organização social seja muito interessante e muito
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RE L A T Ó R I O D E PE S Q U I S A Nº 1/ 2003 mais representativa em outros Estados, na Bahia ainda representa um caso isolado dentro do modelo mais geral de terceirização adotado por SESAB, não havendo até o momento uma tendência da Secretaria passar a adotar este modelo como prioridade, e sim o contrario, cada vez mais se adotar a terceirização de unidades com gestão por empresas privadas.