CAPÍTULO 1 – HISTÓRIA DAS POLÍCIAS MILITARES
1.2 Controle e Relações de Poder na Sociedade
Sem negar a importância do Estado nem a concentração de forças que ele possui, Foucault (1980) estabelece um deslocamento na ideia de uma centralização do poder que emana exclusivamente do Estado ao identificar a existência de relações de poder que se estabelecem para além dele e se estendem por toda a sociedade. É o que ele chama de “micropoderes” que searticulam e se manifestam nas tramas da sociedade. Assim diz Foucault:
Eu não quero dizer que o Estado não é importante; o que quero dizer é que as relações de poder, e, consequentemente, sua análise se estendem além dos limites do Estado. Em dois sentidos: em primeiro lugar, por que o Estado, com toda a onipotência do seu aparato, está longe de ser capaz de ocupar todo o campo de reais relações de poder, e
principalmente porque o Estado apenas pode operar com base em outras relações de poder já existentes. O Estado é a superestrutura em relação a toda uma série de redes de poder que investem o corpo, sexualidade, família, parentesco, conhecimento, tecnologia, etc. (FOUCAULT, 1980, p.122).
Foucault percebe, no interior da estrutura da sociedade, as relações de poder que se estabelecem de maneira difusa, mas permanente. Percebe o poder não como propriedade de uma dada instituição ou classe, ou como um bem que pode ser apropriado ou mesmo conservado, antes entende como uma estratégia resultante de disposições, de manobras, de táticas, de técnicas, de funcionamentos. Para ele,
[...] esse poder se exerce mais que se possui, que não é ‘privilégio’
adquirido ou conservado da classe dominante, mas o efeito de conjunto de suas posições estratégicas – efeito manifestado e às vezes reconduzido pela posição dos que são dominados. Esse poder, por outro lado, não se aplica pura e simplesmente, como uma obrigação ou uma proibição, aos que ‘não têm’; ele os investe, passa por eles e através deles; apóia-se neles, do mesmo modo que eles, em sua luta contra esse poder, apóiam-se por sua vez nos pontos em que ele os alcança.
(FOUCAULT, 1994. p. 29, grifos doautor).
Foucault (2009) esclarece que, ao longo de toda a história, sempre existiram os jogos da verdade criados e subjetivados, servindo para sustentar o poder. Para ele, esta verdade estaria além dos saberes, além do conhecimento científico, econômico, estatístico, apesar de contê-los. Tal verdade deveria dar um passo a mais na direção da sustentação do poder, seja ele qual fosse. Todo governo o tem, pois, ainda hoje existe esse processo de produção da verdade.
De acordo com seu pensamento, a diferença entre o que se vive contemporaneamente e a produção da verdade nos séculos passados, encontra- se mesmo na substituição do cenário, do campo, do meio cultural, como diria Bourdieu ou Norbert Elias (sobre a sociedade de corte). Atualmente se vê as legislações, os tribunais, a burocracia produzindo um cenário, sustentando a legitimidade do poder do governante. Essas verdades, criadas com o fim de legitimar o exercício do poder, nascem de um processo de dar formação a essas retóricas, a esses cenários que se tornaram uma arte de governar, uma racionalidade de governar e de onde procedem as teorias sobre Estado, a razão de Estado, exigindo uma nova dinâmina de forças, capaz de manter o equilíbrio entre os Estados. Portanto, foi a necessidade de conservação do equilíbrio entre
as forças dos estados europeus, o verdadeiro problema posto a essa nova racionalidade governamental que, para sua sustentação, exigiu a criação do dispositivo diplomático-militar e do dispositivo de polícia. Para ele,
O verdadeiro problema dessa nova racionalidade governamental não é, portanto, tanto ou somente a conservação do Estado numa ordem geral, mas a conservação de uma certa relaçao de forças, a conservação, a manutenção ou o desenvolvimento de uma dinâmica das forças.
(FOUCAULT, 2008a, p. 397).
Foucault observa que é no limiar da modernidade que essa arte de governar,
Vai consistir, não em restituir uma essência ou em permanecer fiel a ela, vai constituir em manipular, em manter, em distribuir, em restabelecer relações de força, e relações de força num espaço de concorrência que implica crescimentos competitivos. (FOUCAULT, 2008a, p. 419-420).
É nesse espaço de concorrência introduzida no campo de equilíbrio da balança da Europa no século XVII até o fim do século XVIII, que o sentido da palavra “polícia” nasce com uma conotação totalmente diferente do que hoje entendemos (FOUCAULT, 2008b, p. 420) nas sociedades ocidentais comtemporâneas.
No século XVI, na medida em que crescia a necessidade de informação e controle sobre a população e sobre as potencialidades do Estado, de modo a fazer crescer o Estado em termos da produção de riquezas, crescia também a necessidade de tornar felizes aqueles que a produziam. Este controle da sociedade e da produção das riquezas, do conhecimento das potencialidades do Estado, era chamada de polícia. As palavras “polícia” e República” eram frequentemente associadas nos escritos do século XVI. Este uso da palavra polícia, ligado à instrução das crianças; à caridade dos pobres e à saúde pública;
ao favorecimento do comércio; e aos registros dos bens imobiliários irá vigorar praticamente até início do século XVII (FOUCAULT, 2008a, p.421).
Sobre a doutrina de polícia à época, esta foi definida pela natureza dos objetos e objetivos que a racionalidade do Estado perseguia e a forma como empregava seus instrumentos nessa busca. As teorizações se dirigiam ao fortalecimento do rei, daquele que governava a exemplo de Deus governando o mundo. Todavia, com as pesquisas se voltando ao fortalecimento do próprio Estado, independente da figura do governante, começaram a se formar as teorias
da razão de Estado. E essas teorias se interessavam pelas potencialidades do Estado e nas maneiras de as elevar. As capacidades do Estado e as formas de aumentá-las deveriam ser conhecidas, ou seja, suas forças deveriam ser conhecidas, assim como as forças dos outros Estados. A racionalidade do Estado ficava esclarecida pelo interesse, pelo saber das potencialidades e já caminhava para o lado oposto da ideia da arte de governar baseada no modelo divino ou natural.
Se antes a palavra polícia estava ligada à ideia de uma força de comunidade ou de associação regida por uma autoridade pública, é a partir do século XVII que a palavra “polícia” vai começar a adquirir um outro significado, no dizer de Foucault, “profundamente diferente”.
A partir do século XVII, vai-se começar a chamar de ‘polícia’ o conjunto dos meios pelos quais é possível fazer as forças do Estado crescerem, mantendo ao mesmo tempo a boa ordem desse Estado. Em outras palavras, a polícia vai ser o cálculo e a técnica que possibilitarão estabelecer uma relação móvel, mas apesar de tudo estável e controlável, entre a ordem interna do Estado e o crescimento das suas forças. (FOUCAULT, 2008a, p. 421, grifos do autor).
Tem-se, portanto, a partir do século XVII, uma definição de polícia quepassa cada vez mais a se aproximar da definição de cidade e de urbanidade ouurbanização. Pois quanto mais cresce o comércio, quanto mais cresce apopulação, mais há necessidade de controle do Estado sobre essaspessoas esobre essa circulação de riquezas. Era necessário disciplinarização das pessoas, do crescimento das cidades, da urbanização e isso era fazer polícia, ou seja, era fazer um bom governo, garantindo o bom crescimento das cidades. Nos estudos apresentados por Foucault é possível perceber que ocontrole e a disciplina das pessoas, das suas condutas e do comércio eram oobjetivo da polícia, ainda que para Foucault o monopólio das forças não é uma exclusividade do Estado. Desde o nascimento do termo se vê sua relação direta com os interesses do Estado e com a disciplina, ou seja, a coexistência entre os homens era o objetivo da polícia. A palavra polícia já nasce intrinsecamente ligada à busca de atingir os objetivos do Estado, mantendo para tal fim, o controle das pessoas e seus afazeres, suas condutas e também, mantendo o equilíbrio entre os interesses do Estado, do governante e o bem estar da população. A polícia fazia parte da forma de manutenção da ordem do governante. E isso se evidencia nesse momento, pois a
polícia ainda não dizia respeito às leis, mas apenas às vontades diretamente emanadas do governante. Eram ordens diretas que não passam pelo crivo da justiça, não possuíam vínculo com as leis. Ou seja: a polícia era o instrumento de crescimento da força estatal e sua função era basicamente utilitária em prol do crescimento do Estado ao se ocupar da nova razão do Estado. Assim se expressa Foucault,
Daí o fato de que a polícia nos séculos XVII e XVIII foi, a meu ver, essencialmente pensada em termos do que poderíamos chamar de urbanização do território. Tratava-se, no fundo, de fazer do reino, de fazer do território inteiro uma espécie de grande cidade, de fazer que o território fosse organizado como uma cidade, com base no modelo de uma cidade e tão perfeitamente quanto uma cidade. (FOUCAULT, 2008a, p.452).
Essa subordinação das atividades chamadas de polícia ao governante de forma direta e sem regulamentação somente se torna visível na segunda metade do século XVIII. O que era um grande projeto de polícia na Europa que incluía diversas funções como o controle e organização das cidades por meio da disciplinarização, esse projeto começa a ser questionado e criticado duramente pelos economistas. Uma classe de intelectuais que surge divulgando estudos de que os fenômenos das populações e do comércio eram naturais e dessa forma se resolviam naturalmente, não necessitando de controle estatal para sua contenção.
A partir dessas ideias, a liberdade torna-se o direito primeiro a ser buscado e defendido, de maneira que a polícia tal como existiu até então começa a perder seu espaço de atuação e termina por manter-se apenas com as questões de manutenção da ordem baseada nas leis vigentes e seus regulamentos.