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Controle judicial dos atos administrativos

CAPÍTULO 4 SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL BRASILEIRO

5.6 Controle judicial dos atos do Legislativo

5.6.1 Controle judicial dos atos administrativos

Costuma ser pacífico o juízo de que os atos administrativos do Poder Executivo e do Legislativo não podem ser executados sem qualquer controle, com este Poder livre, sem fronteiras, sem obediência a qualquer ordenamento jurídico379. Essa linha

de pensamento se funda no modelo de conformação do Estado Liberal, tradição que perdura há muito. Conforme tal postura, só seria cabível a intervenção jurisdicional com relação ao aspecto formal do ato administrativo; toda atuação que extrapolasse esse limite seria considerada como desrespeito ao princípio da separação dos Poderes380.

Ao se examinarem as alterações pelas quais o Estado passou, precipuamente no que concerne à ingerência deste em distintos setores da vida social, constata-se que o controle judicial da atividade pública precisa de novos parâmetros. Com o tempo, houve a expansão dos limites de atuação da atividade administrativa, decorrente da mudança de relação do cidadão com o Estado, cenário que ocasionou a necessidade de se aprimorar a atuação administrativa, com mais eficiência e eficácia381.

Em tal contexto, o controle judicial dos atos administrativos, anteriormente restrito à avaliação da legalidade desse ato no âmbito do Direito Administrativo, foi estendido para o controle da constitucionalidade dos atos

378 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. 30. ed. São Paulo: Malheiros, 2005, p. 55. 379 MAGELA, Geraldo e MENESES, Silva. Limites ao poder jurisdicional na perspectiva do direito brasileiro. Revista de Informação Legislativa. Brasília: Subsecretaria de Edições Técnicas do Senado Federal, ano 40, nº 159, julho – setembro – 2003, p. 25.

380 MORAES, Germana de Oliveira. O controle Jurisdicional da Administração Pública. São Paulo: Dialética. 1999, p.12.

administrativos. O Poder Judiciário, além de analisar a legalidade desse tipo de ato, para examinar a conformidade com as regras jurídicas, poderia passar a investigar a juridicidade desse ato, examinando sua conformidade com os preceitos afetos à Administração Pública382

.

Não se concebe, então, a Administração Pública desvinculada de “cânones legais”383, de parâmetros de conduta; se assim ocorresse, as ações realizadas por

agentes públicos não possuiriam validade jurídica, tornando-se, dessa forma, ineficazes. A motivação dos atos administrativos tanto propicia transparência à atividade administrativa acerca das razões de fato e dos fundamentos jurídicos das decisões, quanto possibilita o autocontrole pela própria Administração, sem prejuízo do controle por outros poderes estatais, mormente pelo Poder Judiciário384. Embora não

persistam dúvidas sobre o fato de a Administração Pública poder anular ou revogar os atos que pratica, ainda ecoam críticas e interrogações quando se reflete a respeito da intervenção jurisdicional em atividades administrativas, pois alguns veem com certa preocupação o poder do Judiciário no julgamento dos atos administrativos385.

O entendimento adequado é que os atos administrativos, contanto que reflitam o exercício de função tipicamente administrativa, sejam emanados do Legislativo, do Executivo ou do Judiciário, precisam sofrer algum tipo de controle, a fim de assegurar que a atuação dos entes públicos ocorra em consonância com as normas referentes a cada Poder e a cada instituição.

O controle de tais atos pode ser efetivado por meio de instrumentos prescritos pela Constituição. Nesse contexto, o Ministério Público tem significativo papel, porque é de sua competência fiscalizar os atos administrativos, em cumprimento ao disposto no art. 129 do texto constitucional – pode tanto instaurar inquéiro civil, solicitar investigações, reprimir atos de improbidade administrativa, quanto denunciar autoridades

382 MORAES, Germana de Oliveira. O controle Jurisdicional da Administração Pública. São Paulo: Dialética. 1999, p. 30.

383 MAGELA, Geraldo; MENESES, Silva. Limites ao poder jurisdicional na perspectiva do direito

brasileiro. Revista de Informação Legislativa. Brasília: Subsecretaria de Edições Técnicas do Senado Federal, ano 40, nº 159, julho – setembro – 2003, p. 25.

384 MACHADO, Hugo de Brito. Motivação dos atos administrativos e o interesse Público. Revista AJUFE. Estudos em Homenagem a Jesus Costa Lima e Hugo de Brito Machado. Fortaleza. Ceará, 1999, p.212. 385 MACEDO, Cristiane Branco. A legitimidade e a extensão do controle judicial sobre o processo

legislativo no Estado Democrático de Direito. 2007. 235 f. Dissertação (Mestrado em Direito)-

públicas por delitos cometidos no exercício de suas funções e resguardar interesses difusos e coletivos.

Ademais, a lei, objetivamente, atribui às instituições públicas o poder- dever de controlar os atos advindos pela Administração Pública, prerrogativa a qual não pode ser denegada sob pena de ocorrer a punição de quem deixar de se manifestar. O controle abarca não só a identificação como a correção dos atos ilegais, mas também daqueles que não satisfazem ao interesse público.

Ainda na aplicação do Sistema de Controle Jurisdicional dos atos administrativos, observa-se restrição do poder do Judiciário, ao qual compete o exame da legitimidade e da legalidade desse tipo de ato, caso contrário transgrediria o princípio da independência dos Poderes386. Para preservar tal independência, o Poder Judiciário não

deve cientificar-se de atos políticos e legislativos, conquanto possua atribuição constitucional para investigar todos os atos que possam atentar contra as normas vigentes e os preceitos constitucionais.

Ao Poder Judiciário é permitido perquirir todos os aspectos de legalidade e legitimidade para descobrir e pronunciar a nulidade do ato administrativo onde ela se encontre, e seja qual for o artifício que a encubra. O que não se permite ao Judiciário é pronunciar-se sobre o

mérito administrativo, ou seja, sobre a conveniência, oportunidade,

eficiência ou justiça do ato, porque, se assim agisse estaria emitindo pronunciamento de administração, e não de jurisdição judicial387.

Segundo Magela e Meneses388,

Ao Poder Judiciário incumbe prestar providências de intervenção nos litígios instaurados. Proclama-se na Lex Legum que nenhuma lesão ou ameaça a direito será excluída da apreciação dos órgãos judiciários (art. 5º, XXXV, CF/88). Esse enunciado expressa o princípio da inafastabilidade da prestação da tutela jurisdicional.

No controle da Administração Pública, o Poder Judiciário exerce a tarefa de Estado-Juiz a que se submete o Estado-Administrativo.

Uma ordem legal que não contemplasse formas de controle da Administração Pública, por meio do Judiciário, não residiria nos

386 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. 30 ed. São Paulo: Malheiros, 2005, p. 55. 387 Idem, ibidem.

388 MAGELA, Geraldo; MENESES, Silva. Limites ao poder jurisdicional na perspectiva do direito brasileiro.

Revista de Informação Legislativa. Brasília: Subsecretaria de Edições Técnicas do Senado Federal, ano 40,

quadrantes jurídicos. Seria, escancaradamente, contrária à idéia do Direito.

Desse modo, está o Judiciário apto a exercer o controle judicial, anulando atos ilegais praticados pelos outros Poderes, desde que seja para isso provocado mediante instrumentos processuais legais. Ele não deve, entretanto, perquirir a oportunidade e a conveniência de tais ações, limitando-se a analisar a legalidade ou a possível lesão a patrimônio público ou a interesses coletivos.

Oa atos administrativos não podem ser suscetíveis de sofrer revisões ilimitadas. Se assim sucedesse, haveria a afronta aos princípios da separação dos Poderes, atingindo especialmente atos advindos do Poder Executivo. Desse modo, não compete ao Judiciário julgar a justeza ou não do ato administrativo ou da penalidade atribuída – mérito do ato -, de competência exclusiva da autoridade administrativa389.