CAPÍTULO II – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.1. Caracterização da Tuberculose Bovina nos Países Desenvolvidos
2.1.4. Controlo
2.1.4.1. Controlo do Mycobacterium bovis nos Efectivos Bovinos
O reconhecimento da dimensão da problemática Tuberculose Bovina na produtividade dos efectivos bovinos e da sua importância para a saúde pública apenas foram evidenciados no início do século XX com o desenvolvimento da indústria leiteira nos EUA e na Europa (Abalos e Retamal, 2004).
Assim, nos EUA iniciou-se uma forte campanha contra a doença baseada na inspecção sanitária de carcaças (Essey e Koller, 1994) que alastrou-se aos outros países e posteriormente enriquecida com medidas de higiene alimentar (a pasteurização do leite) e medidas de controlo da doença nos efectivos bovinos após o desenvolvimento da tuberculina (Good e Duignan, 2011).
A globalização dos mercados trouxe novas exigências em relação à saúde animal, assim, nos países desenvolvidos, as razões que no passado sensibilizavam para o controlo da doença, actualmente têm um maior impacto e praticamente impõem o seu controlo e erradicação (Gordejo e Vermeersch, 2006; Ribeiro, 2010).
A implementação de um PETB na actualidade prende-se essencialmente com o potencial risco zoonótico desta doença e com as perdas económicas associadas à acentuada quebra na produtividade dos animais infectados e com as fortes restrições ao comércio nacional e internacional de animais e seus produtos quando provenientes de áreas não livres da doença (Cousins, 2001; Wedlock et al., 2002).
Actualmente, um Programa de Erradicação é um plano complexo de estratégias de várias naturezas (médica, sanitária, administrativa) adaptadas à realidade de cada país tendo como objectivo final a erradicação a curto ou a médio prazo (5DGV, 2009; 8DGV, 2011).
Para a sustentabilidade de um PE este deve ser dividido em duas fases, uma inicial para o controlo da doença, pela adopção de medidas que proporcionem uma diminuição sucessiva de focos e uma segunda fase de vigilânciade forma a garantir a erradicação (Schiller et al., 2011)
A aplicação das medidas de controlo iniciam-se com uma rotina de testes tuberculínicos e posterior abate dos animais reagentes em explorações localizadas em áreas com elevada incidência da doença (Schiller et al., 2011). Tal permite eliminar fontes de infecção e prevenir a movimentação destes animais o que promoveria uma disseminação do agente (Collins, 2006). Quando o programa já atingiu grande parte das explorações e a prevalência da doença sofreu uma quebra considerável agrega-se a essa estratégia a vigilância de novos focos a partir do matadouro sendo pouco requisitados os diagnósticos definitivos (Collins, 2006). Nos estágios mais avançados do plano, em resultado da diminuição da incidência da doença, torna-se essencial o diagnóstico definitivo baseado na cultura e no isolamento do patógeno (Wedlock et al., 2002).
Deste modo, a inspecção sanitária post mortem dos animais previne a entrada de carne imprópria para consumo na cadeia alimentar bem como, permite aos serviços veterinários o
34
rastreamento da exploração de origem de forma a detectar possíveis animais infectados que actuam como perpetuadores da infecção (Collins, 2006).
No entanto, os planos de erradicação da actualidade são mais complexos e integram também um conjunto de medidas profilácticas, de acordo com a região afectada, que eliminam, diminuem ou evitam a dispersão da doença, nomeadamente, o controlo da movimentação animal, o abate seleccionado, o abate total, o maneio dos reservatórios selvagens, entre outras medidas de maneio e biossegurança.
Assim, o controlo do trânsito animal através de testes de pré-movimentação e verificação documental, é uma ferramenta essencial para evitar a deslocação de animais de explorações/áreas infectadas para explorações/áreas livres de doença (Wedlock et al., 2002), e com crescente importância, associado com as actuais limitações nas medidas de controlo (falha na sensibilidade das provas de diagnóstico) em países com baixa prevalência ou oficialmente indemnes e com o intenso comércio animal (Schiller et al., 2011).
O abate total é uma medida que pode ser adoptada em casos específicos, pois torna-se mais rentável a nível financeiro e epidemiológico que a testagem contínua em regiões ou áreas problemáticas (Wedlock et al., 2002).
O abate selecionado de animais com idade igual ou superior a cinco anos nos estádios finais do PE ou quando a prevalência da doença era superior a 3% teve sucesso na Austrália (Cousins e Roberts, 2001).
Também é extremamente importante adequar as medidas de controlo tendo em conta o sistema típico de produção de cada região e as práticas de maneio adoptadas pelos produtores pecuários. Assim, o espalhamento de estrumes em terrenos que servirão de pasto ou colheita de alimento para os animais deve ser evitado, principalmente se o efectivo está infectado, ou pelo menos deve ser feito o armazenamento do estrume antes deste ser utilizado e nunca com os animais no local, de forma a evitar a transmissão por via aerógena.
Após um surto da doença numa região, os animais devem ser afastados das fontes de água naturais e os utensílios utilizados no seu abeberamento limpos regularmente. É também fundamental, o leite de animais confirmados ou duvidosos não ser utilizado na alimentação dos vitelos (Philips et al., 2003).
Outras medidas devem ser implementadas de forma a evitar contactos de bovinos criados em sistemas extensivos com animais de explorações contíguas ou espécies silváticas, como o adequado isolamento através de cercas ou muros (Humblet et al., 2009).
Relativamente às limpezas e desinfecções depois de um surto da doença, estas devem ser minuciosas e sempre considerando as resistências e sensibilidades do M. bovis.
O M. bovis apresenta resistência a diversos desinfectantes químicos, com excepção dos produtos que desnaturam proteínas como os fenóis a 5%, o formol a 3%, o glutaraldeído, o formaldeído, soluções à base de iodo e em casos de baixa concentração de matéria orgânica, o hipoclorito de sódio a 1% pode ser efectivo, embora todos exijam longo período de contacto para inactivação (Morris et al.,1994; CFSPH, 2009).
35
É uma bactéria pouco resistente ao calor, como tal processos que envolvam temperaturas elevadas tais como: o calor húmido (121°C) por um período mínimo de 15 minutos
(CFSPH, 2009), a pasteurização (no caso do leite, utilizando temperaturas de 63,5ºC por 30 minutos ou 72ºC por 15 segundos) (de la Rua Domenach, 2006), a exposição à luz solar ou à radiação ultravioleta torna-se eficiente na eliminação deste microorganismo (Ayele, 2004).
Actualmente o tratamento dos bovinos infectados com este agente patogénico é proibido e os estudos para o desenvolvimento de uma vacina progridem, de forma a ultrapassar as limitações relacionadas com a aplicação da BCG humana aos animais pois, não fornece uma protecção completa aos bovinos e interfere nos resultados das provas diagnósticas. As soluções investigadas para eliminar estas limitações tem sido a recombinação da BCG com outro tipo de vacinas e a utilização de baixas doses de BCG por via mucosa (Buddle et al., 2011). Por outro lado, também têm sido desenvolvidos testes para diferenciar animais vacinados de não vacinados, de forma a ser possível a utilização da BCG nos bovinos (Whelan et al., 2010).
O sucesso de um programa de erradicação é influenciado por diversos factores, contudo é certo que seja proporcional ao grau de comprometimento e articulação de todas as entidades envolvidas no mesmo (Cousins, 2001).
O compromisso político nestes planos quer a nível financeiro, quer a nível de legislação é essencial, pois permitem uma estabilidade e cumprimento das medidas a adoptar.
Uma vez que o controlo e erradicação da TB exige um grande nível de competência e esforço é essencial uma relação estreita entre os serviços de saúde pública e sanidade animal que proporcione circulação de informação de forma a agilizar e reformular as medidas a aplicar, bem como a formação constante das várias entidades envolvidas nas diversas abrangências do plano.
É também fundamental a integração nestes planos das instituições de educação e investigação, de forma a obter respostas a muitas questões que continuam em aberto, bem como da própria indústria pecuária com o intuito de incentivar e sensibilizar para a realidade actual da doença (Abalos e Retamal, 2004).
Ainda, é fulcral uma evolução dinâmica das estratégias implementadas, devendo ser remodeladas e reajustadas conforme as circunstâncias para atingir sempre os objectivos propostos (Good e Duignan, 2011).
Na União Europeia, de acordo com a legislação em vigor, um EM ou região é considerado oficialmente indemne de tuberculose bovina quando todas as seguintes condições descritas são cumpridas.
Assim, é requerido que todos os bovinos se encontrem identificados e registados de acordo com a legislação comunitária; que a todos os bovinos abatidos seja realizada a inspecção
post mortem oficial, e para um período de tempo de seis anos consecutivos a percentagem
36
99,9% dos efectivos possua o estatuto de oficialmente indemne no final de cada um desses anos (Gordejo e Vermeersch, 2006).
Embora, a maioria dos países desenvolvidos tenham iniciado PETB desde há muitos anos e o contéudo destes planos sejam equivalentes, os resultados são bastante heterógéneos. Actualmente os PETB na Europa enfrentam alguns desafios uma vez que o abate total por questões económicas não é facilmente implementado, o comércio nacional e internacional é mais intenso complicando o controlo da movimentação animal, os testes de diagnóstico apresentam falhas consideráveis e o aparecimento de reservatórios selvagens impedem a erradicação efectiva da doença (Schiller et al., 2011).