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Controlo dos agentes infeciosos e parasitários

II. ABORDAGEM AO ANIMAL VÍTIMA DE MAUS-TRATOS EM AMBIENTE DE ABRIGO

5. Terceira fase: estadia no abrigo

5.1. Admissão

5.1.2. Controlo dos agentes infeciosos e parasitários

Os Abrigos são locais onde existe um risco acrescido de exposição e transmissão de doenças infeciosas e perpetuação de parasitismo devido a densidades populacionais elevadas e à existência simultânea de animais com diferentes idades, níveis de stress, estados de saúde, estados imunitários e historial de vacinação e desparasitação predominantemente desconhecido (Newbury et al., 2010; Spindel, 2013). O controlo dos agentes infeciosos e parasitários tem de ser realizado de forma holística, isto é, criando programas de bem-estar físico e psicológico que incluam (Spindel, 2013):

1. Minimização da suscetibilidade dos hospedeiros por meio de dietas estáveis e nutricionalmente adequadas, controlo da dor, terapêuticas estritamente necessárias e dirigidas ao agente (tratamentos desnecessários podem, por vezes, aumentar a vulnerabilidade a outras doenças), densidade populacional dentro dos limites da capacidade do Abrigo em fornecer cuidados, enriquecimento ambiental, um sistema de reconhecimento precoce dos indivíduos com uma maior suscetibilidade inalterável (imunocomprometidos, feridos com gravidade, gestantes, pediátricos), entre outros; 2. Otimização da capacidade de resistir a doenças, alcançada por via de vacinação e

desparasitação (interna e externa);

3. Diminuição da exposição a agentes patogénicos, ou seja, quebra do ciclo de transmissão entre hospedeiro e agente, ambos normalmente difíceis de controlar em ambiente de abrigo, através do desenho apropriado das instalações (sistema de abastecimento de água, saneamento, aquecimento, ventilação, padrões de circulação humana e animal de acordo com a perspetiva do controlo das doenças infeciosas, possibilidade de segregação por espécie, idade e estado de saúde quer físico quer psicológico), de medidas administrativas (exame clínico de admissão documentado, protocolos de higienização das mãos, de limpeza e desinfeção das instalações e utensílios, de monitorização e remoção de animais doentes, de gestão de animais e pessoas no dia-a-dia e em caso de surto, e de gestão de animais com infeções zoonóticas, que assegurem que as ações são realizadas do animal com maior suscetibilidade/menor infeciosidade para o de menor suscetibilidade/maior infeciosidade) e de utilização de equipamento de proteção individual (EPI) (luvas e vestuário descartáveis, calçado impermeável, entre outros).

A transmissão indireta de doenças infeciosas através de veículos contaminados, denominados fomites, como por exemplo brinquedos, roupas, mãos, toalhas, água, alimentos, esfregonas, superfície das jaulas, entre outros, constitui, provavelmente, a via mais importante na propagação de doenças dentro do Abrigo, uma vez que a maioria dos agentes infeciosos relevantes em ambiente de abrigo, se não todos, podem ser transmitidos por aquele via. São exemplos os agentes responsáveis pelo complexo respiratório felino,

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traqueobronquite infeciosa canina, dermatofitose, parvovirose e panleucopénia (Scarlett, 2013).

No que diz respeito ao processo de admissão, é essencial que todos os animais sejam (1) alvo de um exame clínico individual documentado (nesta altura já efetuado), (2) rastreados para doenças comuns no Abrigo/região, de elevada infeciosidade, potencialmente fatais ou zoonóticas, (3) vacinados segundo um plano de vacinação adaptado às necessidades da sua população e (4) desparasitados interna e externamente contra parasitas presentes habitualmente na região onde o Abrigo está inserido e qualquer parasita detetado durante o exame clínico (Newbury et al., 2010; Hurley & Pesavento, 2013; Day et al., 2016).

Nos casos de larga-escala, o rastreio, a vacinação e a desparasitação profilática são geralmente realizadas logo após o exame clínico forense (Levy, 2013). Estas operações são sempre registadas na ficha clínica individual do animal e servem como ponto de referência para futuras vacinações de reforço e desparasitações de rotina (Kirk, 2012).

5.1.2.1. Rastreio de doenças infeciosas e parasitárias

A dermatofitose, por ser de fácil propagação, deve ser rastreada em cães e gatos no momento de admissão através de inspeção minuciosa do pelo em busca de lesões suspeitas e, se possível, de exame visual com lâmpada de Wood (Hurley & Pesavento, 2013; UC Davis KSMP, 2015b). Uma vez que a infeção é mais comum nos gatos, vários autores sugerem, para além das ações já descritas, a cultura micológica como método de rastreio e a quarentena até receção dos resultados (entre 14 e 21 dias) (UC Davis KSMP, 2015b; Newbury & Moriello, n.d.). Quando não for possível, devido a restrições financeiras, a cultura micológica deve incidir em todos os gatos de pelo comprido, nos com lesões dermatológicas de qualquer tipo, nos positivos ao exame com lâmpada de Wood, bebés e todos os envolvidos em casos de acumulação/negligência e abuso (Newbury & Moriello, n.d.). Se for necessário, por motivos práticos, fazer um diagnóstico presuntivo sem realizar uma cultura de fungos, devem ser considerados em conjunto a história do animal, os sinais clínicos e os resultados do exame da lâmpada de Wood (UC Davis KSMP, 2015b).

As infeções por FIV e FeLV devem ser rastreadas durante a admissão quando o período de quarentena no Abrigo implica o contacto com outros gatos (Möstl et al., 2013) ou mais tarde, se alojado individualmente, quando o animal é adotado ou apontado como candidato a alojamento em grupo, família de acolhimento ou qualquer outra situação que implique contacto direto com outros (Hurley & Pesavento, 2013). Como primeira abordagem, utilizam- se testes rápidos de imunocromatografia que detetam anticorpos anti-FIV e o antigénio p27 do FeLV (Kirk, 2012; Gingrich & Lappin, 2013). O destino dos animais positivos a FIV e/ou FeLV fica à consideração de cada Abrigo: eutanásia, alojamento individual, alojamento em grupo com animais do mesmo estatuto (FIV ou FeLV positivos saudáveis) ou família de acolhimento fora do Abrigo (Hurley & Pesavento, 2013). No entanto, o European Advisory

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Board on Cat Diseases (EABCD) não recomenda a eutanásia de gatos infetados por FIV ou FeLV assintomáticos, exceto quando não é possível separá-los do resto da população, e sugere que sejam adotados o mais cedo possível para habitações onde sejam o único gato e não tenham acesso ao exterior (Möstl et al., 2013). O EABCD não recomenda ainda a testagem de outros agentes infeciosos, incluindo coronavírus felino (FCoV), calicivírus felino (FCV), herpesvírus felino tipo 1 (FHV-1), vírus da panleucopénia felina (FPV) e nemátodes pulmonares, a menos que existam sinais clínicos específicos, e aconselha a desparasitação interna de todos os gatos em detrimento do rastreio de parasitas intestinais (Möstl et al., 2013).

A dirofilariose é uma doença endémica em Portugal e está presente tanto em cães (Duarte et al., 2009; Alho et al., 2014) como em gatos (Rosa, 2009). Uma vez que é transmitida por um vetor invertebrado (mosquito culicídeo), a sua transmissão em ambiente de abrigo é improvável, pelo que o rastreio através de testes rápidos deve concentrar-se nos animais sintomáticos ou provenientes de zonas conhecidas como tendo elevada incidência de dirofilariose (Hurley & Pesavento, 2013). Também a leishmaniose canina representa uma doença endémica em Portugal (Cardoso, Schallig, Neto, Kroon & Rodrigues, 2004; Cortes, Afonso, Alves-Pires & Campino, 2007; Maia, Nunes, & Campino, 2008; Maia, Dionísio, Afonso, Neto, Cristóvão & Campino, 2013). Por ser transmitida por um vetor invertebrado (mosquito flebótomo), poderá aplicar-se a mesma regra de testar apenas animais sintomáticos ou provenientes de zonas conhecidas como tendo elevada incidência de leishmaniose. O rastreio de ambas as doenças é importante para identificar o estado de saúde e o prognóstico, e não tanto para prevenir o risco de transmissão (Hurley & Pesavento, 2013).

O rastreio de doenças agudas deve focar-se em animais sintomáticos ou provenientes de zonas de alto risco. Por isso, o rastreio de infeções por parvorírus através de teste rápido só deve ser realizado em cachorros com sinais clínicos sugestivos (vómitos e diarreia sanguinolenta) ou cachorros assintomáticos cujos coabitantes apresentem já esses mesmos sinais (Miller & Janeczko, 2013; Hurley & Pesavento, 2013).

5.1.2.2. Protocolo de vacinação em ambiente de abrigo

Apesar de serem possíveis algumas variações associadas a prevalência de doença na região, características da população, recursos e objetivos do Abrigo, o protocolo de vacinação é, essencialmente, o mesmo para todos os animais alojados em Abrigo (UC Davis KSMP, 2015c). É altamente recomendada a vacinação de todos os animais à entrada no Abrigo (independentemente da sua taxa de eutanásia), pois esta permitirá alcançar, para além da proteção individual, uma alta imunidade de rebanho o mais rapidamente possível (Scarlett, 2013).

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Os cães devem ser vacinados no momento da admissão contra o vírus da esgana canina (CDV), o adenovírus canino tipo 2 (CAV-2) (que confere imunidade cruzada para o adenovírus canino tipo 1 [CAV-1] responsável pela hepatite infeciosa canina), o parvovírus canino (CPV), o vírus da parainfluenza canina (CPiV) e a bactéria Bordetella bronchiseptica (Bb), sendo os 3 (ou 4) primeiros antigénios normalmente agrupados numa única vacina viva atenuada polivalente (DAP – sem parainfluenza – ou DAPPi), administrada por via SC, e os 2 últimos antigénios agrupados numa única vacina viva modificada (CPiV+Bb), administrada por via intranasal (IN) (Welborn et al., 2011; Gingrich & Lappin, 2013; Day et al., 2016). A primovacinação dos cachorros com DAP(Pi) deve começar às 4-6 semanas de idade e o reforço dado a cada 2-4 semanas até às 18-20 semanas de idade, consoante o risco de infeção é elevado (início às 4 semanas e revacinação a cada 2 semanas) ou mais baixo. Os adultos devem ser vacinados uma vez e, se os recursos permitirem, revacinados 2-4 semanas depois, especialmente os cães com saúde mais debilitada na altura da primeira administração. A vacina CPiV +Bb IN deve ser administrada uma vez a todos os cachorros e adultos, sem necessidade de reforço (exceto cachorros vacinados antes das 6 semanas de idade). A administração correta destas duas vacinas (essenciais) previne e/ou atenua os sinais clínicos da parvovirose, esgana, hepatite infeciosa e traqueobronquite infeciosa caninas (Welborn et al., 2011; Miller & Janeczko, 2013; UC Davis KSMP, 2015c; Day et al., 2016).

Os gatos devem ser vacinados na admissão contra o FHV-1, FCV e FPV, normalmente agrupados numa única vacina viva atenuada polivalente (RCP) administrada por via SC. O esquema de primovacinação de gatos jovens e adultos é idêntico ao descrito para a DAP(Pi). A administração correta desta vacina (essencial) previne e/ou atenua os sinais clínicos da panleucopénia e complexo respiratório felinos (Griffin, 2013; Möstl et al., 2013; Scherk et al., 2013; UC Davis KSMP, 2015c; Day et al., 2016).

Em Portugal, a vacinação antirrábica é de caráter obrigatório para todos os cães com mais de três meses de idade e de caráter voluntário para gatos (Portaria n.º 264/2013 de 16 de agosto, Anexo, Capítulo I, Artigo 2º). As recomendações gerais são para que os animais recebam a vacina antirrábica quando abandonam, definitivamente, o Abrigo. No entanto, quando são previstas estadias longas ou em Abrigos onde se prevê a adoção de todos os animais, a vacina antirrábica pode ser administrada no momento da admissão em conjunto com as outras vacinas essenciais (Newbury et al., 2010).

As restantes vacinas não estão recomendadas para ambiente de abrigo, podendo essa recomendação ser revista de acordo com a situação específica de cada Abrigo (Gingrich & Lappin, 2013).

A vacinação deve abranger mesmo animais com febre, doença ou lesão ligeiras, fêmeas em gestação e lactantes e animais suspeitos de prévia exposição a agentes infeciosos, pois o risco relacionado com problemas na vacinação não é significativo em comparação com o

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representado por uma infeção num animal não vacinado (Larson, Newbury & Schultz, 2009; Welborn, et al., 2011; Scherk et al., 2013). Os animais que apresentem sinais de lesão ou doença que contraindiquem a vacinação devem ser isolados e/ou hospitalizados para receberem tratamento apropriado (Miller & Janeczko, 2013).

5.1.2.3. Protocolo de desparasitação em ambiente de abrigo

A desparasitação interna e externa deve ser realizada no momento da admissão e profilaticamente a intervalos regulares durante a estadia no Abrigo com um produto de largo- espetro eficaz contra Dirofilaria immitis, parasitas intestinais, pulgas e carraças (Companion Animal Parasite Council [CAPC], 2011). A desparasitação de cães e gatos com anti- helmínticos deve começar às duas semanas de idade e repetida quinzenalmente até aos dois meses de idade, mensalmente até aos seis meses e trimestralmente daí em diante (CAPC, 2011).