2. CODIFICAÇÃO DO DIREITO DAS ÁGUAS E QUADRO NORMATIVO ATUAL 1 O PROCESSO DE CODIFICAÇÃO DO DIREITO INTERNACIONAL DAS
2.2 PRINCÍPIOS INTERNACIONAIS AMBIENTAIS RELEVANTES
2.3.7 Convenção de Nova Iorque
Em 1970 a Assembleia Geral da ONU absteve-se de ratificar as Regras de Helsinque, preferindo requerer à Comissão de Direito Internacional a elaboração de um conjunto de artigos sobre o uso não navegável dos cursos d’água internacionais, cujo trabalho só viria a ser completado em 1994. Este conjunto de artigos foi então retomado pelos seis comitês de Direito da Assembleia Geral da ONU e vieram a resultar na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito dos Usos diferentes da Navegação dos Cursos de Água Internacionais de 1997. Sua aprovação na Assembleia Geral da ONU se deu por 103 votos, 3 contrários e 27 abstenções, sendo que, dentre os países do Mercosul, Brasil e Uruguai assinaram, enquanto os demais se abstiveram. 174
A Convenção é composta por 37 artigos e um anexo, divididos em 7 partes, quais sejam: Parte 1, Introdução (artigos 1-4); Parte 2, Princípios Gerais (artigos 5-10); Parte 3, Medidas de Planejamento (artigos 11-19); Parte 4, Proteção, Preservação e Gerenciamento (artigos 20-26); Parte 5, Condições Perigosas e Situações Emergenciais (artigos 27-28); Parte 6, Regras de Caráter Geral (artigos 29-33) e Parte 7, Cláusulas Finais (artigos 34-37). O 172 VILLAR, Pilar Carolina. Op. Cit., p. 109.
173 Ibid., p. 112.
52 anexo, por sua vez, esclarece os procedimentos caso os Estados optem por resolução de controvérsias via arbitragem. 175
Sua problemática parte do descompasso entre o aumento do uso da água e sua poluição, e afirma-se como um instrumento de garantia à utilização, ao desenvolvimento, à conservação, à gestão e proteção dos cursos de água internacionais, ao promover sua utilização otimizada e sustentável para as gerações presentes e futuras. Para tanto, reafirma em seu preâmbulo a necessidade da cooperação internacional, mas declara-se ciente a respeito das necessidades e situações específicas dos países em desenvolvimento. Ainda, invoca princípios das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente da Declaração do Rio e da Agenda 21.
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A Convenção se aproxima dos regimes já existentes sobre a navegação fluvial, sem, contudo, estabelecer hierarquias ou prioridades à qualquer destas utilizações, preferindo dispor sobre obrigações comuns aos Estados que compartilham do recurso, como a consulta de uns aos outros, proteção ambiental e solução de controvérsias. 177
Contudo, a discussão central trazida pela Convenção é a utilização equitativa e a regra da proibição do dano, regras essas aprovadas pela Assembleia Geral e que vieram a tornar-se diretivas a serem seguidas, 178 entabuladas respectivamente nos artigos 5º, que dita o dever estatal de “utilizar os cursos d’água internacionais de modo equânime e razoável”, requerendo uma utilização sustentável e otimizada dos cursos, e que seus benefícios “consistem na proteção adequada dos cursos d’água”;179 e 7º, que estabelece a obrigação de não causar danos significativos aos outros Estados do curso de água internacional.
Dano, aqui, é toda alteração que afete a um interesse jurídico do Estado ou que afete o uso razoável e equitativo por qualquer dos Estados. De acordo com Sola, dano significativo 180
é sempre resultado de um uso irracional e desigual de uma fonte hídrica internacional. Assim, todo uso irracional é ilícito, pois sempre acaba por levar ao dano e, consequentemente à ilicitude. Neste sentido, parte da doutrina tece críticas ao artigo 7º, pois consideram a expressão “proibição de causar dano” imprecisa. Outrossim, tal dever já estaria implícito na
175 CASTRO, Douglas de. Op. Cit., p. 79. 176 SOLA, Fernanda. Op. Cit., p. 160. 177 Ibid., p. 162.
178 Id.
179 AMORIM, João Alberto Alves. Op. Cit.,. p. 112. 180 SOLA, Fernanda. Op. Cit., p. 163.
53 noção de uso razoável e equitativo, de forma que desnecessário trazer outro termo que necessitasse uma definição posterior.
Outra crítica feita à Convenção de Nova Iorque é a abordagem restritiva com que tratou das águas subterrâneas, ainda que todos os consultores tenham sido assertivos quanto a necessidade de que às águas subterrâneas fossem objeto das mesmas regras aplicáveis às superficiais. Assim, incluiu somente aquelas cuja drenagem seja de término comum à água superficial, dentro da definição de cursos d’água. Sola considera que:
Essa definição ignora o fato da água subterrânea poder ser interdependente da água superficial e ainda de seguir outro caminho rumo ao mar, ou a qualquer outro fim, já que possui o seu próprio caminho. 181
Quanto ao tratamento dado às águas subterrâneas, Vilar reconhece que os recursos 182 hídricos superficiais ainda são o tema prioritário da Convenção, mas considera a inclusão das águas subterrâneas importante, ainda que de forma restritiva, pois as transformou em matéria de direito internacional, compondo o primeiro instrumento global com diretrizes para sua gestão. Destaca que a Convenção de Nova Iorque optou pelo termo “curso de água e curso de água internacional”, ao invés de bacia hidrográfica, como fez a Resolução de Salzburg e as Regras de Helsinque. Para esta, tal opção demonstra-se acertada, pois “o termo curso de água inclui todos os corpos de água diretamente conectados ao curso internacional, isto é, seus tributários e as águas subterrâneas relacionadas”.
A mesma autora aponta que há dois pressupostos da Convenção que restringem sua maior aplicabilidade às águas subterrâneas. O primeiro é o que diz respeito a um sistema de águas superficiais e subterrâneas (conexão hidráulica entre essas águas). Essa definição acaba por excluir do âmbito da convenção aqueles aquíferos que não possuem recarga, por serem confinados ou em decorrência de condições climáticas, e aqueles cuja recarga se dá pela chuva, sem conexão com outros corpos hídricos superficiais.. A segunda é a definição “conjunto unitário, cujas águas fluem para término comum”. Essa exigência dificulta sua aplicação aos aquíferos pois suas formações geológicas não são uniformes e as águas subterrâneas podem correr para diversos destinos, como o mar, rios, outros aquíferos, ou mesmo evaporar. 183
181 SOLA, Fernanda. Op. Cit., p. 164. 182 VILLAR, Pilar Carolina. Op. Cit., p. 114. 183 Ibid., p. 115/116.
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