3 A BELEZA ONTOLÓGICA DA NATUREZA
3.3 CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS ENTRE PLOTINO E AGOSTINHO
Temos nesse assunto certa ambiguidade no pensamento de Plotino, pois, dependendo do aspecto em que se analisa, o cosmos pode ser belo ou feio. Principiando pela substância mais básica do cosmos, a matéria sensível, como já mencionamos anteriormente, na medida em que ela é a emanação mais despotencializada do Uno, é a fealdade, fealdade enquanto privação do Uno-bem a suma beleza, que por causa dessa despotencialização é incapaz de se auto-determinar, e de ser essencialmente determinada por outro, permanecendo em sua essência: “[...], sempre indeterminado, absolutamente instável, insaciado, penúria absoluta. Essas características não são acidentais, mas são como sua essência [...]. Por si não possui bem algum, se não que comparada com os seres é um fantasma, essa é precisamente a substância do mal” [...] (En., I, 8, 3). Justamente por essa natureza atribuída à matéria, entendemos que além de não ser, ou do mal no sentido de privação de todo bem, ela igualmente é a fealdade absoluta, como esclarece Plotino nessa interessante trecho:
Pois, que semelhança tem as coisas daqui com as coisas belas de lá? Além disso, se existe algo parecido, concedamos que sejam semelhantes. Porém, em virtude de que são belas tanto as de lá como as daqui? – Nossa resposta é que as de cá o são por participação em uma forma. Porque todo o informe, como é suscetível por natureza de conformação e de forma, se não participa de uma razão e de uma forma, é feia e deixa de fora a razão divina. E esta é a fealdade absoluta (En., I, 6, 2, 13-16).
Segundo o Licopolitano na passagem acima, ao comentar acerca da natureza da relação entre as belezas do mundo sensível e do mundo inteligível, defende a tese de que a beleza do sensível está na forma que modelou a matéria sensível, pois, as formas do sensível imitam e participam das formas do inteligível, e são as formas do inteligível que servem de fonte da beleza do sensível. Assim, a matéria, na medida em que a sua beleza provém de sua formação segundo as formas paradigmática dispostas no Nous, ela enquanto não formada nenhuma beleza possui, sendo a fealdade absoluta. Diante do fato que já constatamos, de que a matéria embora formável, é tão essencialmente informe que não consegue se tornar uma com sua forma, em sua natureza essencialmente informe, diante do fato de que apenas a forma lhe atribui beleza, fica muito mais claro o porquê Plotino a considerou como a fealdade absoluta. Assim sendo, a formação da matéria é semelhante a uma imagem refletida no espelho, que basta o objeto refletido se afastar para o espelho ficar sem a imagem que outrora refletia (Cf. En. I, 8, 3, 5-20; I, 8, 4, 1-5; I, 8, 10, 10-15; II, 4, 5, 15-20; III, 6, 9, 16-19; 6, 17, 35; IGAL, 1982, p. 62-70). Semelhantemente a beleza agregada à matéria pela formação, é como uma espécie de ilusão, fazendo-a depender absolutamente de sua forma inteligível para aparentar alguma beleza, e se a forma se afastar da matéria, na medida em que a matéria não tem a capacidade de sair essencialmente da informidade, ela retorna a ser simplesmente matéria, o último grau de afastamento ontológico possível do Uno, e na medida em que este último é a suma beleza e o sumo bem, a matéria sensível é o outro da beleza e do bem, ou seja, a fealdade e a maldade absoluta.
Todavia, em outro prisma, a matéria sensível mesmo antes de qualquer determinação é boa, pois, embora seja ela o mais baixo grau da processão, ainda assim ela é resultado necessário da processão do Uno. Na medida em que a mesma é o último refluxo da potência do Uno, resguarda em si, nem que seja infimamente, algum grau de unidade98. Nesse
98Acerca disso comenta Battista Mondin: “Antes de todas, a inteligência ou Nous, a única realidade que tem
origem imediata no Um. Da inteligência procede a vida; da vida, a alma emanação que procede do Um é a matéria. Esta é a emanação mais pobre e imperfeita. Enquanto procede do Um, é boa, enquanto é o limite mais baixo e distante da emanação e oposta ao Um, é má. A matéria é má porque priva da perfeição do Um, e não porque seja princípio autônomo do mal, como queriam os maniqueus. A matéria, como última emanação,
aspecto poderíamos dizer que a matéria sensível informe possui um parentesco substancial com a Psyché, o Nous, e em última instância com o Uno, pois, assim como a segunda e a terceira hipóstase foram geradas pela potência do Uno, a matéria também o foi. Logo, poderíamos dizer que existindo um parentesco substancial entre a matéria e o Uno devido ao esquema de geração de todas as coisas por meio da processão a partir do Uno, algum resquício de beleza embora ínfimo a matéria mesmo antes da formação teria. Contudo, essa conclusão não fica claro nas Enéadas, ficando apenas por conta da especulação por parte dos estudiosos no assunto.
Embora a parcela ínfima de beleza e unidade da matéria possa ser questionada, por não haver uma declaração direta de Plotino, um prisma que não faltam consensos acerca da positividade da matéria, é na perspectiva da matéria formada. Logo, o cosmos sensível é em certo sentido a matéria tirada das sombras, iluminada pela luz no Nous através da Alma. Portanto, a beleza e a unidade estão na forma, e quando a matéria recebe a forma da Psyché, eleva seu status recebendo um pequeno grau de beleza e unidade99. Porém, na medida em que a matéria nunca se une plenamente com a forma, a fealdade está constantemente presente no cosmos, e todos os seres enquanto matéria são feios, e enquanto forma são belos. Apesar dessa ambiguidade presente no cosmos sensível, o filósofo neoplatônico em discussão com os gnósticos que afirmavam que o mundo nasceu sob o signo do mal (Cf. REALE, 2001, vol. IV, p. 495-497)100, na segunda Enéada diz que o cosmos sensível exatamente como foi ordenado pela Psyché é o melhor mundo possível. Quer dizer, dentro de suas limitações de ser composto por matéria sensível, e de apenas ser cópia do cosmos inteligível, o mundo sensível é a melhor cópia possível do mundo inteligível101. O maior erro dos gnósticos segundo o
é um quase-nada; por isso, é fonte do mal, da caducidade, da ignorância e da morte. Mas não é o mal absoluto; e antes a negação do bem, como as trevas são a negação da luz” (1981, v. 1, p. 130).
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Acerca disso afirma Jérôme Laurent: “[...] Mas a bondade é uma consequência, um acompanhamento da participação e não mais um conteúdo formal. Cada sensível participa de uma ideia que lhe é própria; todo sensível contanto que participe de uma ideia, partilha com os outros o poder de ser bom” (1992, p. 55 – tradução nossa).
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Michel Fattal acentua que existem várias possibilidades de que grupo gnóstico estava sendo refutado na segunda Enéada, entre essas possibilidades estão os Valentinianos e a Gnose em geral (Cf. FATTAl, 2006, p. 125-13255 – tradução nossa).
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Platão, igualmente admite que o universo é bom e belo, é claro que não é tão bom e belo como seu paradigma eterno no mundo das formas inteligíveis, pois, na medida em que o Artífice Supremo o Demiurgo utilizou as ideias como modelos para que moldasse a matéria caótica e amorfa, transformando-a em cosmos, esse último é o que há de mais belo e bom sensivelmente falando. Como deixa claro Platão em seu diálogo Timeu: “Quando o artista trabalha em sua obra, a vista dirigida para o que sempre se conserva igual a si mesmo, e lhe transmite a forma e virtude desse modelo, é natural que seja belo tudo o que ele realiza. Porém, se ele fixa no que devém e toma como modelo algo sujeito ao nascimento, nada belo poderá criar [...]. Ora, se este mundo é belo e for bom seu construtor, sem dúvida nenhuma este fixara a vista no modelo eterno [...]. Mas para todos nós é mais do que claro que ele tinha em mira o paradigma eterno; entre as coisas nascidas não há o que seja
Licopolitano é cobrar da cópia sensível o que apenas é possível ao arquétipo inteligível. Os gnósticos entendem o mundo como mal por erro de julgamento:
Também não se pode admitir que o mundo seja malfeito porque nele acontecem muitas coisas ruins. Esta compreensão é própria de quem o superestima em demasia, pois pretendem que seja o mesmo que o inteligível e não uma imagem dele. E que imagem mais bela poderia ser? Que outro fogo poderia ser melhor imagem do fogo de lá que o fogo daqui? Que outra terra fora desta depois da terra de lá? Que esfera poderia ser mais exata, digna e ordenada, do que a esfera do cosmo, reflexo da ordem interior do mundo inteligível, superior a este que vemos (En., II, 9, 4, 25-30)102.
Em Santo Agostinho não temos a mesma ambiguidade que em Plotino, pois de acordo com Pensador de Hipona, como amplamente investigamos, o mundo é simplesmente necessariamente belo. É claro que por ter sido criado ex nihilo e não da substância divina, sua beleza não é suprema como a de sua fonte, mas limitada, ou dizendo melhor, o mundo tem a sua beleza enquanto participação da beleza absoluta de Deus. Segundo o Hiponense, tanto a matéria quanto a forma são boas, mas, a forma na medida em que não foi gerada ex nihilo e sim por meio de imitação e participação dos arquétipos divinos, possui um grau maior de densidade ontológica, tendo, portanto, maior grau de bondade e consequentemente de beleza. Com relação à matéria informe, esteticamente não podemos dizer que ela é bela ou feia, visto não ser formada, e por consequência não ter nenhuma aparência bela ou feia, ela é neutra esteticamente. Porém, diferentemente de Plotino, no Pensador de Hipona a matéria não tem a informidade em sua natureza, visto que foi criada por Deus para ser formada e constituir uma natureza com a sua forma, por isso a mesma só existiu no momento da criação e formação do cosmos, deixando de existir em sua informidade com a ordenação do mundo por meio da formação segundo os modelos inteligíveis. Assim sendo, a matéria informe na medida em que
mais belo do que o mundo, sendo o seu autor a melhor das causas” (Timeu, 28b-29a). Logo, segundo Platão, embora a esfera sensível sempre será inferior a inteligível, o mundo mesmo sendo composto de matéria sensível possui a melhor forma possível, pois, foi modelada pelo Demiurgo segundo os paradigmas eternos e perfeitos. Quer dizer, segundo o Ateniense a beleza e a bondade desse mundo está justamente em copiar os arquétipos inteligíveis, pois, como o texto que citamos bem diz, o Demiurgo poderia tomar por referência ao modelar o mundo, aquilo que é passageiro e mutável ou aquilo que é eterno e imutável, optando pelo segundo, tornando o cosmos o melhor mundo sensível possível, sendo, portanto, bom e belo, como a esse respeito comenta Giovanni Reale: “O demiurgo, ou seja, o artífice produz sempre alguma coisa contemplando previamente algo como ponto de referência, ou seja, tornando-o como modelo. Mas o artífice poderia referir-se a dois tipos de modelos: a) ao que existe sempre e da mesma maneira, b) ou a alguma coisa sujeita à geração. Se o artífice toma como modelo o ser eterno, o que produz é belo; se, pelo contrário, toma como modelo algo que foi gerado, o que produz não é belo” (2002, vol. II, p. 131). Assim sendo, segundo Platão a bondade do mundo está no fato de ter sido formado e organizado segundo o seu arquétipo inteligível, como também no fato de que, de forma muito complexa, cada criatura sensível participa de seu modelo eterno. Esta imitação e participação é o que torna o mundo sensível o melhor e mais belo mundo possível, diante do limite de sua sensibilidade.
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foi criada com a potencialidade de receber forma, e de perder essa potencialidade ao cumprir seu objetivo teleológico, é além de neutra esteticamente, potencialmente bela, ou dizendo de outro modo ela foi projetada teleologicamente para abandonar a sua neutralidade estética e se tornar bela na formação.
Sendo assim, em ambos pensadores, matéria e forma possuem graus diferentes de densidade ontológica, só que em Agostinho, diferentemente de Plotino, a matéria é de fato um bem, e como dissemos neutramente estética e potencialmente bela, na medida em que não foi criada para permanecer na informidade.
Outro ponto de convergência entre os filósofos está no fato de que ambos tiveram que afirmar a bondade do cosmos contra seitas gnósticas de seu tempo, seitas estas que igualmente defendiam que o cosmos era mal, nascido por meio de uma fonte igualmente má. Como afirma Michel Fattal acerca do pensamento dos gnósticos que foram criticados por Plotino na segunda Enéada: “Os gnósticos sustentam, pois, um ponto de vista oposto àquele de Platão: em lugar de ser bom e sem inveja, o demiurgo gnóstico é mau; e o mundo em si mesmo, no lugar de ser belo e ordenado, é feio e mau” (2006, p. 13455 – tradução nossa). Logo, cada qual ao seu modo defendem que o cosmos é o melhor e mais belo mundo possível, Plotino intencionando criticar o que ele entendia como a deformada interpretação de Platão por parte dos gnósticos, e Agostinho objetivando defender a doutrina das Escrituras e Teologia Cristãs, de que um Deus absolutamente bom e belo criou um cosmos bom e belo, dos maniqueus que criticavam essa doutrina.
Outra ideia na qual Agostinho foi bastante influenciado por Plotino, é a ideia da gradação hierárquica ontológica do real a partia da aproximação ontológica com o Uno, que deu a possibilidade para o Hiponense de explicar a seus opositores o porquê da existência de criaturas aparentemente despidas de beleza na Natureza, que para evitar vãs repetições, na medida em que foi assunto amplamente discutido, nos limitamos a apenas rememorar o quão o Filósofo cristão foi neoplatônico no presente assunto.
Em suma, apesar das convergências no presente assunto, o fato é que devido a sua ambiguidade acerca da bondade do cosmos, em Plotino o cosmos é composto por uma substância feia (matéria) sendo o lugar da fealdade, abrindo a possibilidade para uma concepção do feio como algo natural no cosmos. Já no Filósofo cristão, o cosmos não só é o melhor mundo possível, mas é belo tanto em sua totalidade como em suas minúsculas partes, não existindo a possibilidade de se conceber o feio como uma entidade natural do cosmos.