CAPÍTULO IV – RENASCIMENTO E SALVAÇÂO NUM CULTO PENTECOSTAL
4.1 Conversão: “aceito Jesus como meu salvador”
Assim, a chegada à igreja quase sempre é acompanhada de um conflito ou crise pessoal vivenciada por esses indivíduos como carência de um estado de graça (karys). Neste momento o potencial convertido é acolhido pela instituição na pessoa dos obreiros e, dispostos entre as várias filas de cadeiras, são alocados dentro do espaço da nave da igreja para receber e orientar a permanência destes no decorrer das celebrações. No transcurso destas cerimônias os vários exemplos citados na prédica do pastor de casos de curas, livramentos de morte, famílias regeneradas, casamentos refeitos, bem como os exemplos de crimes, violência e corrupção sugerem a necessidade imediata da conversão, na condição de que aceitem fazer parte de um
“povo remido”, merecedor de habitar o “tabernáculo do Senhor”.
Para Weber (1999), a ânsia pela salvação, qualquer que seja sua natureza, é de interesse especial na medida em que traz conseqüências para o comportamento prático na vida dos indivíduos. Esse novo rumo dado aos sentidos da vida, é percebido de modo mais intenso pela criação de uma conduta de vida especificamente determinada pela religião, isto é, pelas circunstâncias novas que surgem a partir de motivos religiosos que passam a ser sistematizadas pelas ações práticas, orientadas agora por uma série de convenções instituídas em termos de valores. Como argumenta este autor:
“A esperança de salvação tem as mais profundas conseqüências para a condução da vida quando é um processo que já neste mundo projeta de antemão suas sombras ou transcorre intimamente dentro deste mundo. Isto é, quando ou ela mesma é considerada uma santificação ou pelo menos conduz a esta ou a tem como uma condição prévia” (p.358).
Neste sentido é que o processo de santificação apresenta-se como uma mudança repentina, manifestada numa purificação (karthesis) paulatina de vida através do exercício da espiritualidade, comoum renascimento. Assim foi que, a partir do estabelecimento do processo de aproximação e empatia com esses sujeitos crentes, senti a necessidade de induzir uma experiência de auto-conversão durante a realização desta pesquisa, de forma a buscar vivenciar os mesmos processos cognitivos sentidos por um novo converso em sua “consagração” à igreja.
Foi visando a instauração desta démarche mediada de pesquisa, atentando sempre para um certo grau de distanciamento em relação a meu objeto, que busquei realizar o percurso prático de filiação convencional à Igreja do Ministério Canaã como percorrido pelos praticantes de sua doutrina. Isto não significa dizer que só a partir deste momento é que passei a me interessar pelo estudo do rito de incorporação à igreja, mas, tão somente, que busquei cumprir um certo esquema
9 5
de sistematização prática quanto à coleta de dados e o estabelecimento do processo de empatia, pois o “aceitar a Jesus como o meu salvador”, na verdade, é um tabernáculo, porta de entrada, por onde deve passar todo aquele que manifeste a intenção velada de congregar-se a este ministério.
Como condicionante à realização deste estudo, aceitei me submeter a uma espécie de “rito
de iniciação” dentro desta doutrina. Nesse sentido foi que cortei o cabelo de modo a parecer-me
com o grupo e no dia 14 de abril de 2007, durante a realização do ritual cúltico de apelo “a novas
vidas a Jesus”, dirigi-me à frente da igreja, juntamente com umas 20 pessoas, todas ali se
expondo de modo a declarar à comunidade suas intenções em “aceitar Jesus”, e fazer parte daqueles poucos “escolhidos de Deus” a merecerem a salvação. Em sua maioria, essas pessoas apresentam-se à frente do púlpito com alguma dificuldade, muitas delas chorando, momento em que os obreiros as recebem em acolhimento com reconfortantes abraços.
Como eu estava ali na condição de observador, fui o primeiro a manifestar a intenção em
“aceitar a Jesus”, de tal forma que facilitasse a observação das novas conversões que se
realizariam naquele dia. Para minha surpresa, o grupo ali reunido foi constituído não somente de recém chegados ao ministério, mas também de pessoas que estavam ali para se “reconciliarem
com o Senhor”, crentes que por algum motivo haviam se distanciado da igreja. Abordei uma
destas pessoas, especificamente uma das que mais pranteava, questionando sobre sua atitude de estar ali naquela condição. A resposta que obtive foi a de que por motivo de “tentações do
mundo” ela havia abandonado a “casa do Senhor”, pagando um preço por isso, e que estava ali
naquele momento para que o Senhor Jesus a “retirasse da lama”.
Como normalmente ocorre, o novo convertido que aceita Jesus em sua vida passa por um processo de iniciação dentro da hierarquia da igreja, pois após a realização da conversão este agente deve fazer o Curso do Discipulado Teológico Canaã que se realiza ao longo do desenvolvimento de 10 aulas, ministradas nos dias de segundas e domingo culminando com a realização do “batismo nas águas por imersão”, o que autoriza este novo convertido a ser um membro do Corpo Diaconal da igreja, bem como permite a esta “nova criatura” a participação no processo da transubstanciação do pão e vinho em corpo e sangue de Cristo, realizado uma vez por mês, durante a “Santa Ceia” dos fieis de Canaã.
Dessa forma, segundo nos adverte Weber (1999), o desenvolvimento rumo à racionalização e sistematização quanto à apropriação de bens de salvação religiosos, dirige-se principalmente para a eliminação da contradição entre o hábito religioso exigido agora pela instituição e as ações
9 6
práticas extracotidianas, de modo que possa permitir àquele que passa por tal processo cognitivo de conversão, a manifestação de estados íntimos de conduta ascética que tal método de salvação pode produzir. Estes passam a manifestar uma disposição corporal contínua referendada a partir da certeza da graça alcançada, significando esta a posse consciente de um fundamento homogêneo duradouro na condução da vida. Assim, como ressalta este autor:
“No interesse da duração e regularidade do hábitus religioso, a racionalização do método de salvação acabou por superá-la e levou, aparentemente em sentido contrário, a uma limitação planejada dos exercícios aos meios que garantiam a continuidade do hábitus religioso, ou seja a eliminação de todos os meios higienicamente irracionais. Nesse processo o método torna-se cada vez mais uma combinação de higiene física e psíquica com uma regulação igualmente metódica de todo pensar e fazer, segundo a forma e o conteúdo, no sentido do perfeito domínio desperto daquele que obedece à vontade e combate os instintos, dos processos corporais e anímicos próprios e uma regulamentação sistemática da vida, subordinada ao fim religioso” (1999:361).
A busca da certitudo salutis traduz-se em conversão e na adoção de conduta moral irrepreensível diante da igreja e dos outros “irmãos” que nela congregam, mas especialmente quanto à demonstração de indícios que comprovem no cotidiano o “recebimento da unção” do espírito. Esta espécie de know-how prático, adquirido a partir dos métodos de imposição de bens simbólicos de salvação, ministrados hierurgicamente pela igreja, deve ser demonstrado agora como forma de atestação da nova condição de “povo remido”, tanto como acréscimo de distinção pessoal, como para a comprovação da eficácia da doutrina a qual estão submetidos.
Esta atestação, referendada a partir da adoção de um novo hábitus de vida, desenvolve-se progressivamente a partir da exigência do afastamento das “coisas do mundo”, tais como: a freqüentação a festas, o consumo de bebidas alcoólicas, de drogas, a evitação da prática da sexualidade fora do matrimônio, do contato com pessoas que não sejam do meio evangélico, bem como a adoção de vestimentas que demonstrem como sinal de distinção a “eleição divina” destes sujeitos crentes frente a outro cidadões. A prática do “ascetismo intramundano” (WEBER:1999), neste sentido precisamente, seria uma antecipação da parúsia do retorno de Cristo, segundo o qual só mereceriam a salvação aqueles que no momento do advento do messias estivessem purificados de todo o pecado.
9 7