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2.2 CONVERSAÇÕES EM REDE: INTERCONEXÕES ATUAIS

2.2.2 Conversação e interações: diálogos no ciberespaço

Para que possamos compreender como acontecem os diálogos no ciberespaço, apresentaremos, inicialmente, os princípios básicos que regem a conversação em si. Para tanto, utilizaremos os autores Marcuschi (2000) e Kerbrat-Orecchioni (2006) como referências centrais das nossas reflexões.

Assim que uma criança nasce, ela já inicia um processo de comunicação que se aprimorará ao longo de toda a sua vida. Inicialmente, o choro é a única maneira da qual dispõe

para se comunicar com os que estão a sua volta. Mas, ao longo dos anos, ela desenvolverá a linguagem oral e aprenderá a conversar se utilizando de palavras e não mais exclusivamente por meio do choro.

Tal desenvolvimento conversacional acontecerá naturalmente por meio da observação de seus pares. Desse modo, “inserida num aprendizado sistemático e culturalmente marcado, onde as atenções para as regras de uso se sobrepõem às meramente linguísticas, ela (a criança) está se introduzindo na atividade conversacional”. (MARCUSCHI, 2000, p. 15).

Neste contexto, “a conversação é a primeira das formas de linguagem a que estamos expostos e provavelmente a única da qual nunca abdicamos pela vida afora”. (MARCUSCHI, 2000, p. 14). Mesmo que sejamos surdos e, por consequência disso, venhamos a ser mudos, não desenvolvendo a fala oral, o ato da conversação ainda assim fará parte da nossa existência, haja vista que nos comunicaremos, nesses casos, por meio da linguagem de sinais.

Sendo assim, a conversação ocupa um lugar de importância dentro do processo de sociabilização e é uma atividade inerente à vida em sociedade. Vendo sob essa perspectiva, a conversação precisa existir para que haja sociabilização e, por sua vez, a sociabilização só ocorre se houver conversação.

Segundo Marcuschi (2000, p. 15), há cinco elementos constitutivos da conversação que podem ser elencados da seguinte maneira: “(a) interação de pelo menos dois falantes; (b) ocorrência de pelos menos uma troca de falantes; (c) presença de uma sequência de ações coordenadas; (d) execução numa identidade temporal; (e) envolvimento numa ‘interação centrada’”. Em síntese, essas seriam as condições básicas para que a conversação possa ocorrer. Partindo desses elementos constitutivos, observamos que “a interação face a face não é condição necessária para que haja uma conversação”. (MARCUSCHI, 2000, p. 15). Contudo, a interação centrada é condição fundamental para que ela aconteça, tendo em vista que “para produzir e sustentar uma conversação, duas pessoas devem partilhar um mínimo de conhecimentos comuns”. (MARCUSCHI, 2000, p. 16).

Na conversação, “os participantes devem agir com atenção tanto para o fato linguístico como para os paralinguísticos, como os gestos, os olhares, os movimentos do corpo, e outros”. (MARCUSCHI, 2000, p. 16). Contudo, numa interação online por meio de comentários em uma lista, por exemplo, não há como contar com elementos paralinguísticos.

“Todos os modelos conversacionais adotam, com diferentes disposições, a noção de ato de fala, elaborada no quadro da filosofia analítica anglo-saxônica”. (KERBRAT- ORECCHIONI, 2006, p. 24). Para a autora, “eles retomam, ao seu modo, a concepção

pragmática do discurso, segundo a qual ‘dizer é fazer’”. (KERBRAT-ORECCHIONI, 2006, p. 24, grifo da autora).

Nesse contexto, “a regra geral básica da conversação é: fala um de cada vez” (MARCUSCHI, 2000, p. 19). Em síntese, a conversação é marcada por turnos entre os falantes, em que cada turno “pode ser tido como aquilo que um falante faz ou diz enquanto tem a palavra, incluindo aí a possibilidade do silêncio”. (MARCUSCHI, 2000, p. 19). Dessa forma, a distribuição de turnos é um fator disciplinador da atividade conversacional.

Contudo, tal regra nem sempre é cumprida por todos os participantes, fazendo com que surjam as falas simultâneas e as sobreposições de vozes. Essas prejudicam a total compreensão da atividade conversacional e, por esse motivo, solicitam mecanismos reparadores de tomada de turno, incluindo, entre os mecanismos, os marcadores metalinguísticos, a parada prematura de um falante e os marcadores paralinguísticos.

Na conversação desenvolvida na ambiência de sites interacionais, como o Facebook, por exemplo, é comum que os turnos de fala não sejam obedecidos. Com isso, é frequente a presença de falas simultâneas e sobreposições, que podem dificultar a compreensão do conversacional nesses ambientes. Por esse motivo, conversas desenvolvidas nesses lugares exigem uma maior atenção por parte dos participantes, haja vista que conversações com constantes violações do sistema de troca de turnos lhes acarretam falta de coerência e, com isso, mais que estruturalmente falhas, faltará a elas também a interação. (MARCUSCHI, 2000).

Teoricamente, “a conversação consiste normalmente numa série de turnos alternados, que compõem sequências em movimentos coordenados e cooperativos” (MARCUSCHI, 2000, p. 34), como numa espécie de balé harmonioso. Entretanto, seja na interação face a face, seja na interação online, há o caráter de espontaneidade que acaba interferindo na harmonia do balé, alterando sua sincronicidade e dando um compasso maleável à conversação, evitando com que o processo conversacional se transforme numa fórmula engessada, onde cada participante tenha apenas que encaixar suavoz, como se estivesse seguindo um roteiro, já pré-definido, de uma peça cênica.

Quanto à maleabilidade das regras que regem a conversação, Kerbrat-Orecchioni (2006, p. 43) também reforça que “as regras da conversação podem evidentemente ser transgredidas, e isso ainda mais facilmente porque, em sua maioria, elas são bastante flexíveis”. No entanto, a autora também lembra que “se elas não são imediatamente “corrigidas”; essas transgressões podem produzir a aprovação ou, pelo menos, acarretar efeitos observáveis geralmente negativos sobre o desenvolvimento da interação”. (KERBRAT-ORECCHIONI, 2006, p. 15).

No entanto, o processo conversacional segue determinados rituais cênicos, exemplificados pelos pares conversacionais, que consistem numa “sequência de dois turnos que coocorrem e servem para a organização local da conversação”. (MARCUSCHI, 2000, p. 35). Dentre eles, destacamos: pergunta/resposta; ordem/execução; convite/aceitação-recusa; cumprimento/cumprimento.

Em síntese, tudo funcionaria como se a conversação fosse uma trama produzida coletivamente, na qual todos os fios devessem de certo modo se enlaçar, sendo que a falta de seu enlace tornaria a conversação, como se costuma dizer, “descosturada”. (KERBRAT- ORECCHIONI, 2006).Assim, as regras conversacionais compõem uma espécie de partitura, sendo essa uma “‘partitura invisível’ que orienta (sempre lhe deixando uma ampla margem de improvisação) o comportamento daqueles que se encontram engajados nessa atividade polifônica complexa que é a condução de uma conversação”. (KERBRAT-ORECCHIONI, 2006, p. 15).

Dentre os marcadores conversacionais, há os que se utilizam de recursos verbais, não- verbais e suprassegmentais. Enquanto os recursos verbais são representados pelas palavras utilizadas, os recursos não verbais incluem os elementos “paralinguísticos tais como o olhar, o riso, os meneios de cabeça, a gesticulação”. (MARCUSCHI, 2000, p. 63). Por sua vez, os recursos suprassegmentais “são de natureza linguística, mas não de caráter verbal. Os dois mais importantes para o nosso caso são as pausas e o tom de voz”. (MARCUSHI, 2000, p. 63).

Enquanto nas interações face a face podemos dispor de todos esses recursos, nas interações online que se desenvolvem por meio de comentários escritos, por exemplo, não podemos contar com elementos paralinguísticos, tampouco com os recursos suprassegmentais. Contudo, dentro das ambiências online, os participantes de conversações apropriam-se de ferramentas disponibilizadas pelas próprias plataformas interacionais (tais como os emoticons) para representar esses recursos.

Como ressaltamos anteriormente, conversar não é apenas falar: é necessário que haja uma compreensão afetiva, ou seja, é preciso que além de ouvir, a fala dos participantes seja escutada. Em outras palavras, “para que haja troca comunicativa, não basta que dois falantes (ou mais) falem alternadamente; é ainda preciso que eles se falem, ou seja, que estejam ambos ‘engajados’ na troca e que deem sinais desse engajamento mútuo”. (KERBRAT-ORECCHIONI, 2006, p. 8).

Outros dois fatores importantes da conversação são o contexto e a polidez. O contexto compreende três elementos que, juntos, conduzem a conversação e suas implicações comunicativas. São eles: 1) o lugar onde se desenvolve a conversação, seja na dimensão

espacial, seja na dimensão temporal; 2) os objetivos e 3) os participantes, conforme a quantidade, as características individuais e as relações mútuas. Por polidez, entendemos “todos os aspectos do discurso que são regidos por regras, cuja função é preservar o caráter harmonioso da relação interpessoal”. (KERBRAT-ORECCHIONI, 2006, p. 77).

Quanto aos objetivos, ressaltamos que interações sem obrigatoriedade são as que de fato asseguram o laço social, pois representam uma das principais metas das interações conversacionais. Esse tipo de interação é nomeada por Kerbrat-Orecchioni (2006, p. 26) como “interações gratuitas” e agrupa “as conversações nas quais os fins são de natureza mais relacional que transacional: fala-se por falar, e para assegurar a manutenção do laço social”.

No que se refere ao quadro participativo, no viés dos papéis interlocutivos, há, nas duas ambiências, emissores e receptores. No caso dos receptores, eles podem desempenhar diversos tipos. Há os participantes reconhecidos, que são aqueles que “fazem oficialmente parte do grupo conversacional, assim como atestado pelo arranjo físico desse grupo e pelo comportamento não verbal de seus membros”.(KERBRAT-ORECCHIONI, 2006, p. 27). E existem, também, os simples espectadores, “que são somente as testemunhas de uma troca, da qual estão, em princípio, excluídos”. (KERBRAT-ORECCHIONI, 2006, p. 28).

Dentro do grupo dos “simples espectadores”, há duas categorias pontuadas por Kerbrat- Orecchioni (2006), seguindo os pressupostos apresentados por Goffman (1983). Essas categorias representariam, primeiro, os receptores ocasionais, em que “o emissor está consciente de sua presença no espaço perceptivo”(KERBRAT-ORECCHIONI, 2006, p. 28) e, segundo, os espiões, que seriam espécie de “intrusos que surpreendem, à revelia do falante, uma mensagem que não lhes é, de modo algum, destinada”. (KERBRAT-ORECCHIONI, 2006, p. 28).

Marcuschi (2000), Kerbrat-Orecchioni (2006) e Goffman (1983) referem-se a interações de modo presencial. Contudo, as conversações online guardam consigo elementos desse tipo de conversação. Entretanto, essas conversações possuem particularidades próprias das especificidades do ambiente onde ocorrem. Enquanto as conversações da modalidade presencial pressupõem que os interlocutores se dediquem ao ato da fala no mesmo momento, as conversações online desenvolvidas na ambiência digital possibilitam que os interlocutores se insiram na conversação em temporalidades diversas.

Nas conversações online, por meio de listas de comentários, por exemplo, a presença de receptores ocasionais e de espiões é potencializada pela própria plataforma. Nessas listas, os comentários ficam armazenados e podem ser ampliados, por meio da inclusão de novos comentários, ou reduzidos, por meio da sua exclusão. Também há o fato de que internautas

podem apenas ler os comentários publicados sem que sua presença seja sinalizada para os demais. Nesses casos, as conversações online por meio de listas públicas possibilitam a presença de “receptores espiões”.

Quando falamos em conversação nos sites de redes sociais, é importante dizermos que há dois tipos de conversação: a síncrona e a assíncrona. Nesta pesquisa, utilizamos como referência a distinção feita por Recuero (2014, p. 51) para esses dois tipos de conversação. Assim,

[...] conversação síncrona é aquela que é caracterizada pelo compartilhamento do contexto temporal e midiático. Ou seja, são conversações que acontecem entre dois ou mais atores através de uma ferramenta de CMC, e cuja expectativa de resposta dos interagentes é imediata. A conversação assíncrona é uma conversação que se estende no tempo… Na conversação assíncrona, a reconstrução dos pares conversacionais é dificultada, pois a ordenação é diferente no tempo.

Dentro desse contexto, há elementos constitutivos que caracterizariam as conversações em rede. Seguindo Boyd (2007, p. 2),

[...] as conversações em rede apresentam quatro propriedades que não estão presentes na vida pública face a face: persistência, capacidade de pesquisa, capacidade de cópia exata e audiências invisíveis. Essas propriedades alteram fundamentalmente a dinâmica social, complexificando as formas de interação entre as pessoas.34

Em síntese, a persistência está relacionada à permanência das interações a partir de uma acessibilidade possibilitada pelo próprio site. Acapacidade de pesquisa, por sua vez, refere-se à buscabilidade das mensagens, decorrente da própria permanência. Já acapacidade de cópia exata está ligada à replicabilidade das mensagens em decorrência da permanência e da própria buscabilidade. Essas características são potencializadas pela cadência resultante a partir do caráter permanente das mensagens publicadas nesses sites.

Portanto, para Boyd (2007, p. 9), “essas quatro propriedades separam fundamentalmente os públicos não mediados dos públicos em rede”35. Dessa forma, nas conversações em rede há

uma preocupação com o que é dito, principalmente porque tais comentários, ao serem publicados em listas, por exemplo, constituem-se públicos e permanentes. Ademais, por conta

34Tradução livre para o trecho em inglês: I argue that social network sites are a type of networked public with four

properties that are not typically present in face-to-face public life: persistence, searchability, exact copyability, and invisible audiences. These properties fundamentally alter social dynamics, complicating the ways in which people Interact.

35Tradução livre para o trecho em inglês: These four properties thus fundamentally separate unmediated publics

das audiências invisíveis, reforça-se o fato de que “em conversações públicas,os falantes necessitam imaginar sua audiência e a percepção que esses terão de sua mensagem, negociando essa percepção”. (RECUERO, 2014, p. 57).

No contexto das conversações em rede, as marcações de abertura e fechamento de conversas, típicas das interações face a face, acabam ganhando novas funções. Como destaca Recuero (2014), esses elementos acabam por serem marcadores da presença dos sujeitos na conversação. Desse modo, para além de iniciar uma conversação, as aberturas e os fechamentos funcionam como marcadores de suas entradas e saídas das listas.

No entanto, “para que a conversação ocorra de forma coerente e organizada, os atores participantes precisam respeitar e negociar normas. Essas normas constroem a polidez”. (RECUERO, 2016, p. 60). Portanto, a polidez também é um elemento a ser considerado e “ela é afetada pelos contextos da mediação que alteram os modos de organização e os rituais da conversação”. (RECUERO, 2014, p. 92).

Outro elemento fundamental para o que é dito na conversação em sites de redes sociais é o contexto, principalmente se considerarmos que “todo ator envolvido em uma conversação precisa ser capaz de negociar, construir e recuperar o contexto, que vai formar o pano de fundo sobre o qual as conversações acontecem”. (RECUERO, 2014, p. 95). Ademais, “sem esse contexto, é impossível compreender toda a dimensão da conversação no ciberespaço”. (RECUERO, 2014, p. 95).

Concordamos que as “conversações em rede constituem-se em conversações coletivas, públicas, permanentes (e que, portanto, permitem a recuperação de parte dos contextos)”. (RECUERO, 2014, p. 122). Contudo, temos que considerar que elas não são tão permanentes assim, visto que os comentários podem ser editados e até mesmo apagados (a exemplo das listas de comentários, no site Facebook), o que dificulta o acesso a determinados elementos do contexto, tornando ainda mais “complexas as redes sociais expressas no ciberespaço”. (RECUERO, 2014, p. 122).

Dentro dessa complexidade das redes sociais, o fato é que “é preciso ser ‘visto’ para existir no ciberespaço [...] talvez, mais do que ser visto, essa visibilidade seja um imperativo para a sociabilidade mediada pelo computador”. (RECUERO, 2009, p. 27). Fala-se para ser visto, fala-se para marcar uma existência. E quando o “falar” se torna o mais importante, não importa muito o que se diz, pois simplesmente se fala.As consequências desse “falar” de modo simplista com o único objetivo de ser visto já começam a se apresentar em sociedade. E é sobre essas consequências que falaremos no próximo subtópico.