QUEIJOS MINAS ARTESANAIS
89 Conversa informal, durante o trabalho de campo.
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do âmbito do governo, mas que se articula com ele.
A noção de governamentalidade, colocada por Foucault (2008), refere-se à maneira como a conduta de um conjunto de indivíduos (que passa a ser identificado como uma “população” a partir do desenvolvimento de métodos estatísticos) viu-se implicada de forma cada vez mais acentuada no exercício do poder soberano, que se constrói a partir do desenvolvimento de um conjunto de instrumentos e mecanismos de controle, paralelamente à progressiva consolidação e racionalização dos Estados modernos, tendo o conhecimento como elemento central. Sob este aspecto, o governo das populações se articula com um domínio da cognição, do cálculo, da experimentação e da avaliação, tornando-se intrinsecamente ligado às atividades de expertise, que buscam calcular e administrar diversos aspectos da conduta dos indivíduos através de incontáveis (e frequentemente em competição), táticas locais de persuasão, indução, manejo, incitamento, motivação e encorajamento.
Foucault localiza o nascimento da Vigilância Sanitária no século XVIII juntamente com o surgimento do biopoder (e da biopolítica) no campo da medicina. Emerge neste período uma nova arte de governar que conforma o Estado moderno, associada a um conjunto de instrumentos, técnicas e tecnologias de poder que implicam num novo jeito de pensar e agir, visando conhecer e governar a riqueza, a saúde e a felicidade das populações. O poder passa a ser exercido através de um conjunto de alianças inconstantes entre diversas autoridades, tendo em vista governar uma multidão de facetas das atividades econômicas, vida social e conduta individual, à luz de concepções do que é bom, saudável, normal, virtuoso, eficiente e lucrável. A necessidade de saber e de conhecimento passa a ser central para estas atividades de governo e para a própria formação de seus objetos (Foucault, 2005; Foucault, 2008; Rose e Miller, 1992).
Foucault identifica a existência de três diferentes dispositivos de poder: os mecanismos jurídico-legais, os mecanismos disciplinares (da ordem da vigilância) e os dispositivos da ordem da segurança. Os mecanismos jurídico-legais se desenvolveram na Idade Média e construíram códigos de leis que acoplam um tipo de ação proibida a um tipo de punição. A partir do século XVIII, ganharam força os instrumentos disciplinares, vinculados a mecanismos de vigilância e de correção, que envolvem também os jurídico-legais, mas acoplam a ela uma série de técnicas adjacentes (policiais, médicas, psicológicas) que visam os indivíduos. O sistema jurídico-legal busca estabelecer a ordem a partir da análise da desordem, com o código determinando o que é proibido (que não pode ser feito), permitindo o que é indeterminado. Já a regulação disciplinar (da vigilância) busca determinar o que deve ser feito e o resto (sendo indeterminado) é proibido. Embora os mecanismos disciplinares também dividam o que é permitido (ou obrigatório) e o que é proibido, agem principalmente no sentido de determinar o que deve ser feito e como. A regulação disciplinar tenta regulamentar tudo, sem deixar escapar nada: a menor infração deve ser corrigida (Foucault, 2008).
Já os dispositivos de segurança, diferentemente dos dois anteriores, não adotam nem o ponto de vista do que é proibido/ impedido nem o do obrigatório: partem da realidade e buscam mecanismos que anulem/ limitem/ freiem /regulem esta realidade, buscando fazer seus elementos atuarem uns em relação aos outros, na direção que se quer conduzir. O surgimento dos mecanismos de segurança é possibilitado pelo aperfeiçoamento de um conjunto de instrumentos de análise que tiveram nas estatísticas uma de suas bases, a partir da construção da noção de “população”. Foucault observa que, com os dispositivos de segurança,
53 emerge uma relação bem particular entre o poder e o saber, entre o governo e a ciência, na qual a “razão de Estado” passa a ser relacionada a um conhecimento científico que se tornaria cada vez mais indispensável para um “bom governo”. No entanto, este conhecimento científico não é específico do governo (Foucault, 2008).
Foucault (2008) analisa o Estado moderno como um regime de “governamentalidades múltiplas”, em que os três mecanismos (jurídico-legal, disciplinar e de segurança) estão presentes. E observa que, em cada sociedade e em cada setor da sociedade, a história e a correlação entre os diferentes mecanismos pode evoluir de maneira específica (e por isso precisam ser analisados em suas especificidades), mas considera que há um sentido geral que leva à instalação dos mecanismos da ordem da segurança, articulando mecanismos jurídicos e disciplinares, às vezes multiplicando-os, que é o que vemos no caso da regulação sanitária dos produtos de origem animal, que se transforma num verdadeiro emaranhado legal e institucional, envolvendo saúde e agricultura, nos diferentes níveis (do internacional ao local) no qual até os técnicos especializados se perdem.
A presença destes diferentes mecanismos de poder pode ser percebida na legislação sanitária no Brasil. No RIISPOA de 1952, é possível identificar um forte predomínio de mecanismos da ordem disciplinar (da vigilância), como pode ser percebido nos cerca de 950 artigos e 152 páginas, que buscam estabelecer, com enorme quantidade de detalhes, tudo o que deve ser feito em cada etapa da produção e em cada produto (carnes, leite, queijo, ovos, mel), de acordo com preceitos traçados a partir de conhecimentos especializados voltados para a industrialização. No caso dos queijos, estabelece desde a maneira de cuidar dos animais, o local e a forma como proceder à ordenha; as construções, os utensílios, e os procedimentos para a elaboração do queijo até a forma como devem ser embalados, rotulados, armazenados, transportados, comercializados. Ou seja, normatiza como deve ser a realidade e tudo o que fugir à regra, mesmo que não expressamente proibido, não seria permitido. E o “ideal”, ou seja, a “norma” ou o “normal”, o que se tem como parâmetro para o estabelecimento das regras, é o modelo de produção industrial em maior escala. Há uma forte ênfase em estruturas e equipamentos, que são definidores do padrão industrial de produção em maiores escalas e são ao mesmo tempo exigências que colocam as maiores barreiras à entrada, no sentido colocado por Possas (1987).
Observa-se ainda no RIISPOA um forte peso de mecanismos disciplinares voltados para os indivíduos envolvidos na fabricação ou para os espaços individuais (os estabelecimentos onde se dá a produção). A legislação define um conjunto de procedimentos que passam a ser nomeados como “Boas Práticas de Fabricação” que envolvem princípios e regras considerados como adequados e necessários para a manipulação dos alimentos, que abarcam desde a extração da matéria prima até o processamento do produto final, visando “minimizar contaminações de alimentos” e garantir a “saúde do consumidor”. Os “Manuais de Boas Práticas” incluem itens como “higiene pessoal”, prescrevendo aspectos como tomar banho, lavar as mãos, usar luvas, toucas, aventais, botas. A presença de materiais sintéticos e descartáveis como símbolo de limpeza é uma constante, numa clara percepção de tudo que tenha origem industrial como sendo superior. A legislação prevê a necessidade de capacitações para as pessoas envolvidas na produção e de fiscalizações para verificação do cumprimento dos procedimentos preconizados pela legislação, que constantemente envolvem uma espécie de check-list em relação às instalações, equipamentos e instrumentos utilizados90.