fundamental II para os jogos internos do ano de 2016
Foto 24 Conversa sobre orientações profissionais
Fonte: Acervo da autora.
Em setembro de 2018, Recebi a visita de um amigo da Bahia. Seu nome é Daniel Medina, estudante de medicina da UFBA. Por conhecer um pouco da sua história de vida para chegar à universidade e por ele ser uma pessoa muito comunicativa, o convidei para fazer uma visita à escola Antônia do Socorro Silva Machado. Na ocasião, pedimos autorização da direção e do professor de português para usarmos suas aulas, e o convidado compartilhar suas experiências de estudante como egresso de escola técnica e, como universitário. O objetivo era falar de motivação, projetos de vida, mercado de trabalho e os caminhos da formação
profissional. Na ocasião falamos e comentamos a importância das cotas de acesso à universidade, embora ainda poucos manifestassem preocupação com tais questões.
5.5.2 A observação e interação em aulas de português
Dos primeiros dias letivos de 2019 até o início de agosto, quando precisei concluir a tese, foram muitos encontros, interações e sentimentos vividos com a oportunidade de conviver e aprender com os estudantes dos oitavos anos. Tinha gente que não gostava de sorrir, mas o professor de português estava sempre disposto a se aproximar, com toda boa vontade e humor procurava quebrar o gelo. Muito paciente, acreditava que a apatia de alguns poderia melhorar com doses diárias de atenção e alegria. Vários deles tinham muitas dificuldades de aprendizagem, por carências emocionais e cognitivas pouco enfrentadas ao longo da vida escolar, consequência de uma educação que não alcança sua linguagem ou quer lhe impor aprender outros saberes.
A primeira semana de aula foi pensada para ser bem lúdica para proporcionar o encontro de amizades construídas em outros anos e para aproximar os novatos que chegavam de outras escolas. As salas são bem lotadas com uma lista de 40 estudantes por sala aproximadamente, onde eles vão se distribuindo e demarcando seus espaços com pessoas com quem tem afinidades ou tensões. Escolhem as primeiras cadeiras aqueles mais atentos, no fundo da sala aqueles que querem ser menos percebidos. Tem os que gostam de sentar perto das janelas e às vezes se dispersam olhando o cenário externo ou o movimento de quem passa.
A sala de aula também é um momento de encontro e convivência, em que professores e estudantes vão se relacionar por todo um ano escolar. Por isso optei por acompanhar as aulas do professor de português, que tem a maior carga-horária e precisa planejar mais atividades semanais, o que exige mais interação e aproximações. Nas outras salas de aula da escola pude observar uma rotina escolar funcionar normalmente: a cada 45 minutos de aula professores trocam de sala e mantém uma programação “normal”, fazendo chamada e escrevendo no quadro, para alunos que ou se entretém bastante fazendo cópias, ainda que nem saibam o que estão anotando, ou aproveitam o momento para brincar e conversar entre si. É fato que essa foi uma percepção generalizada e inicial, pois eu não poderia estar em todos os espaços e precisava acompanhar pequenos núcleos dentro daquela realidade.
Os professores de artes e de geografia chamavam minha atenção por serem músicos e terem uma aparência mais espontânea com seus cabelos afro. São eles que puxam as batidas do tambor nos eventos da escola. Acabei não tendo oportunidade de acompanhar as aulas deles, mas soube por relatos dos estudantes que eles eram bem aceitos e procuravam trazer elementos da cultura afro-brasileira para as suas aulas.
Voltando para a semana de interação das aulas de português, no primeiro dia, foi priorizado desenvolver esse momento a partir da oralidade e da circularidade, para observar como eles também se expressam em situações mais espontâneas. Nem todos tinham interesse de participar da mesma maneira. Enquanto uns se divertem com as atividades, outros se comportam com indiferença. Um texto sobre sonhos foi lido e interpretado para iniciar as trocas de apresentações, partindo do princípio que estamos constantemente em contato com pessoas e trocando olhares, impressões, opiniões, energias.
A dinâmica dos sonhos foi o mote para uma atividade com balões, em que todos deveriam escrever seus sonhos em um pedaço de papel, colocar dentro do balão e enchê-los. Depois disso deveriam soltá-los de maneira a manter seus sonhos em vista e sempre “colocando para cima” seus sonhos e dos colegas. Foi bem curioso ver as diferentes reações: enquanto havia jovens que “levantavam seus sonhos” com alegria, vi jovens que não tinham força ou vontade nem para encher o balão. Balões sem vida (cor e calor) não podem voar, ficam no chão esquecidos. Essas atividades iam acontecendo em cada turma e cada uma tinha um comportamento específico. Existiram aqueles que protegeram seu balão dos sonhos, inclusive sem tentar jogar pra cima. E outros que jogaram os sonhos para cima e deixaram acontecer, ou seja, colocaram sua energia motivando seus sonhos a ficarem grandes (voar).
No segundo dia, um “integrante” novo foi levado para brincar com os/as jovens: era um macaquinho de pelúcia de cor marrom. A dinâmica era cada pessoa do círculo pegar o macaquinho e expressar uma reação que desejasse permitindo que ele chegasse a mãos de todos. O objetivo era na segunda rodada, o colega do lado fazer com o vizinho o que ele/ela tinha feito com o macaco. A reação foi assustadora, pois predominou sentimentos violentos entre eles, meninos e meninas. Por ser um bichinho de pelúcia, nossa expectativa era de que o macaquinho recebesse carinhos e abraços, mas foi tratado com agressividade. Ainda predominou a indiferença, chutes, tapas, jogadas para cima como se eles/elas não tivessem outro sentimento para compartilhar com aquele objeto que nada tinha feito com eles. Quando descobriram que passariam pelo mesmo tratamento que o macaco, eles/elas se assustaram e
como não queríamos favorecer a agressão passamos o brinquedo mais uma vez entre eles e assim foi dado uma nova oportunidade de reverem o que sentem.
Aproveitamos para conversar sobre a violência e refletir como estas atitudes nos afetam e como podemos contribuir para uma cultura de paz. Muitas vezes as reações são apenas um reflexo de como é a vida nas periferias, cheia de adversidades que exigem deles um comportamento para poderem sobreviver.
No terceiro dia, na mesma linha de cada pessoa refletir sobre suas atitudes, foi vivenciada outra dinâmica. Agora cada um recebia um pirulito, uma mão deveria ficar estendida com o pirulito e a outra mão parada para trás das costas. A estratégia era eles/elas descobrirem como cada um colocaria o pirulito na boca sem usar as próprias mãos. Era uma animação, tinha gente “esperta” que preferia não perder tempo com as regras, mas quando alguém descobriu que com colaboração todos poderiam degustar o pirulito, colocando-o na boca no colega a festa foi grande. Ainda teve resistência de alguns meninos, que ficaram envergonhados de ter contato com o outro.
Com essa experiência fui constatando a ausência de pontes entre as relações, o que ainda fortalece o pensamento de alguns professores/as que veem os estudantes como indisciplinados, desinteressados, de baixa cultura, ou violentos. Do lado dos alunos, há também a visão de que “aulas são chatas e sem sentido prático”. E na percepção de muitos entre ambos os lados, os espaços dessa interação são pobres e inadequados.
Mas o fato mais perceptível do cotidiano escolar é que muitas pessoas, entre professores e estudantes, pouco interagem, como se até o olhar fosse algo intimidador. Assim compartilho a visão de Carrano (2008, p. 183):
Muitos dos problemas relacionados com a baixa sinergia comunicativa entre professores e alunos residem numa ignorância relativa da instituição escolar e de seus profissionais sobre os espaços culturais e simbólicos nos quais os jovens se encontram imersos.
Por isso, o autor saliente a importância de investir esforços em criar relações e oportunizar o espaço da sala de aula como produtor de sentidos, o que é um caminho para se contrapor às políticas públicas precárias. Dessa forma, Carrano (2008, p.184) enfatiza que
Uma das possibilidades de recriação dos sentidos de presença na escola para professores e alunos se encontra na experimentação de espaços relacionais que permitam a emergência da multiplicidade de sujeitos culturais que se encontrem sob o manto da uniformização e homogeneidade que a categoria aluno encerra.
Em outras palavras, é necessário desconstruir os julgamentos sobre quem são os jovens, para percebê-los como sujeitos de direito e cultura, produtores de saberes e liberdade para criar.
No quarto dia, houve a proposta da atividade de identidade, em que eles tinham que apresentar informações de si mesmos através da representação das mãos. Além disso, cada dedo também tinha um significado, onde eles deveriam escrever, por exemplo, quem era a pessoa mais importante da sua vida, com o que eles se comprometem e também o que mais os desagrada. Cada um poderia criar livremente um desenho da sua mão e representar quem eles são. Por fim, foram construídos murais personalizados com cores e formas diversas onde eles puderam expressar quem são. Essa produção acabou se destacando nas paredes da sala, permitindo que eles se dessem a conhecer e refletir o sentido da palavra “identidade”.