3 DESCOBRINDO CAMINHOS PARA A REALIZAÇÃO DA PESQUISA
3.2 Local e sujeitos da pesquisa
3.2.2 Conversando sobre os sujeitos da pesquisa
Os sujeitos dessa investigação foram 38 crianças com idade entre 5 e 6 anos. Todas elas estavam cursando, na Escola Arco-íris, o Infantil V que, como já expliquei, corresponde ao último ano da EI. Desse universo de crianças, 21 eram meninas e 17 meninos, que pertenciam a turmas e turnos diferentes, estando assim distribuídas:
Tabela 4 – Quantidades de crianças do Infantil V por turma/turno
Turnos Infantil V A Infantil V B Total
Manhã 8 crianças 10 crianças 18
Tarde 7 crianças 13 crianças 20
Fonte: arquivo de pesquisa.
Quanto ao aspecto socioeconômico, essas crianças, em sua maioria, são advindas de famílias de baixa renda, cuja renda é de um a dois salários mínimos. Algumas crianças são filhas de empregadas domésticas, de pais desempregados e/ou biscateiros, enquanto outras moram com seus pais na casa dos avós, os quais têm, como única fonte de renda, a aposentadoria. Elas residem, geralmente, próximas à escola ou em bairros adjacentes, sendo que muitas delas chegaram no Infantil IV da respectiva escola oriundas do Infantil III de creches próximas.
No que se refere aos aspectos cuidar e educar, ações indissociáveis, algumas dessas crianças são assistidas por seus próprios pais, enquanto outras têm como seus responsáveis os irmãos mais velhos, os tios, avós e coordenadores de abrigo. No que se refere às suas tarefas escolares, existem algumas que quase não tinham assistência e outras poucas crianças frequentavam aulas de reforço no contraturno. Quando eu lhes perguntava sobre seus passeios preferidos, algumas respondiam mencionando o shopping e a praia e outras diziam que era andar na rua, na pracinha do bairro, fazer um passeio na casa dos primos, ir à igreja, passear de ônibus e/ou de trenzinho. Ao falarem sobre suas brincadeiras e brinquedos preferidos, seus olhos brilhavam e todo seu corpo parecia expressar a necessidade que o brincar representa para elas. Isso me fez lembrar que no
brinquedo, a criança sempre se comporta além do comportamento habitual de sua idade, além de seu comportamento diário; no brinquedo é como se ela fosse maior do que é na realidade. Como no foco de uma lente de aumento, o brinquedo contém todas as tendências do desenvolvimento sob forma condensada, sendo ele mesmo, uma grande fonte de desenvolvimento (VYGOTSKY, 1989, p. 117).
Com base nessa compreensão, eu escutava sobre as brincadeiras de faz de conta das crianças e os jogos com regras que elas mais gostavam. Dentre essas brincadeiras e jogos, tinham destaque, de um modo geral, as brincadeiras de escola, de casinha feita com lençol, de médico e de vestir roupas de adulto. Além dessas, outras brincadeiras também apareceram, como as de esconde-esconde, de pega-pega, de João atrepa, de jogar bola, de amarelinha, de pular corda e até de cócegas, como disse uma criança: “Gosto de brincar de cócegas com meu
irmão!”.
Entre os meninos, sujeitos da pesquisa, os brinquedos preferidos eram o boneco-do- Homem-Aranha, do Superman, do Homem de Ferro, os carros, pedaços de pau, pedras e dragões. Já as meninas disseram que gostavam de bonecas, panelinhas e maquiagens. Havia brinquedos que tanto os meninos como as meninas disseram que eram preferidos, como bicicleta, skate e bola. A maioria das crianças, sujeitos da pesquisa, não praticava nenhuma atividade esportiva ou de outra natureza, apenas algumas delas praticavam jiu-jitsu, outras o judô e outras treinavam na escolinha de futebol, modalidades que eram oferecidas no bairro por uma associação local ou pela igreja.
As crianças gostavam muito de falar sobre si, sobre seus amigos prediletos, sobre seu convívio familiar, sobre o aprender e sobre a escola. Em relação a todos esses aspectos, elas demonstravam o quanto estavam atravessados por afetos, desafetos, alegrias, tristezas, desejos e necessidades. Esses sentimentos vinham à tona quando algumas delas me falavam sobre seus animais de estimação, que tinham nomes próprios. Algumas tinham gatos cujos nomes eram Bidó, Foguinho, Tomás, Macaco, Biel e gato do Vovô; outros possuíam cachorros, como a Dora, o Dufi, o Dog e até um Papagaio que se chamava Fred. Esses bichinhos, portanto, faziam parte de sua identidade, do processo de construção de sua subjetividade, já que influenciavam suas formas de se expressar e de agirem diante da sua vida no âmbito familiar, como foi evidenciado em alguns recortes relatados por elas e por seus pais.
No ambiente escolar, esses aspectos também compunham, de certo modo, suas relações com o saber e, mais especificamente, com o aprendizado da escrita e de formas relacionais apreendidas a partir de interações das crianças com os outros que com ela compartilham aquele espaço de convivência. Isso se justifica porque, como afirma Charlot (2000), apesar de o sujeito ser singular, ele se constitui inserido nas relações sociais e, na experiência escolar, esse sujeito de forma indissociável relaciona-se consigo, com os outros e com o saber.
Falando um pouco mais sobre as crianças que me ajudaram a realizar a pesquisa, estas também afirmavam que gostavam de dançar e de assistir a filmes de gêneros diversos, por
exemplo, os de terror. Entre os filmes desse gênero, foram citados: Ana Belle, Boneco Assassino, Zumbi Ataca, Chuck e Palhaço Assassino. Apareceram também menções a filmes de ação, de aventura, de fantasia e muitos desenhos animados. Foram eles: a Lenda do Joãozinho, Ben 10, Homem-Aranha, Frozen, Galinha Pitadinha, Como treinar seu dragão, Capitão América, Rapunzel, Barbie, Pequenos Heróis, Smurfs, Branca de Neve e os Sete Anões, Cinderela e Homem de Ferro. Não por coincidência, portanto, muitos dos personagens de seus filmes preferidos estavam no meio daqueles brinquedos e das brincadeiras que eles me informaram.
Essas crianças, com quem tive o prazer de conviver durante a realização da pesquisa, também eram desejantes por aprender a tocar violão, por ter uma profissão, casar, ter filhos e, algumas, de serem amadas por seus pais, pois, em suas histórias de vida, elas eram muito marcadas por abandono ou rejeição. E por falar na história de vida delas, existem algumas que se referem à escolha de seus nomes narrada por seus responsáveis. Tais escolhas se justificam por ser o nome de um ator de cinema predileto da mãe, por ter sido o nome do avô paterno, nomes que lembravam uma pessoa amiga, bem como em homenagem a uma irmã que havia morrido de uma queda, quando ainda era bem pequena. Havia também uma história bem interessante, narrada pelo pai da criança, de que o seu nome havia sido colocado porque ele, o pai, ouviu que a mãe, ainda grávida, enquanto dormia, sonhava e falava alto o respectivo nome.
Portanto, como podemos perceber, cada uma dessas crianças é bastante singular em sua forma de ser e estar no mundo, apesar das muitas características comuns ao ser criança e à vivência de uma infância nas condições apresentadas. De forma mais específica, fiz um recorte caracterizando as crianças da pesquisa com a intenção de possibilitar uma aproximação mais real com esses protagonistas e, assim, podermos compreender melhor alguns aspectos a serem discutidos na análise de sua relação com o aprender e o saber escrever.
Enquanto fazia esses relatos, refletia sobre como elas me descreveriam, pois, nesse meu processo de buscar apreendê-las, senti que também era investigada e apreendida por elas, como dar a entender Graue e Walsh (2003, p. 10) quando afirma que “a distância física, social, cognitiva e política entre o adulto e a criança tornam essa relação muito diferente das relações entre adultos”. Na investigação com crianças nunca nos tornamos crianças, mantemo-nos sempre como um “outro bem definido e prontamente identificável”. Destarte, gostaria de poder falar de cada uma, de forma muito detalhada e especial, porém, sei que, por mais que tentasse sintetizar, não conseguiria expressar em poucas palavras a riqueza de detalhes relacionados a esses seres tão fantásticos que tive o prazer de conhecer, de conviver e compartilhar sonhos, medos, tristezas e alegrias, segredos, dúvidas e descobertas durante a pesquisa.
Por esse motivo, tentarei, no decorrer da escrita dessa pesquisa, tecer fios através dos quais as crianças, sujeitos participantes, possam se mostrar e se revelar na sua essência, cuja riqueza está na sua agência e competência, as quais se manifestam nas suas singularidades, nas diferenças individuais e, também, na forma como cada uma, em contexto coletivo, sente e ressignifica a realidade em que está inserida. Esse meu pensamento caminha no sentido de reafirmar “como a criança é tecida no seu contexto de vida e como ela participa, de forma ativa, do seu processo de construção [de si]” (CRUZ; MARTINS, 2008, p. 292). Nesse sentido, penso que a forma que escolhi para delinear esses aspectos possibilitou com que as técnicas de construção dos dados, sobre as quais falarei no próximo tópico, tornassem-se mais fiéis aos sujeitos-crianças e, ao mesmo tempo, compreensivas aos leitores que se sentirem instigados a caminhar nas trilhas dessa pesquisa.