4 TRAJETOS DO MÉTODO: ETNOGRAFIA DE UM SERVIÇO DE SAÚDE PARA
4.1 CapsAD e seu cotidiano
4.1.3 Convivendo com o cuidado
A pretensão inicial foi usar a observação participante de forma livre e, portanto, descolada de um roteiro previamente construído, mas após a segunda semana, em alguns momentos, o foco se voltou para dois eixos temáticos:
4.1.3.1 As práticas de cuidado realizadas pelos/as profissionais de saúde;
4.1.3.2 A apreensão das implicações dos/as profissionais nos atos de cuidado, a lógica do cuidado e as possíveis fontes de estigmas por meio do cuidado realizado junto dos/as usuários/as de crack e outras drogas.
No que tange as práticas de cuidado, alguns elementos como a interação com usuários/as e usuárias, as iniciativas em relação às atividades e/ou construção do Projeto Terapêutico Singular (PTS) destes/as, ou à realização de matriciamento81, participação ativa na RT mediante a abordagem de temas debatidos etc. Também busquei apreender a lógica de cuidado, ou seja, a estratégia utilizada, se de cunho proibicionista ou antiproibicionista, se as abordagens incluíam o uso de estratégias de redução de danos e se o cuidado profissional era norteado por uma visão complexa do sujeito cuidado, visando apreendê-lo, numa perspectiva da clínica ampliada ou mediante clínicas tradicionais, calcada em “especialismos”. A dinâmica de trabalho dos grupos, bem como os temas tratados também foram objetos de observação.
Também observamos eventos que se compunham na interface CAPSad e território, através de outras ações desenvolvidas no local pelos profissionais que cuidam dos/as usuários/as vinculados ao CAPSad pesquisados. Deste modo, tive a oportunidade de participar de várias atividades, a exemplo de assembleias de usuários/as, familiares e profissionais da rede, da confraternização da equipe do CapsAD, da construção coletiva de um projeto elaborado com fins de submissão a Edital do Ministério da Saúde, de um momento de supervisão institucional, já que tal participação só foi permitida pela gerência do serviço, posteriormente, após estabelecida uma relação de confiança da pesquisadora com a equipe.
Ressalta-se a importância da presença da pesquisadora nas Reuniões Técnicas realizadas todas as segundas-feiras das 13:00 às 17:00 horas, tendo em vista o teor desta
81 Denominado também de “Apoio Matricial” se pauta pela construção compartilhada no cuidado realizado por
reunião à construção e discussão em equipe sobre as práticas de cuidado e operacionalização ou não do PTS de usuários/as. Os dados coletados nestas reuniões foram sistematicamente anotados no diário de campo, um instrumento que serviu para voltar aos registros e subsidiar a análise dos dados e a construção do roteiro das entrevistas semiestruturadas.
Embora não estivesse previsto no projeto de tese, o campo evidenciou a necessidade da elaboração de uma ficha complementar com dados sobre cada pessoa entrevistada, principalmente para situar melhor o tipo de vínculo empregatício, se no momento da pesquisa tinha mais de dois vínculos, a renda, religião e outros dados que permitissem traçar um perfil mínimo de cada pessoa entrevistada. Este instrumento foi complementar, principalmente no que concerne à biografia dos participantes da pesquisa. (Vide Anexo B)
Na medida em que tentei apreender o curso de vida dos participantes desta pesquisa, tive diante de mim percursos institucionais da pessoa-profissional, cuja análise e cruzamento da história pessoal e profissional possibilitaram a apreensão das implicações (pessoais e organizacionais) no cuidado. Entretanto, o momento da imersão no campo, observação e participação das atividades com os/as profissionais do serviço, serviu para ter contato com a dinâmica de trabalho da equipe, suas atividades, a relação estabelecida entre os membros, as gratificações e insatisfações com o cotidiano do trabalho, bem como as práticas de cuidado realizadas em e na equipe. Além de conhecer as pessoas, seus gostos, questões familiares e opiniões por assuntos diversos.
No que se refere à apreensão dos percursos institucionais, ia apreendendo por meio de conversas informais com os profissionais, realizadas durante momentos na sala dos técnicos ou quando dava alguma carona a estes. Assim, na medida em que ia conhecendo as inserções dos/as profissionais em outros equipamentos da Raps, inclusive em outros municípios, percebia, ao observar as formas de interesse, comentários e cuidado quando se discutia algum caso, suas implicações ao olhar e/ou cuidar de usuários/as.
Neste contexto, pude perceber, por exemplo, que o fato de um dos/as profissionais trabalhar em um equipamento da rede voltado às mulheres usuárias de drogas, e lidar com questões ligadas à violência de gênero, sua sensibilidade para tais questões era visível. Assim como determinadas situações pessoais compartilhadas pelos profissionais, como um acidente de um dos técnicos devido ao uso abusivo de álcool, levado na “brincadeira” por alguns colegas dizendo que este deveria “colocar em prática a redução de danos”. E ainda apreender
um pouco da relação entre religiosidade ou a adesão a uma religião e a um cuidado pautado por uma escuta empática com os usuários e usuárias.
Devido as precárias condições de trabalho, inclusive de dificuldades relativas à disponibilidade de recursos financeiros à manutenção das atividades terapêuticas do serviço, no que concerne a disponibilização de material para a realização das oficinas de arte, alternativas foram buscadas, a exemplo do uso de material reciclado e, como nem todos os/as usuários/as tinham habilidades e nem sempre se conseguia este tipo de material, a arte- educadora contatou uma Organização Não Governamental (ONG) que oferecia cursos para confecção de artesanatos, visando a realização no próprio CapsAD de uma oficina de barro destinada à ensinar a técnica aos/às usuários/as, cuja ideia era torná-los/as agentes multiplicadores/as. Diante das dificuldades de recurso financeiro do serviço, o instrutor levou o barro. Esta atividade fez parte de uma das quintas das oficinas. No entanto, esta iniciativa ocorreu em um momento de fragilidades no serviço, no qual além da casa estar deteriorada, sem material, havia a expectativa de mudança de local, já referendada pela coordenação de saúde mental do município. Apesar de o trabalho ter mobilizado os/as usuários/as, não teve continuidade e nem solidificou-se mediante a multiplicação desta habilidade aprendida pelos/as usuários/as que participaram da oficina.
Durante o processo de trabalho da equipe no cotidiano do serviço, pudemos observar quais as estratégias utilizadas para a construção do PTS do usuário, bem como a escolha do/a TR, além de acompanhar triagens e outras atividades. Na construção destas formas de cuidar, foi possível compreender como o cuidado era gerido na equipe, ou seja, se as práticas de cuidado eram dialogadas com a equipe e usuários/as, bem como se tinham viés estigmatizante ou calcado na singularidade do sujeito.