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4 PERMANECER E “MULTIPLICAR-SE”: A METAMORFOSE NECESSÁRIA

4.1 LEITURAS DO BRASIL À LUZ DA EXPERIÊNCIA MIGRATÓRIA

4.1.1 Conviver com a incerteza

E aqui as pessoas falam muito “se Deus quiser”, “vamos ver amanhã”, agora eu entendo essas expressões. (Elise)

O estranhamento inicial dos migrantes cosmopolitas face aos códigos culturais locais e à capacidade de tolerância nos estratos populares, sobretudo para enfrentar a incerteza com relação ao amanhã, diante das limitadas perspectivas que lhes são socialmente abertas, se converte em um aprendizado para esses indivíduos , que são obrigados a rever seus conceitos sobre a agência humana e as conquistas individuais. Quando o desafio a vencer é a sobrevivência e a mobilidade social o fruto da persistência, múltiplas estratégias são acionadas pela população autóctone, criativamente, incluindo a resistência passiva, se necessário for.

O relato de Elise ilustra o entendimento gradual das práticas cotidianas locais como resposta às dificuldades e o mecanismo de apaziguamento das expectativas com relação ao futuro. Procedente de uma sociedade marcada pela previdência e pela valorização do planejamento, assim como pela cobrança de responsabilidades sobre o indivíduo, uma margem demasiado ampla de imprevisibilidade no comportamento pode parecer inexplicável.

Eu estava com duas crianças pequenas , morava entre a Ondina e o Rio Vermelho , era um bairro bem popular, várias vezes não tinha água , então os primeiros anos eu sofri bastante , foi difícil e eu sempre querendo trabalhar também ...

Eu tive uma menina que vinha, mas nem sempre. Isso é uma coisa que eu não sabia e que eu fiquei muito assustada, as pessoas falam e você diz : ele falou então vai fazer , mas não é verdade. “Ah eu venho amanhã consertar isso , vai ter água amanhã” e não vinham. Isso é uma coisa que foi muito difícil prá eu entender, que quando uma pessoa fala que vai fazer uma coisa, talvez ela faça; ou alguém dá uma informação pra você , talvez aquela informação está certa ou pode não estar certa . Então me disseram : “não, você tem que perguntar prá várias pessoas , sobre médico , coisas de alimentação ...”

O enfrentamento das dificuldades cotidianas para esses migrantes sem comunidade demanda não apenas o esforço habitual para se encontrar soluções , mas uma disposição adicional para compreender porque aqui se faz dessa maneira e não de outra, ou seja, decifrar as razões que movem os habitantes locais à ação e sobretudo as idiossincrasias moldadas por circunstâncias que há muito se prolongam , constituindo o modus vivendi gerado no lugar.

E- Isso realmente é uma coisa que faz muita falta , sem família, você tem várias perguntas, tem que perguntar para alguém , “quem vai consertar isso ?” Perguntar prá um , prá outro , tem que fazer uma investigação, eu já queria logo resolver . Prá escolher uma escola eu tive

que visitar umas trinta escolas, até achar o que eu queria , eu não tinha idéia de que era assim, a menor idéia.

E aqui as pessoas falam muito “se Deus quiser”, “vamos ver amanhã”, agora eu entendo essas expressões. Você está com uma idéia na cabeça, um desejo que você tem, mas demora prá acontecer, às vezes até muda no meio do caminho . Você pergunta prás pessoas : mas não era esse o seu desejo ? Elas dizem : “Ah não ! era, mas mudou e agora eu estou fazendo isso.” As pessoas não se lamentam tanto porque sabem que tem essa chance de não dar certo. A- Então isso você atribui a ..., é um modo de lidar com a incerteza ?

E- Sim, com a incerteza e por sobrevivência também, porque se for ficar deprimido porque as coisas não dão certo, não dá. Eu conheço famílias que tem crianças que fazem tudo prá poder estudar, é impressionante. A vida toda trabalha, trabalha, trabalha prá construir um futuro pros filhos e quando eles se formam é uma grande alegria; uma coisa que na Bélgica é normal , aqui não , é orgulho, tá estudando, se formaram , prá mim isso é muito bonito. A percepção do tempo e da finalidade da ação humana nos trópicos do sul global demanda uma reflexão vinculada à herança colonial, que deu origem a o que Laplantine chama de sociedades “invertebradas”, não organizadas sob o imperativo do bem comum e a partir de valores estruturantes coercitivos, mas de um “laisser-aller” que estimula múltiplas estratégias de sobrevivência, onde nenhuma uniformização parece possível. No imaginário circulante sobre a América Latina a ausência de marcas profundas do processo civilizador sobre a consciência dos sujeitos pode ser percebida como um primitivismo ingênuo ou insensato, incompreensível para o pensamento racionalista e pragmático europeu.

Rudolf (63 anos, austríaco) relata a visão com que chega ao Brasil aos 22 anos, como voluntário de uma ONG e se choca com o (para ele) imprevisível modo local de legitimar competências e daí extrair benefícios. A própria categoria “previsão” é solapada por uma inesperada anulação do que ele imaginava ser um procedimento autorizado e por si só legítimo. A simples frase “aqui as coisas são diferentes” relativizou de imediato, no episódio relatado, uma reivindicação de direito pretensamente válida no âmbito internacional.

A- Mas quais foram as suas primeiras impressões ?

R- O que eu li sobre o Brasil foram coisas escritas pelos alemães. Eu sabia que aqui tudo fica prá amanhã, que o pessoal não está muito disciplinado, isso é uma coisa bem sul-americana. Então o que é que acontece , eu cheguei no RJ em 15/05/69 com uma bolsa e uma mala de ferro que tinha ferramentas , instrumentos , gravador, máquina de escrever , essas coisas. E

eu tinha uma autorização da embaixada brasileira em Viena que eu poderia entrar com isso tudo, com o carimbo do embaixador. Acontece que quando eu mostrei pro cara da alfândega ele disse : “isso aqui não vale nada”, me mostrou um banco ao lado e completou : “tem um pessoal aí que resolve isso prá você”.

Era um despachante, eu ia pagar $50 cruzeiros novos naquela época para ele desembaraçar a coisa. E eu não fiz, eu deveria ter feito isso, mas como eu pensava: „eu não posso, eu tô certo, o documento da embaixada tem que estar valendo!‟ Eu fui mandado de um prá outro lado, não tô mentindo, o processo ficou dessa altura (uns quinze cm), eu tive que tomar um chá de cadeira de manhã durante dez dias, de oito hs da manhã na alfândega até meio-dia. Quando o processo chegou a essa altura (vinte cm), chega um cara e diz : Não , o encaminhamento desse processo está completamente equivocado, tem que começar de novo. Eu fiquei lá onze dias , só que eu gastei nesse tempo dez vezes o que me custaria $50 cruzeiros novos.

Indagado sobre sua experiência com a cultura , o jeito de ser e o tipo de organização peculiar da sociedade em que escolheu se inserir, Nicola (60 anos, italiano) desenvolve uma interpretação compreensiva do ethos local, marcada pela tolerância.

Olha se eu fosse um tipo com todas as coisas no seu lugar, com regras já codificadas e tudo, eu nunca teria escolhido o Brasil, como a América Latina em si. Porque eu não sou assim, não é por acaso que a minha escolha já dá um sinal preciso nesse sentido. Porque é mais uma vida que não é programada a longo prazo, é mais um viver o dia-a-dia. Mas não por uma questão de pobreza, mas como jeito de trabalhar , de enxergar a vida, de testar a vida do dia- a-dia, é uma coisa com mais fantasias , que dá mais espaço para aquelas pessoas que vivem.

Destaca-se na leitura apresentada a aceitação da impossibilidade de aqui se programar a vida, vivida na sua imediatez, o que pode se tornar um bônus segundo Nicola, ao abrir mais espaço para a criatividade individual e por que não, para o sonho.