1. DO PANTEÃO GREGO ANTIGO AO BOULEVARD OLÍMPICO CARIOCA
1.3 COPA DO MUNDO: DANO ESTÉTICO E AMBIENTAL 12
Sediar uma Copa do Mundo parece ter um gosto de vitória política no cenário internacional. O país-sede tem as atenções mundiais voltadas para si através de um grande foco midiático. A atração de turistas das mais afastadas regiões do globo é alardeada juntamente com a promessa de melhorias nos aparelhos sociais do país anfitrião.
O turismo aparece aí não como troca de valores culturais, como rico fenômeno social, mas como puro interesse mercantilista, como se o que importasse mesmo fosse o que há na carteira do cidadão turista, num sórdido jogo de interesses. Conforme a ação do capital globalizado age, demonstra que a realidade inerente à implantação dos megaeventos é muito diferente da propaganda anunciada, haja vista as remoções de comunidades pobres, o superfaturamento das obras, e os desvios econômicos de áreas básicas, como saúde e educação, para a manutenção da ordem nacional em um gigantesco aparato logístico militar-policial repressor. O turismo como atividade intermediadora
de diferenças fomenta, entretanto, em grande parte, relações de poder.
A Copa do Mundo foi criada em 1928 na França, sob a inspiração de Jules Rimet, que dá nome ao antigo troféu, e ocorre a cada quatro anos. A FIFA precisa reconhecer as federações como estados-nações para que elas possam participar das competições.
Portanto, assim como as Olimpíadas, a Copa do Mundo lida com aspectos políticos mundiais latentes. Damo e Oliven (2013, p. 21) concluem que “se procede a constatação de que um jogo de futebol é uma forma de experimentar a guerra por outras vias, as copas tornam a analogia ainda mais convincente na medida em que se trata de uma competição entre equipes que representam estados-nações. A rivalidade também é levada para os campos.” A Federação Internacional de Futebol (FIFA), diferentemente dos Jogos Olímpicos, reconhece e aceita equipes já profissionais desde sua formação.
A FIFA foi criada em 1904 em Paris, mas tem sua sede em Zurique. Depois de algumas tentativas de organização do campeonato mundial, em uma conferência em Amsterdã, em 1928, foi finalmente decidido que a primeira Copa aconteceria no Uruguai, já que a seleção uruguaia se sagrara campeã olímpica em 1924 e 1928; e, além disso, o Uruguai, na ocasião, celebrava o centenário de sua independência da Espanha. Porém, até dois meses antes do início do torneio, nenhuma seleção europeia tinha se inscrito oficialmente, e ao fim e ao cabo somente quatro países europeus atravessaram o oceano para participar do torneio, alegando dificuldades financeiras e administrativas. O presidente da FIFA, Jules Rimet, interveio junto ao governo uruguaio, prometendo custear as despesas de viagem de qualquer equipe europeia.
Mesmo com o esforço de Rimet, apenas Bélgica, França, Romênia e Iugoslávia participaram dos jogos, que por sua vez, teve treze equipes, a maioria de times da América do Sul, incluindo o Brasil.
O fascismo estava em ascensão na Europa e a crise econômica era grande quando a Itália foi sede da Copa de 1934. O presidente Benito Mussolini organizou o evento como uma propaganda
pró-regime, e a escolha pré-determinada de árbitros foi feita por Mussolini, como o sueco Ivan Eklind, que apitou a semifinal e a final dos jogos que tiveram o país anfitrião como campeão. A partida final foi disputada no estádio do Partido Nacional Fascista, denominado Estádio Mussolini.
A Espanha, devastada pela Guerra Civil, não participou da Copa de 1938 na França. A Áustria, anexada à Alemanha de Hitler, deixou, portanto, de ser um país independente, e foi obrigada a ceder seus jogadores à seleção alemã. Em 1939 teve início a Segunda Guerra Mundial, e as duas edições subsequentes da Copa (1943 e 1947) não ocorreram, até que em 1950 o evento foi abrigado pela primeira vez em solo brasileiro. Mas foi em 1958, na Suécia, que o país sagrou-se campeão pela primeira vez, fato que se repetiu no Chile, em 1962, e no México, em 1970, onde o futebol foi usado novamente como arma de propaganda, desta vez pela ditadura do governo de Emílio Garrastazu Médici. Era plena também a ditadura militar na Argentina, em 1978, quando a FIFA enfrentou protestos populares que reivindicavam a mudança da sede da competição; entretanto, o presidente da federação, o brasileiro João Havelange, manteve a realização do mundial no local. A imagem dos países, atrelada, portanto, a um conjunto de ações de marketing em um plano sistêmico de articulação política, foi sendo moldada através dos afetos ligados à torcida. Conforme o evento crescia, juntamente com as políticas neoliberais, os processos de chantagem corporativa e o poder da entidade FIFA, inclusive sobre a legislação local, também aumentavam. A estética das grandes mudanças no país, como a implantação de novos estádios, aparelhos de lazer e remoção forçada de comunidades pobres, como a Vila Autódromo, no Rio de Janeiro –
“que desde 1992 sofre ameaças de remoção por parte do Estado sob a justificativa de dano estético e ambiental à paisagem”
(FIGUEIREDO, LIRA, MOREIRA, 2017, p. 114) –, evidencia ainda mais a natureza simbólica imagética do evento.
A ideia aqui é, portanto, privilegiar as lutas minoritárias que questionam essa grandiosidade abafadora de controvérsias que é o megaevento; megaevento de implantação de grandes edifícios avant garde, desenhados por famosos arquitetos ou starchitectures, como o Museu do Amanhã, de 2015, projetado pelo espanhol Santiago Calatrava, ou também as pinturas grandiosas do Boulevard Olímpico, que incluem o mural Etnias, do artista brasileiro Eduardo Kobra, de 2016, que entrou para o Guiness Book como o maior grafite do mundo.
O recorte está nas ações artísticas ou estético-políticas que são de natureza contranarrativa, e nem sempre, por isso mesmo, suportadas financeira ou midiaticamente.
Notas:
12 - Em 1992, o Município do Rio de Janeiro alegou “dano estético e ambiental” em ação judicial ajuizada no Tribunal do Rio de Janeiro, requerendo a retirada total da Vila Autódromo. Fonte: FIGUEIREDO, Debora C. Dos S; LIRA, Joyce A. de;
MOREIRA, Lucas O. da C. “Rio de Janeiro e a política de cidade-espetáculo: a exclusão promovida pelos megaeventos”. In: Debates sobre direitos humanos fundamentais – vol. 2. Rio de Janeiro: Gramma, 2017.
2. TURISMO, TRUÍSMO? HOSTILIDADE E