Os campeonatos regionais no Brasil fizeram parte do calendário futebolístico nacional desde meados dos anos 1990 até o início dos anos 2000. Esse tipo de competição valorizava
17 Informação verbal obtida em entrevista no dia 8 de setembro de 2015. A entrevista na íntegra se faz presente
as rivalidades ente clubes de estados vizinhos e movimentava o futebol no início de cada ano. Entre esses campeonatos regionais, a Copa do Nordeste é, talvez, a que se mereça destaque, pois mesmo se tratando de uma região periférica no cenário econômico brasileiro, alcançou por muito tempo recordes de público e hoje é vista como modelo de organização para competições de futebol no Brasil.
No seu período mais recente, a Copa do Nordeste é um exemplo de divulgação midiática e, para isso, conta com todo o apoio do Esporte Interativo, emissora de TV que produz e transmite o campeonato para todo o Brasil. Embora seja uma emissora carioca, o Esporte Interativo viu a oportunidade na revitalização do outrora principal campeonato regional do país e conquistar um nicho de mercado ainda pouco explorado e, por conseguinte, expandir sua rede de audiência.
A emissora, inclusive, para promover o evento busca fazer uso de atributos que mexam com o sentimento do torcedor nordestino, explorando principalmente o orgulho do seu povo em ser da região. Quase tudo mostrado é perfeito, estimulando o torcedor a ir ou ao estádio ou acompanhar a competição na TV, e a única a emissora a transmitir todos os jogos é a TV Esporte Interativo. Esse sentimento bairrista é até mais explorado pela TV Esporte Interativo que pelas próprias afiliadas de redes nacionais, como as da Globo, por exemplo (ABREU, VASCONCELOS, 2015, p. 3), fazendo com que o fã do futebol nordestino também abrace e promova a emissora, formando uma relação de reconhecimento mútuo tanto para o crescimento do futebol da região quanto do canal de TV ainda novo no país.
Figura 3 - Pôster do Ceará, campeão da Copa do Nordeste de 2015
Fonte: Blog Diário do Nordeste18.
No exemplo mostrado pela Figura 3, nota-se a valorização do futebol nordestino com a criação de hashtags como #AquiéNordeste! e #AquiéPaixão!, inclusive, nas fotos oficias da
18 Imagem disponível em: <http://blogs.diariodonordeste.com.br/blogdokempes/wp-
equipe, que percorreu por vários veículos de comunicação após o título e consequentemente mostraram o quanto o torcedor nordestino é apaixonado e o quanto o futebol regional pode ser forte. Desta forma, o Esporte Interativo passa a ideia de que as poucas condições do esporte no Nordeste se davam por falta de valorização, principalmente midiática. Todavia, com a volta da Copa do Nordeste, os clubes da região podem voltar a ser fortes e conquistar ainda mais torcedores.
O Esporte Interativo também se inspira no modelo de organização da Champions League19, campeonato que o canal também é detentor dos direitos de transmissão, e repercute toda a sua estratégia de marketing para produzir e propagar a Copa do Nordeste. A competição nordestina, por exemplo, até ganhou o apelido carinhoso de Lampions League, uma comparação com o campeonato europeu que remete a uma figura da região que, apesar de muito controversa, representa o sentido de bravura e faz parte dos contos e histórias do povo da região. A bola oficial do campeonato também ganhou nome, sendo chamada de Asa Branca, uma homenagem à canção de Luís Gonzaga tratada como um hino nordestino.
Se fora de campo o simbolismo e o apego pela tradição regional prevalecem, o esforço para que os clubes tenham bom desempenho seguem a mesma linha. Um desses exemplos é a premiação dada aos clubes participantes, na qual o montante aumenta a cada ano e fortalece as agremiações nordestinas. Na edição de 2016, quase quinze milhões de reais serão repassados aos clubes20, valor próximo de 10 milhões a mais que a edição realizada quatro anos antes. Para se ter uma ideia, o time campeão nordestino receberá uma premiação maior que a cota dada ao quinto colocado do Campeonato Brasileiro, principal competição de futebol no país. Assim, os clubes da região podem usar o campeonato nordestino para se fortalecer em relação aos das demais regiões, que na grande maioria disputam apenas campeonatos estaduais nos inícios de cada ano, produzindo jogos muitas vezes com baixo público e de pouca expectativa para o torcedor.
O sucesso da Copa do Nordeste é tanto que inspirados no potencial desse tipo de competição, clubes do Sul e Sudeste do país também se interessaram em criar um novo campeonato para o primeiro semestre de futebol no país. A Primeira Liga, como vai ser chamado o campeonato, reunirá clubes do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais e Rio de Janeiro, sendo, portanto, uma espécie de reativação da antiga Taça Sul-Minas com o acréscimo de clubes do Rio de Janeiro desta vez. Com isso, os clubes passam a buscar
19 Liga dos Campeões, campeonato de futebol que reúne os principais clubes da Europa.
20 Disponível em: <http://blogs.diariodepernambuco.com.br/esportes/2015/11/05/premiacao-absoluta-do-
novas formas de atrair o torcedor e, sobretudo, de faturar mais alto nesse período, principalmente angariando cotas de transmissões de TV maiores que as geradas pelas competições de início de ano.
A comprovação desse sucesso se dá também pelos números de torcedores constatados nos borderôs dos estádios. A competição repetidamente consegue alcançar o público recorde a cada ano. Na edição de 2015, analisada neste trabalho, a final disputada entre Ceará e Bahia no Castelão levou mais de sessenta e três mil pessoas ao estádio21, sagrando-se, portanto, o jogo com maior público do ano e fazendo com que a Copa do Nordeste chegasse ao topo no quesito média de público em relação aos campeonatos realizados paralelamente, como os Campeonatos Paulista, Carioca, Mineiro e Gaúcho, que possuem um destaque midiático bem maior.
Deve-se ressaltar que a Região Nordeste tem uma intensa cultura de bifiliação clubista (ABREU, VASCONCELOS, 2015, p. 16), termo referido à tradição do nordestino de torcer por um clube da sua região e por outro clube com mais investimento, geralmente do Rio de Janeiro ou São Paulo. Uma das principais críticas em relação a essa bifiliação é a de que somente os grandes clubes desses estados têm presença midiática e principalmente jogos transmitidos pela TV, o que passa a mudar com a volta da Copa do Nordeste e a transmissão de todos os campeonatos estaduais da região pela televisão, sendo sete deles mostrados por canais do Esporte Interativo. Assim, mesmo sendo uma emissora de outra região, o Esporte Interativo tenta ser a emissora que “o nordeste merece”, bordão repetido diversas vezes nas transmissões de jogos dos clubes nordestinos.
Paralelo a isso, o grupo de mídia carioca, hoje pertencente a Turner, também é muito grato ao Nordeste pelo seu crescimento, pois conseguiram achar num público ainda inexplorado a condição para ter sucesso em audiência, engajamento e repercussão midiática. A competição que cresce a cada ano eleva também o nível da emissora, que passa a ser uma marca da região mesmo não tendo sua sede principal em nenhum dos seus nove estados.
A Copa do Nordeste é uma filha nossa praticamente. Algo que criamos quando éramos uma empresa de marketing esportivo em 2001 e fizemos em 2002, depois o sucesso dela infelizmente incomodou pessoas que a levaram ao fim, mas a volta da Copa do Nordeste pra gente é muito gratificante, pois o sucesso que ela tem de público, sucesso nas redes sociais, sucesso de audiência, sucesso comercial de patrocinadores, repercussão que isso tem, o orgulho que isso leva para o nordestino em fazer a competição mais legal, a mais charmosa e mais completa do Brasil e ao mesmo tempo mostrar para o Brasil como se organiza um campeonato de qualidade quase europeia é algo que ajudou muito o Esporte Interativo a crescer e eu tenho
21 Disponível em: <https://esportes.yahoo.com/blogs/jorge-nicola/copa-do-nordeste-tem-maior-media-de-
certeza que a gente ajudou muito a Copa do Nordeste a crescer. Então é um casamento perfeito que tem muitos anos pela frente... A gente tem uma média de crescimento de trinta a quarenta por cento em cada ano da Copa do Nordeste. Os números tanto de audiência na TV quanto de engajamento sempre foram muito grandes. Nessa nós tínhamos batido nosso recorde de engajamento e já estamos pensando na próxima que com certeza vamos bater esse recorde de novo (MEDEIROS, 2015)22.
Apesar disso, a emissora que havia criado um canal exclusivamente para a região, o Esporte Interativo Nordeste, teve que transformá-lo em um canal com conteúdo global para abrigar também as transmissões da Liga dos Campeões, que até então estava sem transmissão na maioria das operadoras de TV. Com essa medida, o conteúdo europeu passou a ser transmitido em um canal já presente nas operadoras, evitando a continuação de uma negociação burocrática e lenta para o grupo. Entretanto, a emissora não deixará de transmitir todos os jogos da Copa do Nordeste e os principais jogos dos campeonatos estaduais, ao contrário, essas competições devem continuar sendo valorizadas, pois são fundamentais para a região que teve grande importância para o repentino crescimento do Esporte Interativo.
4.4 Análise das estratégias de transmidiação do Esporte Interativo em jogos da Copa do