O conjunto de estratégias utilizado pelas pessoas para se adaptarem a situações adversas denomina-se coping (Suls, David & Harvey, 1996). Este conceito tem vindo a ser estudo por psicólogos na área social e clínica. Começou por estar vinculado aos mecanismos de defesa como forma de motivação interna e inconsciente em lidar com conflitos sexuais e agressivos (Vaillant, 1994). Posteriormente eventos externos e ambientais foram incluídos como prováveis desencadeadores deste processo (Tapp, 1985).
De acordo com Folkman e Lazarus (1980) e numa perspetiva cognitivista, tendo por base análises fatoriais, o coping foi dividido em duas categorias funcionais: o
coping focado nos problemas e o coping focado nas emoções. A perspetiva cognitivista
define o coping como um conjunto de esforços, cognitivos e comportamentais, que as pessoas utilizam com o objetivo de lidar com determinadas situações, internas ou externas, que podem provocar stress e ultrapassam os limites pessoais de cada um. O cognitivismo considera que as estratégias de coping podem ser aprendidas (Lazarus & Folkman, 1984).
O modelo de Folkman e Lazarus (1980) divide-se em quatro processos: o processo de interação entre uma pessoa e o ambiente; gerir o evento stressor e não controlá-lo; avaliação do problema com posterior interpretação cognitiva; esforço cognitivo por parte de uma pessoa que a levará a agir de forma a reduzir, minimizar ou suportar os estados internos ou circunstâncias externas que surgem da sua interação com o ambiente (Beresford, 1994).
No âmbito geral, os estilos de coping estão relacionados com as características de personalidade ou resultados de coping, por conseguinte as estratégias de coping referem-se às ações cognitivas ou comportamentais que a pessoa opta perante um episódio particular de stresse. Os estilos de coping podem influenciar as estratégias selecionadas, sendo ambos fenómenos distintos (Ryan-Wenger, 1992). De acordo com Carver, Sutton e Scheier (2000), cada pessoa desenvolve uma forma de lidar com o
stress que irá influenciar a sua reação em futuras situações. Os autores definem o estilo
de coping como uma forma particular de reação/resposta tendencial perante um evento
stressor, não implicando necessariamente a presença de um traço de personalidade.
Foi proposto por Miller (1981) dois estilos de coping ligados à atenção da pessoa perante eventos stressores: o monitorizador sendo aquele que está em constante alerta, vigilante, analisando todos os acontecimentos que ocorrem e procurando formas de o controlar; e o desatento, que envolve a distração, criando uma proteção cognitiva das fontes de perigo, uma vez que a pessoa se distrai e possibilita o seu afastamento de qualquer evento ameaçador, não sendo mesmo necessária qualquer ação. Surgiu, posteriormente, proposta por Band & Weisz (1988) a tipologia de coping primário e secundário, em que o primário está ligado ao objetivo de lidar com situações concretas, e o secundário é a capacidade que uma pessoa tem para se adaptar a situações de
stresse. Além desta tipologia, surgiu ainda o estilo de coping passivo, onde se evitam os
focos de stresse e o ativo, onde existe esforço para uma aproximação de focos de stresse (Billings & Moss, 1984). Outros estudos (Compas, Banez, Malcarne & Worsham, 1991) apresentaram o comportamento de coping em crianças através da dimensão de sociabilidade, dividido em prossocial, onde a criança procura a ajuda de outras pessoas e o antissocial em que existe uma ação agressiva contra os outros.
Ao contrário dos estilos de coping, as estratégias de coping têm sido ligadas a fatores situacionais (Folkman e Lazarus, 1980). Os autores enfatizam o papel das estratégias de coping, salientando que estas são inconstantes durante a evolução de um evento stressor; afirmando ainda que não se pode predizer uma resposta igual para situações semelhantes vivenciadas por uma pessoa. As estratégias de coping são assim pensamentos, comportamentos ou ações utilizados para encarar uma situação incomum (Folkman, 1984).
Estas estratégias podem ser classificadas em dois tipos mediante a sua função. O
coping direcionado à emoção, definido como um tentativa para regular o estado
emocional associado ao stresse, dirigidos a fatores somáticos que perturbam a homeostasia de uma pessoa; a título de exemplo pode falar-se do tabaco, onde uma pessoa “pretende” reduzir uma sensação física de tensão variando o seu estado emocional. O coping focalizado no problema, onde se efetua um esforço para modificar a situação que originou o evento stressante, tenta-se aqui corrigir o problema que existe entre a pessoa e a sua relação com o ambiente. Quando o problema é interno tenta-se cognitivamente redefinir o problema; quando o problema é externo, tenta-se resolver a situação através da negociação ou mesmo solicitando ajuda a pessoas que possam estar envolvidas no evento (Folkman e Lazarus, 1980). Ainda de acordo com os autores, para se definirem as estratégias a utilizar é preciso avaliar o evento stressor. Primeiramente analisam-se os riscos que a situação envolve, posteriormente analisam-se os recursos disponíveis para ultrapassar o problema. De acordo com Carver, Sutton e Scheier (2000), ambas as estratégias são utilizadas num processo de coping, e o uso de uma ou outra pode variar na eficácia, procedendo os diferentes tipos de stressores envolvidos (Compas et. al., 1991). Surgiu recentemente uma terceira estratégia de coping focada nas relações interpessoais, onde a pessoa procura apoio no seu círculo social para a resolução do seu problema (O’Brien e DeLongis, 1996).
Segundo Lazarus, DeLongis, Folkman & Gruen (1985) os processos de coping variam consoante o desenvolvimento de uma pessoa, isto porque cada um vivencia as situações de forma subjetiva. Para os autores à medida que cada pessoa evolui a resposta será diferente, conduzindo o coping a um estudo longitudinal. A maioria dos estudos que envolvem os processos de coping nas crianças utiliza a teoria de stresse de Lazarus e Folkman (1984), que o descreve como um processo simultâneo de avaliação cognitiva dos recursos de coping que o jovem dispõe e da avaliação dos eventos causadores desse mesmo stresse. Contudo, Compas et. al. (1987) frisou a necessidade de distinguir as noções de stresse e coping perante as reações das crianças e adolescentes. Para este autor, é preciso perceber o contexto social em que a criança se encontra, considerando a dependência e importância do adulto na vida da criança. É preciso ainda atender à genética e preparação psicológica a que a criança foi exposta para responder a circunstâncias stressoras, não se podendo desconsiderar as características básicas de desenvolvimento cognitivo e social que estas experimentam,
incluem-se aqui as crenças de autoestima e autoconfiança, mecanismos inibitórios e de autocontrolo, atribuição de causalidade, externa ou interna, o relacionamento com os pais e grupos de pares, e o enquadramento na comunidade em que está inserida (Suls, David & Harvey, 1996).
Foi sugerida por Ryan-Wenger (1992) a necessidade de uma teoria de
stresse/coping específica para crianças e adolescentes, uma vez que os eventos
causadores de stresse diferem do dos adultos e estão na maior parte das vezes longe do seu controlo direto. Nestes eventos stressores consideram-se os problemas com os pais e outros familiares, as condições socioeconómicas, os professores e grupos de pares. O grau de desenvolvimento cognitivo vai ter uma grande influência na escolha das estratégias, uma vez que a avaliação de um problema envolve vários processos simultâneos, que passam por: relacionar o problema com lembranças semelhantes anteriores, intensidade do problema, duração e a probabilidade desta voltar a ocorrer (Peterson, 1989). Os estudos de coping feitos em crianças têm investigado eventos de vida considerados como problemas, sendo estes: divórcio dos pais, hospitalização da criança, consultas médicas e resultados escolares (Ayers, Sandler, West, & Roosa, 1996). Foram referidas diferenças no género e idade no uso das estratégias de coping; verificou-se que o género influencia a escolha das estratégias, uma vez que a socialização é feita de forma diferente, enquanto as raparigas utilizam estratégias pró sociais, os rapazes utilizam estratégias de competitividade (Peterson, 1989). No que concerne à idade, devem trabalhar-se as habilidades para o coping focados no problema a partir dos anos pré-escolares, aproximadamente entre os 8 e os 10 anos de idade; enquanto as habilidades para adquirir estratégias focadas na emoção surgem mais tarde, devendo assim ser trabalhadas durante a adolescência, uma vez que as crianças muito pequenas não têm consciência do seu próprio estado emocional. Enfoca-se que a aquisição desta habilidade através dos processos de modelagem é mais difícil de aprender (Compas et al, 1991).