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7 A DISSUASÃO NUCLEAR EM ALGUNS PAÍSES

7.4 CORÉIA DO NORTE

A Coréia do Norte realizou seu primeiro teste nuclear, de forte apelo dissuasório, em 9 de outubro de 2006. O anúncio dessa bem-sucedida explosão de

sua bomba nuclear acirrou ainda mais as tensões em torno da questão nuclear norte-coreana. Vários países condenaram a ação. A Organização das Nações Unidas (ONU) e os EUA impuseram sanções imediatas a esse país como forma de punição em decorrência do teste.

A cronologia do programa nuclear da Coréia do Norte pode ser assim resumida:

- 1987: após 27 anos de pesquisas, a Coréia do Norte coloca em funcionamento o reator nuclear de grafite moderado de Yongbyon que, em teoria, tem a capacidade de fabricar armas nucleares. A inteligência americana inicia o acompanhamento das atividades nucleares de Pyongyang;

- 1992: em 25 de maio, delegação da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), liderada por Hans Blix, informa, após duas semanas de inspeção, que Pyongyang não pode produzir armas nucleares;

- 1993:

- março: a Coréia do Norte, signatária desde 1985 do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), anuncia sua retirada em três meses, alegando manobras dos EUA e da Coréia do Sul;

- junho: a Coréia do Norte e os EUA realizam suas primeiras conversas oficiais em Nova York, onde rejeitam o uso da força, inclusive de armas nucleares, e se comprometem a respeitar as soberanias respectivas. Pyongyang suspende sua retirada do TNP;

- julho: em segunda reunião, Pyongyang se compromete a dialogar com a AIEA se Washington ajudar a reconstruir seus reatores;

- 1994:

- julho-agosto: terceira reunião. Pyongyang aceita substituir seus reatores de grafite moderado por outros de água leve (que usam urânio e plutônio de baixa potência), um deles fornecido pelos EUA;

- outubro: assinatura do Acordo Marco, por meio do qual Pyongyang se compromete a congelar seu programa nuclear em troca da construção, em dez anos, de reatores de água leve. Os EUA e outros países compensam a Coréia do Norte com petróleo;

- 2002:

- janeiro: o presidente dos EUA, George W. Bush, inclui a Coréia do Norte no "eixo do mal" (expressão usada por Bush para designar Iraque, Irã e Coréia

do Norte, países acusados pelos EUA de desenvolver armas de destruição em massa e de colaborar com terroristas), exigindo que os três abandonem seus programas de armas de destruição em massa;

- outubro: os EUA informam que, durante visita do emissário americano James Kelly à Coréia do Norte, foi observado o reinício do programa nuclear, o que violava os acordos de 1994;

- novembro: a Organização de Desenvolvimento Energético da Península Coreana, que administra o acordo de 1994, decide suspender o fornecimento de petróleo à Coréia do Norte;

- novembro: a AIEA exige que Pyongyang suspenda seu programa nuclear, abra as instalações e aceite os controles;

- dezembro: Coréia do Norte anuncia a expulsão dos dois inspetores da AIEA de seu território (uma chinesa e um libanês);

- 2003:

- janeiro: a Coréia do Norte anuncia na ONU que se retirará do TNP e qualifica a AIEA de instrumento de Washington;

- abril: a China e a comunidade internacional convencem Pyongyang e Washington a negociar em Pequim;

- agosto: primeira rodada em Pequim das seis partes diretamente afetadas pela crise (EUA, as duas Coréias, Japão, China e Rússia), sem resultados;

- Setembro: a Coréia do Norte afirma que aumentará sua força de dissuasão nuclear se os EUA não suspenderem sua política hostil;

- dezembro: a Coréia do Norte exige, como condição para uma segunda reunião multilateral, que os EUA retirem o país da lista de países que apóiam o terrorismo, suspendam as sanções econômicas e militares e lhe proporcionem energia;

- 2004:

- fevereiro: Abdul Kader Khan, cientista fundador do programa de armamento nuclear do Paquistão, admite ter transferido tecnologia nuclear secreta para a Coréia do Norte. Na segunda rodada de negociações em Pequim, os seis concordam em criar grupos de trabalho para as conversas;

- junho: terceira rodada em Pequim, sem resultados;

- setembro: a Coréia do Norte boicota a quarta rodada, alegando que a atitude "agressiva" dos EUA impede o diálogo;

- 2005:

- janeiro: a nova Secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, qualifica a Coréia do Norte como "reduto da tirania" e ameaça usar a força; - fevereiro: Pyongyang anuncia, pela primeira vez oficialmente, que possui arsenal nuclear. A Coréia do Norte se retira indefinidamente do diálogo multilateral;

- julho: após conseguir um acordo em reunião secreta com os EUA em Pequim, a Coréia do Norte anuncia seu retorno às conversas. Começa a quarta rodada entre os seis países e, devido às divergências entre os EUA e a Coréia do Norte (que exige o direito a um programa nuclear com fins pacíficos), ela é adiada por três semanas;

- setembro: com várias semanas de atraso, a quarta rodada é retomada. Nela, Pyongyang apresenta a exigência de um reator de água leve para produzir energia nuclear com fins civis, algo a que os EUA, inicialmente, se opõem; - setembro: Pyongyang se compromete a abandonar seus programas nucleares de armamento e a retornar, o mais rápido possível, ao TNP. Os EUA confirmam que não possuem armas nucleares na península coreana e que não têm a intenção de atacar ou invadir a Coréia do Norte;

- novembro: começa a quinta rodada do diálogo em Pequim, na qual Pyongyang propõe um plano de desmantelamento de seu armamento nuclear que inclui, em uma primeira etapa, a suspensão de seus planos de testes atômicos e a não-transferência de tecnologia nuclear a outros países;

- 2006:

- abril: o ex-comandante das tropas dos EUA na Coréia do Sul, General Leon LaPorte, anuncia que a Coréia do Norte já possuía seis armas atômicas em 1994, quando prometeu congelar seu programa nuclear militar e, desde então, esse número teria aumentado;

- junho: Washington adverte que o lançamento de um míssil de longo alcance pela Coréia do Norte seria considerado uma clara ameaça à paz e à segurança internacionais, ainda mais se a trajetória passasse "por cima do território japonês";

- julho: Pyongyang testa pelo menos sete mísseis, um deles de longo alcance, o que é interpretado pela comunidade internacional como uma provocação. A pedido do Japão, é convocada uma reunião de emergência do Conselho de

Segurança da ONU;

- outubro: a Coréia do Norte anuncia ter realizado teste nuclear bem- sucedido. O Exército do Povo fez explodir (num teste subterrâneo, a 385 km de Pyongyang) uma bomba atômica de 15 kilotons, causando um tremor de 4,2 na escala Richter. A explosão da bomba gerou repúdio da comunidade internacional e da ONU. Os EUA pedem sanções imediatas contra aquele país.

Com relação ao programa de mísseis balísticos norte-coreanos, observa-se o seguinte:

- 1996: desenvolvimento dos mísseis classe No-Dong A e B, com características altamente ofensivas, com alcance variável de 1300 até 4000 km, a partir da velha tecnologia soviética de mísseis Scud. Assim, poderia atingir não só a Coréia do Sul, como ainda todo o Japão e as bases e a frota americanas no Oceano Pacifico;

- 1998: a Coréia do Norte lança um míssil No-Dong, que sobrevoa o Japão antes de atingir o Oceano Pacífico, causando grande apreensão em Tóquio. Ao menos 13 cidades japonesas, todas com mais de um milhão de habitantes e grandes centros industriais, estavam ao alcance das armas de Pyongyang;

- 2004: a Coréia do Norte anuncia testes com uma nova classe de mísseis, os Taepó-dong, tipo I e II, com alcance de 3750 até 15 000 km, colocando os territórios da Austrália e litoral pacífico dos Estados Unidos ao alcance do fogo norte- coreano;

- 2005: Kim Jong II, Presidente da Coréia do Norte, declara o sucesso dos mísseis NKSL-X, de alcance orbital.

Se os mísseis coreanos eram de alto risco para os países do Pacífico – mesmo com ogivas convencionais –, a possibilidade atual de portarem ogivas nucleares causa uma onda de impacto até então desconhecido nos países vizinhos, em especial no Japão e na Austrália.

Como visto em páginas anteriores, em 2002, Bush incluiu a Coréia do Norte no “eixo do mal”, o que fez com que os asiáticos se retirassem do Tratado de Não- Proliferação Nuclear (TNP) do qual eram signatários.

Acredita-se, com isso, que a questão nuclear norte-coreana seja uma tentativa de negociar um pacto de não-agressão e de ajuda econômica dos EUA. Para esse fim, a Coréia do Norte direcionou seu esforço para a dissuasão nuclear.

que os países vizinhos não-nucleares se vejam compelidos a desenvolver as suas próprias armas.

Japão, Coréia do Sul e Formosa possuem tecnologia nuclear civil avançada, o que lhes proporcionaria vantagem caso decidissem por fabricar armas nucleares. Os três, no entanto, iriam enfrentar enorme oposição por parte de Washington e de Pequim se avançassem nessa direção.

As três nações têm estado cobertas pelo denominado “guarda-chuva nuclear” dos EUA, o que tem funcionado durante décadas como dissuasão na região.

O perigo de esses três últimos Estados optarem por um intenso programa militar, que envolva também a obtenção da dissuasão nuclear, seria a criação de um grande desequilíbrio geopolítico na região. Tal desequilíbrio teria grande potencial de crise generalizada .

Realmente, vamos imaginar que o Japão, num futuro próximo, considerasse não a volta do velho Estado militarista (algo impensável), mas simplesmente que não pode mais ficar dentro do guarda chuva americano e/ou subordinado estrategicamente a uma China em ascensão e decidisse investir pesadamente nas suas forças militares. Com o seu potencial econômico e tecnológico, ele teria potencial para construir uma força militar extremamente poderosa, que poderia quebrar todos os equilíbrios geopolíticos asiáticos. A China, que luta para se afirmar como a grande potência regional, teria que se defrontar com um rival histórico extremamente poderoso. A Rússia teria o seu peso no tabuleiro de xadrez do Oriente ainda mais reduzido e a Coréia do Sul se sentiria ameaçada. Os próprios Estados Unidos, apesar de provavelmente gostarem da idéia de ter tropas japonesas ao seu lado em conflitos asiáticos, talvez tivessem suas desconfianças se poderiam realmente controlar aquele colosso renascido. (BERTONHA, A Remilitarização do Japão e a Geopolítica do Extremo Oriente, 2001).

A dissuasão nuclear pretendida pela Coréia do Norte certamente produzirá enorme reflexo para o sudeste asiático, uma vez que possui, como já foi visto, enorme poder de pressão. Terá, na verdade, um enorme “efeito tsunami”.

Para alguns importantes Estados da orla do Pacífico oriental, a posse de armas atômicas por Pyongyang é um risco demasiado elevado. Teme-se o que em política internacional passou a ser chamado “estado de paranóia” da liderança norte-coreana, ou mais simplesmente sua capacidade de levar à sério todas as ameaças da Administração Bush, incluindo-se aí a política de mudança de regime em Pyongyang. Por outro lado, a fraqueza do país e a possibilidade de um golpe militar criam a sensação de que tais armas não estão sob perfeito controle do Estado naquele país. Por fim, Washington insiste neste ponto, num ato de vingança, a Coréia do Norte poderia entregar um engenho nuclear a um grupo terrorista que assumiria o ônus de sua utilização contra o Japão, Austrália ou mesmo os Estados Unidos. Ocorre que três dos Estados com a maior sensação de ameaça em face de uma Coréia Nuclear – Japão, Coréia e Austrália – possuem completa capacidade de desenvolvimento de armas atômicas. Não só possuem o

conhecimento técnico, como ainda possuem os recursos financeiros adequados para produzir bombas num espaço de 15 a 30 meses. Além, é claro, de controlarem eficientes vetores de lançamento, tanto em termos de aviação supersônica quanto na área da balística intercontinental. Pelo menos em um destes países, o Japão, há uma forte corrente nacionalista – incluindo-se aí o partido no governo – que defende a produção de armas

nucleares como a única forma de deter a ameaça coreana. Desde 2001,

o Japão superou a cláusula constitucional de envio de tropas ao exterior – hoje possui um contingente no Iraque – e suas (assim chamadas) Forças de Autodefesas possuem o quarto orçamento militar do mundo, com um número superior de homens sob a bandeira do que o Brasil.

O tsunami, entretanto, não para aí – no retorno ao cenário mundial do Japão como potência militar. A nova situação choca-se diretamente com os interesses da China Popular. Embora com boas relações com Beijing, o regime de Pyongyang mostra-se claramente autônomo – como menosprezou a declaração conjunta do Secretário Geral Hu Jintao e o Premier Abe (China, Japão respectivamente) de 08/10/2006 quanto ao caráter “inaceitável” de um teste nuclear norte-coreano.

Não só Beijing teme mais um vizinho nuclear (já possui a Rússia, Índia e Paquistão), como teme, ainda mais, a possibilidade do Japão decidir-se pela construção de um arsenal nuclear próprio. Com 150 anos de disputas violentas com Tóquio, tendo sofrido a ocupação e o holocausto de chineses nas mãos nipônicas, a China veria como uma grande ameaça a nuclearização das forças armadas japonesas. Pyongyang estaria, no momento, dando motivos – para a grande irritação de Beijing – para que os nacionalistas japoneses (entre os quais o próprio premier Abe) imponham ao parlamento e à opinião pública um projeto nacional armamentista. Em tais condições – considerando o Japão um aliado e uma democracia estável – Washington não se oporia a tal projeto.

Em tal cenário caberia à China Popular deter o avanço do militarismo japonês, o que poderia desencadear uma nova e violenta “Guerra Fria” no Pacífico Oriental.(REVISTA CARTA MAIOR, 09 out. 2006 ).

Para finalizar, observam-se as duas citações a seguir:

Enquanto isso, a política de Washington também apresenta aspectos passíveis de crítica. Será que os arsenais nucleares desapareceram? Será que não acordámos uma nova redução dos armamentos estratégicos ofensivos em 2002? Mais do que isso, decidimos converter o entendimento alcançado num acordo. Nada disso foi feito. Também nada foi feito em termos de acordos de defesa anti-míssil. O lado americano tem uma ideia de criação de novas armas nucleares que são vistas, ademais, como armas convencionais de elevado poder de destruição. Uma tendência muito perigosa. Se as grandes potências não fazem nada de sério para reduzir os seus arsenais nucleares, continuando apostar na dissuasão nuclear, na doutrina de primeiro golpe nuclear e na modernização das suas armas nucleares, o que se pode esperar de países não detentores de armas nucleares? Olham para os EUA e para a Rússia e pensam que também precisam de tais armas, tomando em conta a experiência iraquiana. Os EUA agrediram esse país e derrubaram o regime local, fosse ele bom ou mau. Foi, de qualquer maneira, uma acção ilegítima e não aprovada pelo Conselho de Segurança. Pouco tempo depois, a Coreia do Norte anunciou possuir uma força de dissuasão nuclear. Pode ou não estar a fazer "bluff". É da competência dos especialistas. Em todo o caso, os americanos deixaram de ameaçar directamente a Coreia do Norte e entabularam negociações com a mesma no âmbito do grupo dos seis para dissuadi-la do seu programa nuclear. Não será um exemplo a seguir por outros países? Fabrique ou, pelo menos, diga possuir armas nucleares e terá com quem conversar. Como resultado, a Coreia do Norte foi mais longe, tendo anunciado que se iria retirar do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares e das negociações dos "seis" sobre o seu programa nuclear e

que teria desenvolvido uma arma nuclear. (Ria-Novosti - Consulado Geral da Rússia no Rio de Janeiro, 20 fevereiro 2005)

A base deste argumento não reside apenas na questão da defesa, mas também na tese defendida por muitos políticos importantes, como Margaret Thatcher e Winston Churchill, que acreditam que as armas nucleares são um elemento importante para a manutenção da paz. Segundo Churchill, as armas nucleares fizeram com que tanto uma guerra nuclear quanto uma guerra de armas convencionais de larga escala, perigosas demais para serem lutadas. Ele está certo quando afirma que sem as armas nucleares, as tensões existentes no mundo durante e após a guerra fria poderiam ter resultado um número muito maior de guerras. A dissuasão nuclear serviu por muito tempo como uma política de manutenção da paz. Por mais antagônica que pareça, a posse de armas nucleares por parte da Coréia do Norte, faria com que os EUA, receando uma hecatombe nuclear, evitasse intervenções militares.(SOUZA Jr e LINS - Jus Navegandi, maio 2003)

Então, verifica-se a distinção de tratamento dos EUA em relação à Coréia do Norte devido a este país possuir artefatos nucleares. Segundo alguns especialistas, este país asiático pode ter de 02 a 06 bombas atômicas. Isto já foi o suficiente para dissuadir qualquer ataque americano a esse país considerado como integrante do “eixo do mal” pelos americanos. Portanto, observa-se que não é preciso ter bombas atômicas em quantidade para destruir determinado país, mas sim o suficiente para lhe causar danos insuportáveis. É o cerne da dissuasão nuclear. Do mesmo modo, o Brasil poderia ter uma quantidade de artefatos atômicos que dissuadissem qualquer país aventureiro, nuclearizado ou não, de tentar impedir a consecução ou a manutenção dos objetivos fundamentais da nação brasileira.