2 O PENSAMENTO DE CORNELIUS VAN TIL: AS BASES TEOLÓGICAS DOS
2.1 Cornelius Van Til e a teologia holandesa reformada
Fundamental para a compreensão do pensamento vantiliano é a apologética do teólogo reformado holandês Abraham Kuyper (1837 – 1920)53. Além de teólogo e pastor, Kuyper foi editor chefe do jornal diário De Standaard (O Estandarte), periódico oficial do Partido Anti-Revolucionário — que representava o contingente protestante na política holandesa da época. Foi eleito membro da Caixa Baixa do Parlamento, órgão político equivalente à Câmara dos Deputados, foi também fundador e professor da Universidade Livre de Amsterdã, e Primeiro Ministro pelo partido Anti-Revolucionário (VRIES in KUYPER, 2003). O pensamento de Abraham Kuyper chega aos Estados Unidos, e passa a influenciar a teologia protestante reformada americana quando o teólogo holandês foi convidado pela fundação L. P. Stone, a proferir um ciclo de seis palestras num evento anual denominado Stone Lectures (“Palestras Stone”), realizado na Universidade e no Seminário Teológico de Princeton no ano de 1898, instituições nas quais, como sabemos, Van Til veio mais tarde a se formar e lecionar.
A antítese elaborada por Kuyper acerca do efeito do pecado para o conhecimento da verdade é decisiva para a teologia vantiliana54. Segundo Kuyper, a presença do pecado compromete a condição de conhecimento da verdade, mas não somente no que concerne à teologia ou à Escritura, mas a todo e qualquer tipo de conhecimento, inclusive o científico. O pecador, isto é, aquele que age contra os princípios e valores cristãos e as normas da escritura, possui uma visão de mundo corrompida. O teólogo holandês acredita na existência de dois sistemas de vida, antagônicos, e que determinam toda a visão de mundo do indivíduo. Para Kuyper, um sistema de vida é um princípio abrangente e que permeia todas as esferas da existência.
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“Van Til’s Princeton education was also strongly influenced by B. B. Warfield, Abraham Kuyper, and Herman Bavinck”. (WHITE, 1994, p. 38)
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Segundo Harriet Harris (1998, p. 252), “Van Til combina pensamento kuyperiano com idealismo britânico transcendental, que ele estudou no Colégio Calvinista e na Universidade de Princeton. A escola britânica enfatiza que a parte só pode ser entendida à luz do todo. Tudo encontra seu ponto de referência em Deus, o Ideal Absoluto que para Van Til deve ser trino”.
Kuyper acredita que o sistema de vida secularizado, aquele representado pelo modernismo humanista, é permeado pelo pecado55. Em seu entendimento, como sugere Harris, o efeito do pecado no homem é tal e qual a um “obscurecimento da nossa consciência” (HARRIS, 1998, p. 210), fazendo com que em virtude de sua concepção de vida e de mundo, o pecador possua apenas condições limitadas de conhecimento. Conclui-se então que, para Kuyper, o pecador não possui as qualidades ontológicas para elaborar o conhecimento verdadeiro, seja de Deus, da natureza ou dos próprios seres humanos.
Em função desta antítese, que indica a existência de duas visões de mundo antagônicas em consequência da influência do pecado, a epistemologia de Kuyper elabora uma noção dicotomizada do homem, da vida, da consciência humana e da ciência. Todavia, estas duas visões de mundo não são apenas perspectivas de conhecimento, mas, como já indicamos, constituem dois sistemas de vida “que estão em combate mortal” (KUYPER, 2004, p. 19). Isto porque, cada visão de mundo corresponde a um sistema de vida que, por sua vez, caracteriza certo tipo de ser humano. Por conseguinte, dois sistemas de vida equivalem a dois tipos de ser humano “constitutivamente diferentes um do outro” (KUYPER apud HARRIS, 1998, p. 211), são eles: o crente e o incrédulo.
O primeiro é o cristão, aquele que, segundo Kuyper, possui todas as condições para um conhecimento verdadeiro do mundo. O segundo, o incrédulo, que possui uma visão de mundo “míope”, digamos, mas é alguém que ainda tem chances de se tornar um cristão e restabelecer as condições de acesso ao conhecimento verdadeiro pela via da regeneração, ou seja, pela via da conversão ao cristianismo calvinista ortodoxo. Na teologia kuyperiana, a regeneração tanto dicotomiza a humanidade quanto restaura a totalidade da consciência do indivíduo, permitindo assim um conhecimento verdadeiro. Deixando a condição de pecador e vivendo os ensinamentos cristãos, segundo a palavra da Escritura em todas as esferas da vida, o regenerado modifica a sua própria visão de mundo e passa a ter as condições necessárias para um conhecimento verdadeiro.
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“[...] deve ser sentido que no Modernismo, a imensa energia de um abrangente sistema de vida nos ataca; depois também, deve ser entendido que temos de assumir nossa posição em um sistema de vida de poder, igualmente abrangente e extenso. E este poderoso sistema de vida não deve ser inventado nem formulado por nós mesmos, mas deve ser tomado e aplicado como se apresenta na História. Quando assim fiz, encontrei e confessei, e ainda sustento, que esta manifestação do princípio cristão nos é dada no Calvinismo”. (KUYPER, 2003, p. 19)
Além desses elementos do pensamento de Kuyper — os dois sistemas de vida antagônicos, dois tipos diferentes de ser humano e a regeneração — a noção kuyperiana de graça comum também permeia a teologia de Van Til. A partir desta noção, o teólogo de Westminster assevera que o Criador concede a todos os homens a graça da regeneração. Assim sendo, os ímpios, tal como os regenerados, também são redimidos do pecado pela graça divina, tornando-se a partir de então capacitados para o conhecimento e ação orientada pela verdade da fé cristã.
Também no que diz respeito ao método, é Kuyper quem fornece a Van Til as bases do seu método pressuposicionalista, posto que “[...] considera a fé como o ponto de partida de todo o conhecimento”56 (HARRIS, 1998, p. 224), em oposição à filosofia do senso comum que predominava no Seminário de Princeton57. A presença de Kuyper no pensamento de Van Til também pode ser vista na simples leitura da sua obra, posto que o último por vários momentos discute com seu antecessor, ora reafirmando suas teses, ora desconstruindo e se contrapondo a seus argumentos. Fato é que a influência do pensamento kuyperiano é fundamental tanto para a teologia vantiliana quanto para a estruturação da identidade teológico-filosófica do Seminário Teológico de Westminster, declaradamente calvinista, reformado e conservador.