De acordo com José J. Queiroz, no pensamento complexo de Morin “a ênfase é a concepção do corpo como corporeidade, isto é, a visão do corpo integrado no humano e no processo de humanização. [... Isto significa que o estudo do corpo] precisa sempre ter presente as origens” (QUEIROZ, 2008, p. 78). No humanizar-se do hominídeo, o conceito de homem passa a ter um “duplo princípio, o corporal ou bio-físico e o psico-sociocultural, um remetendo ao outro” (MORIN, 2002, p. 51).
Morin insiste na importância do enraizamento da condição humana no biológico- natural. No entanto, este aspecto não pode ser considerado isoladamente, de forma disjuntiva, mas em interação com o psico-sociocultural. No processo histórico de interação circular- recursiva entre os dois aspectos na espécie humana ocorreu uma complexificação de seu organismo, tal como considera também Damásio. E, a partir de determinado momento na evolução do corpo-cérebro, surgiu a possibilidade de um impulso maior na criação da cultura, a qual supõe o pensamento e o conhecimento. Neste sentido, o existir biologicamente não
poderia estar separado do pensar e criar cultura. Pelo contrário, são movimentos simultâneos e recursivos, sendo o ser humano considerado por Morin (1961) como sendo 100% biológico e 100% cultural. Assim,
[...] a mente humana é uma criação que emerge e se afirma na relação cérebro-cultura. Com o surgimento da mente, ela intervém no funcionamento cerebral e retroage sobre ele. Há, portanto, uma tríade em circuito entre cérebro/mente/cultura, em que cada um dos termos é necessário ao outro. A mente é o surgimento do cérebro que suscita a cultura, que não existiria sem o cérebro (MORIN, 2002, p. 52-53).
Quando Morin se refere ao cérebro, está sempre implícito que está falando da tríade corpo-cérebro-mente, de acordo com sua concepção do homem como unitas multiplex, unidade na diversidade e diversidade na unidade. O ser humano é, para ele, uno e múltiplo ao mesmo tempo, não cabendo fragmentações e disjunções em sua concepção de homem.
Nesse sentido, poderíamos afirmar que a relação mente-corpo é considerada por Morin como um continuum circular recursivo em que uma interfere no outro e vice-versa, se entrelaçam e retroagem entre si, transformando-se mutuamente em movimento constante, com a mediação da cultura. Daí podemos inferir que a subjetividade humana é corporificada, contendo em si, de forma inseparável, a corporeidade e a chamada mente pensante em relação retroativo-recursiva, como duas faces da mesma moeda (MORIN, 1961).
Para Morin, o humano constitui-se numa unidade que carrega em si uma multiplicidade de aspectos interrelacionados que são antagônicos, concorrentes e complementares ao mesmo tempo, implicando múltiplas conflituosidades: o racional e o irracional, a razão e a emoção, o homo sapiens e o homo demens1, o homo faber e o homo ludens, o homo prosaicus e o homo poeticus etc.
Uma pedagogia realmente inovadora deveria traçar uma estratégia que abrangesse todos esses aspectos do educando e não apenas o intelecto aprendente, como faz o ensino tradicional. Essa pedagogia seria essencialmente antilogocêntrica, considerando o humano como homo complexus, no qual o sapiens e o demens co-habitam o mesmo ser, sem hierarquização. Se o sapiens refere-se à inteligência racional, o demens refere-se ao corpóreo do educando. Seria necessário resgatar o segundo sem jamais preterir a primeira. Como considera Queiroz, o educando, para Morin,
1 Esta concepção foi construída por Morin a partir das últimas descobertas sobre a estrutura e o funcionamento
do cérebro humano. O autor considera o cérebro um conceptor cuja hipercomplexidade, à primeira vista, causa espanto por assemelhar-se a uma máquina muito confusa, que nos indica que a loucura seria o preço a pagar pela sapiência (MORIN, 1999, p. 109-110).
[...] não é e não deve ser considerado apenas sapiens no processo da aprendizagem, ele é também demens. Por isso é constituído de logos, inteligência e saber, indissoluvelmente unidos à sua corporeidade, que é fonte inesgotável de vida imaginária e poética, repleta de afetos, amores, ódios, que nos tornam “seres infantis, neuróticos, delirantes e também racionais” (QUEIROZ, 2008, p. 81).
No pensamento complexo de Morin (2002, p. 61), “o gênio brota na brecha do incontrolável, justamente onde a loucura ronda. A criação brota da união entre as profundezas obscuras psicoafetivas e a chama viva da consciência”, as primeiras manifestando-se no âmbito da corporeidade e a segunda no âmbito da inteligência racional. Na dialógica entre os dois âmbitos, antagônicos e complementares, tem sua morada a criatividade humana, a ser estimulada no processo educativo. “Nenhum gênio teria desabrochado se o ser humano sempre tivesse sido prisioneiro das lógicas, dos códigos genéticos, das imposições culturais e sociais. O gênio, suas pesquisas e descobertas, avançam no “vácuo” das incertezas e das indecisões.” (QUEIROZ, 2008, p. 83)
Resta enfatizar aqui que o terreno privilegiado para estimular a citada dialógica no processo educativo é o das artes, da música, da dança, do lúdico, do imaginário, da literatura, da poesia, do teatro, justamente os considerados como secundários pelo sistema educativo tradicional.
Em termos de linguagem, essa união dialógica corresponderia a uma religação entre mytos e logos, entre a linguagem simbólico-mítico-mágica e a empírico-lógico-racional. Morin enfatiza a necessidade dessa religação como uma das estratégias de uma pedagogia que supere o pensamento linear, disjuntivo e redutor do cartesianismo. Ele considera que essas duas formas de linguagem e/ou pensamento fazem parte do pensar humano e podemos utilizá- las de forma unilateral, compartimentada ou associada, segundo as escolhas culturais. A modernidade escolheu a unilateralidade do logos. Já entre os povos arcaicos essas duas formas de pensamento-ação fazem parte de um mesmo universo duplo, sendo a vida vivida naturalmente nesta unidualidade (MORIN, 1999, p. 179). Nessas culturas não existia ainda a cisão corpo/mente, assim como não havia a cisão mytos/logos, as quais se correspondem mutuamente.
Morin refere-se à força da existência como corporeidade no humano ao considerar a resistência do simbólico-mítico-mágico a desaparecer da vida da humanidade.
Por toda parte onde se pensou poder expulsá-lo, o pensamento simbólico/mítico/mágico reapareceu sub-repticiamente ou em força. A
evacuação total do simbólico e do mítico parece impossível, pois insuportável de viver; significaria esvaziar o nosso intelecto da existência, da afetividade, da subjetividade, deixando lugar apenas para as leis, equações, modelos, formas. Seria retirar todo o valor das ideias por retirar-lhes os valores. Seria dessubstancializar a realidade. (MORIN, 1999, p. 192-193)